Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Bem-viver


«Ai filha, é aqui, aqui mesmo ao fundo das costas, ai que dor», gemia a tia Carlota, enquanto esfregava as cruzes com a mão direita cheia de anéis de prata. Era uma mulher estupenda. Grande, forte, de ancas largas e seios fartos que denunciavam um gosto particular pelo erotismo vivido secretamente nos seus tempos de viço.

«Instalaram-me uma antena ‘paroloca’ no quintal, diz que é para apanhar mais canais, mas eu tenho lá tempo para ver televisão, filha». Padecia de todas as maleitas conhecidas e mais algumas ainda-por-inventar — mas jamais de desânimo, abençoada —, que desapareciam como gelo em dia de Sol mal subia os degraus do autocarro, de mala de viagem pela mão.

Nunca se sabia por onde andava. Viajava com a sofreguidão de um fugitivo que leva a foice da morte atrás de si. Poucas vezes privei com a inquietante senhora; via-a quase sempre nos funerais e, até mesmo em tão circunspectas ocasiões, a sua presença era um vendaval quente e colorido, abundante de beijos lambuzados e repenicados que distribuía sem poupar saliva, enquanto relatava, a uma conveniente distância do finado e dos que o choravam, as novidades da última excursão a Benidorm, a Paris, a Fátima, a Ceuta, a Marrocos.

De tez bronzeada, como se tivesse condensado dentro de si o Sol do deserto do Saara, a sua alegria vibrante fazia-me acreditar que só pela sua chegada tinha começado uma festa. As suas roupas tinham padrões que nunca combinavam entre si, como pessoas de diferentes nacionalidades a falar ao mesmo tempo em diversas línguas. Nela, fazia sentido.

Esta semana, o arcano Rainha de Ouros inspira-nos a temperar a vida com especiarias, a rodopiar com o seu perfume extasiante e a deliciar-nos com todos os pequeninos prazeres que conseguirmos alcançar, nutrindo o corpo e a alma. Urge devorar a vida com volúpia. Aqui, agora. Já. Pela nossa felicidade e pela dos outros.

Imagine o que seria se cada leitor decidisse hoje fazer algo simples, prazeroso e diferente. Mesmo que esteja a ter um dia difícil. Melhor: não imagine, faça. Prove a si próprio que consegue sair da norma e permitir-se um momento de prazer, tenha a idade que tiver: recorte esta crónica, faça um avião de papel com ela, escreva com um marcador “Abrir em caso de tédio”, e atire-o pela janela!

Que esse avião de papel represente para si um pequeno prazer que dará início a muitos outros (com pontuação a dobrar se alguém abrir o avião para ler). Desafio-o.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1626
Foto: Wetmount, licença CC0