As palavras-cruzadas fazem-se até ao fim

quinta-feira, outubro 20, 2016


Junto ao lago, o dia amanhecia em tons de azul-aguarela pincelados aqui e ali a dourado pela copa das árvores que começavam a perder as folhas. O cheiro a café invadia a casa sem pedir licença e o rádio tocava baixinho para não se sobrepôr às boas-novas trazidas pelos pássaros.

Na mesa de madeira velha, o jornal ficava aberto na página das palavras-cruzadas, que eram preenchidas com silenciosa satisfação pela filha mais nova depois de todos terem lido os crimes, as falcatruas, o horóscopo e as últimas do desporto. Um aroma antiquado a after shave de lavanda impregnava subtilmente as páginas recém-folheadas pelo homem de olhos amendoados e tristes, camisa xadrez e um pedaço de papel higiénico colado no queixo para estancar o corte da barba feita à pressa.

Cada um cumpria a sua rotina sem reparar nela, perdido dentro de si próprio e desligado dos outros à sua volta. Abílio sonhava com um milagre, uma lotaria que lhe permitisse não ter mais de trabalhar, para a qual nunca comprava bilhete, por achar um desperdício de dinheiro. Anotava contas mirabolantes num caderno seboso, onde destinava a meia dúzia de pessoas de quem gostava uma parte da fortuna imaginária, e escondia-o com vergonha no fundo da gaveta das peúgas e camisolas interiores.

Um dia, Josefa, a mulher, à procura de meias gastas para passajar com um ovo de madeira e muita paciência, encontrou o caderno. Não percebendo os apontamentos codificados e receosa de admitir que os tinha lido às escondidas, atafulhou as meias na gaveta e disparou aflita para casa da irmã, pensando que o marido tinha contraído uma grande dívida e a andava a enganar.

A irmã, que sempre fora distante e ciumenta, comprazeu-se intimamente da sua dor e deixou-a sentada sozinha, lavada em lágrimas que jorravam em torrentes como se o próprio lago escoasse através dos seus olhos.

O lago espelhado acabou por desaparecer com a construção de uma auto-estrada que viria a ser o começo do fim. Abílio deixou de comprar o jornal. O mundo lá fora cessou de existir quando a reforma antecipada chegou como um presente envenenado enquanto cuidava de Josefa, que ficou doente e se preparava para a derradeira viagem.

A auto-estrada, que servia para facilitar as deslocações, tornou-as demasiado rápidas para o bem de todos e, aos poucos, cada um se foi embora para nunca mais voltar à casa do lago, que tinha passado a ser uma casa vazia e assombrada. O jornal ficou para sempre aberto sobre a mesa do pequeno-almoço na página das palavras-cruzadas. Faltava apenas uma palavra para completar o quadro. Linha dez, horizontal. Quatro letras. Sinónimo de sentimento, começava por A, acabava em R. Nunca foi preenchido.

Tinham sido, ainda que inconscientemente, quase felizes, à sua maneira remendada e remediada. Incapazes de preencher o vazio que lhes atormentava silenciosamente a alma, viviam com meio coração apenas, e aquilo que deram uns aos outros foi a metade vazia, quando poderiam ter dado a metade boa.

O arcano Nove de Copas surge como um velho conselheiro que, numa voz paciente e sábia, pergunta se alguma vez estaremos realmente satisfeitos. Ele não espera resposta. Vira-nos as costas e caminha rumo ao pôr do Sol, deixando-nos entregues ao nosso poço sem fundo de onde brotam os desejos que nos atropelam a saciedade. Queremos tanto ver este poço transbordar, que desvalorizamos os copos de água que ele nos traz - porque achamos que é pouco. E a sede nunca passa.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1603
foto: Matti Decaux

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