Quatro casamentos e três funerais

quinta-feira, junho 14, 2018


A respeito do cartaz “Não matem os velhinhos”, lembrei-me de uma gaiata que conheci, bem mai’nova e desempoeirada que a sirigaita da frase. Sorridente e surpreendente no seu batom vermelho-malagueta e óculos-escuros-femme-fatale, assentia com a cabeça enquanto escutava a sua história ser-me contada pela amiga que fez as apresentações.

Que a jovem contava oitenta e duas primaveras. Sorri com admiração, duas vezes a minha idade.

Que o marido tinha morrido havia meia-dúzia de anos num acidente de viação; que era ela quem estava ao volante. O meu sorriso logo esmoreceu, dando lugar ao silêncio respeitoso, compadecido e atrapalhado de quem ficou subitamente sem saber como reagir.

Mas que continuava a conduzir. E que entretanto tinha casado novamente havia poucos meses, lançava a entusiástica amiga enquanto a moça de oitenta e dois anos ia acenando com a cabeça numa expressão travessa. O meu sorriso voltou aos poucos a estender-se aliviado, ora bem, a vida continua, está certo, tem que ser assim.

Que era a quarta vez que casava. As minhas sobrancelhas subiram em espanto.
E todos pela igreja. Homessa, como?, indaguei. Eles morrem todos!, exclamou sem grama-de-drama. Não aguentei. Levei as mãos à cabeça e ri-me incrédula. Os lábios vermelho-malagueta riram também, da tragicomédia que por vezes é a vida; e que se apresentava ali, simples, despreocupada e limpa na doce e divertida senhora que vivera o dobro de mim.

Compreendi no seu riso que não havia tempo a perder, culpas carregar, tristezas a alimentar, dramas para chorar. Havia tão somente um ponteiro de tempo a marcar tiquetaque e um apetite voraz pela vida como o de uma criança que apenas quer os doces sem passar pela sopa e pela salada. Tudo é relativizado. As tragédias, o que os outros pensam, as preocupações, os medos. Só há tempo para o agora e para a verdade que, no fundo, são quase sinónimos um do outro.

Ajudei-a a subir as escadas depois da consulta. Os olhos brilhavam-lhe. Ia com pressa, afinal estava casada há pouco tempo e o corajoso marido desafiador das funestas estatísticas esperava-a em casa. Despedi-me grata pelo privilégio da aprendizagem que trouxe aquele sorriso vermelho-malagueta, com uma admiração e afecto que duram até hoje.

Esta semana, o arcano Ás de Paus aponta-nos a luz da vida e diz-nos que podemos fazer com ela tudo aquilo que quisermos, a qualquer momento. E que bom que é. Tenhamos a idade que tivermos. Aconteça o que acontecer. Só depende de nós. Mesmo que os outros não entendam as escolhas imprevisíveis ou fora do que é considerado “normal”.

Que a centelha divina possa brilhar enquanto houver caminho para andar. Os velhinhos já não são como antigamente; estão mais vivos, mais rebeldes e mais jovens que muitos jovens que andam por aí a passear cartazes.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online
Email: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1685
foto: Mansellgrl5, licença cc0

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