"Segure-me aqui a Língua desta Menina."

quinta-feira, agosto 13, 2015


Foi na Primavera tensa de 1999 que uma malfadada espinha de carapau me escorregou através da glote e se espetou bem lá no fundo da garganta.

[Isto não é uma metáfora. Se é sensível a descrições de teor demasiado humano, cru e visceral, não leia mais. Embora não seja dos posts com maior "violência gráfica" que escrevi. 
Há piores.]

Tentei tossir, mas ela não saiu. Comi pedaços de pão inteiro, na esperança de empurrá-la pelo aparelho digestivo abaixo, e-depois-logo-se-via, sempre com a memória daquela tia-avó que um dia foi parar ao Hospital com uma espinha de bacalhau atravessada no reto.

O pão não resultou. A espinha estava ali para ficar. Nessa noite, deitei-me com o desejo que a espinha demoníaca desaparecesse milagrosamente e, na manhã seguinte, tudo não tivesse passado de um sonho menos bom.

A manhã chegou e, com ela... a Espinha. Agora, em letra maiúscula, como se escreve o nome das coisas que ganham uma personalidade própria. Tomei duche com a Espinha. Vesti-me com a Espinha. Fui trabalhar com a Espinha. E, após as advertências dos colegas, que me alertavam para a possibilidade de começar gangrenar - eu perdoei-lhes, a sério que sim!, dei-me por vencida e fui para o Hospital.

A funcionária da triagem parecia farejar algo embaraçoso no motivo da minha ida às Urgências, quiçá digno de notícia no "Correio da Manhã", a avaliar pelo meu aspecto saudável e, ao mesmo tempo, tremendamente envergonhado. Não, não tinha objectos estranhos entalados nas cavidades anal nem vaginal! Apre!

- Tenho uma espinha espetada na garganta - disse eu, baixinho, baixinho.
- Tem o quêêê? - rosnava a redonda senhora, de dentro do guichet. A fina arte da velhacaria consiste em fazerem-nos repetir alto e em bom som, numa sala cheia de pessoas curiosas e atentas (ou que a nossa timidez assim nos faz parecer), o motivo do nosso embaraço. [Agora que olho para trás no tempo, constato como era introvertida na época.]

- TENHO UMA ESPINHA ESPETADA NA GARGANTA! - respondi, mais alto, para satisfação da curiosidade mórbida que me rodeava - E porra para isto tudo! - isto não disse, mas pensei, intercalado por impropérios também ditos mentalmente, que não me atrevo a reproduzir aqui.

Fui atendida pelo Otorrinolaringologista, um senhor de bigode fininho, com uma calma anestésica e uma paciência infinita. O Sr. Dr. espreitou cá para dentro e decidiu mentalmente quais os instrumentos de tortura que iria utilizar em mim. Chamou um enfermeiro para ajudar:
- Segure-me aqui a língua desta menina.

Gene Simmons - Kiss
O jovem enfermeiro chegou e, com um pedaço de gaze, puxou-me a língua cá para fora com força. Ai Senhores. Senti-me como o vocalista dos Kiss, mas sem as pinturas faciais, o cabedal preto e o talento para cantar.

Entretanto, o Sr. Dr. Otorrinolarin.... (isso, isso), segurava uma pinça que seria suficientemente grande para agarrar na parte mais larga da tromba de um elefante. E era aquilo que ele ia enfiar-me goelas abaixo. Jurei a mim mesma nunca mais comer peixe. "Nunca mais como peixe, nunca mais como peixe, nunca mais como peixe."

Conforme a pinça zoológica me adentrava a faringe, percebi no quão parecidos os humanos podem ser com os gatos em espasmos pré-vómito de bolas de pêlo. Julguei que fosse vomitar na cara do médico do bigode fininho e do enfermeiro que me continuava a puxar a língua como se esta fosse elástica. Pensei que depois disto ia ficar tão comprida como a passadeira vermelha dos Óscares do Cinema. Ou bifurcada como as das serpentes!

Foram várias as tentativas de chegar até à Espinha. As lágrimas escorriam-me pelos cantos dos olhos, enquanto eu pensava, tentando encontrar algum lado positivo naquilo, "Vai que ela tinha ficado espetada à saída..."

Por fim, a super-pinça conseguiu apanhar a diaba da espinha. Agora, volta a ser espinha em letra minúscula. Na minha imaginação, depois de 24 horas com ela enterrada nas minhas carnes macias, tenrinhas e indefesas, esperava uma espinha gigante. Tinha menos de 1 centímetro. Muito pequenina. Mas velhaca, bem velhaca, a danada.

Após esse episódio, em 1999, estive, de facto, vários meses sem comer peixe. Depois, gradualmente, voltei a comer peixe. A minha zanga, em particular com os carapaus, durou muitos anos. Olhava para eles com um desprezo que mais ninguém entendia, a não ser eu e a minha glote, que ainda guardava memórias funestas.

Raramente comi carapaus depois disso e, as poucas vezes que o fiz - sempre a contragosto - era porque estava em casa de alguém, e não tinha mesmo como fugir ao maledeto peixe, mais perigoso que um tubarão branco.

Até esta semana. De volta a 2015, após 16 anos, comi carapaus assados no forno.
E, olhem... gostei. Tenho que admitir: estavam deliciosos.
Carapaus, estão perdoados!

A sentir-me um autêntico carapau-de-corrida,
Hazel

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1 COMENTÁRIOS

  1. Maria Teresa D. Valente28 de agosto de 2015 às 20:58

    Que delícia de conto, embora tenha lhe custado um certo receio do carapau.
    Rendeu-nos um bom alerta e a receita do carapau abaixo, obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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