A vendedora de ovos

quarta-feira, março 07, 2018


A SENHORA-GALINHA usa quase sempre o mesmo kispo cor-de-papas-de-aveia, a condizer com o tom das asas das suas galinhas. Roliça e muito baixa, encontro-a sempre sentada em doce pacatez sobre um banquinho que desaparece debaixo das saias, dando a ideia de estar a chocar os ovos que tem para venda.

Ao seu lado, sobre as pedras da calçada, as caixas de madeira cheias de ovos, alguns das suas galinhas, e um ou outro com o carimbo vermelho do aviário, mas quem é que vai reparar.

A tranquilidade de quem já viu muito e por isso sabe que não há penas que valham apoquentarmo-nos com pouco, fá-la esperar pelas clientes, quer chova, quer faça Sol, com o mesmo sorriso reconfortante que lhe ilumina o rosto trigueiro, salpicado por uma constelação de manchas deixadas pelos Verões, beijos de Sol que nunca desaparecem.

O olhar astuto, de quem faz as contas de cabeça com a mesma genica que uma galinha depenica dois grãos de milho, segue-me com atenção à medida que desço as escadinhas da vila de Oeiras pela manhã, sempre apressada como a lebre-das-maravilhas, numa maratona contra os ponteiros do relógio.

Retribui os meus bons-dias, enquanto choca os seus ovos com mansidão. Sei que me lê como a um livro, que percebe quando estou contente ou cabisbaixa. 

Deixo, pois também a leio: naquele vislumbre de breves segundos, sei que miga com paciência o pão velho para fazer papas para as galinhas, que recolhe os ovos com as mãos pequeninas e amorosas, as mesmas que não sabem escrever muito bem, mas sabem amar. Às vezes é dura com as palavras. Mas nem sempre. Há muitos anos que aprendeu a escolher quando falar e quando guardar silêncio, e a manter uma certa reserva com as pessoas. Sei tudo isso sem nunca termos falado — e aposto que ela sabe outro tanto de mim. Ou mais.

A senhora-galinha é a derradeira guardiã dos contos inventados e por inventar, das fábulas das cegonhas e das raposas, das galinhas com dentes, dos coelhos com asas e dos elefantes voadores. 

É por ela que ainda existem ovos de ouro; são exactamente esses que choca sentada em frente ao muro de cimento que não tem cor nem luz, mas que ganha vida e apenas existe por ela estar ali, assim como aquele fragmento de dia é essencial para preservar a doçura trigueira das minhas sardas de menina que um dia serão também manchas da idade, beijos de Sol dados ao longo de muitos Verões — como os seus. Fazemos parte da vida uma da outra. Somos amigas, sem sequer nos conhecermos.

O arcano Três de Copas inspira-nos a encontrar alegria, doçura e amizade ao virar da esquina — e quando não o encontrarmos, talvez porque já escasseiem no mundo (ou porque nem todas as localidades têm a sorte de ter uma senhora-galinha), sejamos nós a levá-lo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1671
Ilustração: Prawny, licença CC0

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