Uma Questão de Atitude

A auto-confiança é uma peça de roupa absolutamente impecável, sem vinco nem mácula, que assenta como uma luva sobre a nudez humana. 

É de tal forma valiosa, que todas as lojas de roupa oferecem a ilusão de proporcioná-la. As marcas mais caras elevam a fasquia - quanto mais inflaccionado o artigo, maior a imagem de poder e segurança em si próprio que o seu portador irá transmitir. 
As pessoas não têm feito outra coisa nas últimas décadas, senão comprar auto-confiança com prazo de validade - que dura até ao fim da estação, quando as roupas passam de moda. 

Para que sejamos felizes, amados e bem-sucedidos, temos de ser confiantes. 
É um ingrediente essencial. Na sua falta, prevalece uma fragilidade que nos isola e faz sentir incapazes. Se avaliarmos com um distanciamento quase estrelar, todo este jogo de espelhos em torno da imagem cria a ilusão de auto-confiança ao mesmo tempo que no-la retira e mantém reféns de uma aprovação que achamos precisar.

Mas, afinal, o que é a auto-confiança? Consiste em confiar em nós mesmos, não nas roupas que usamos, ou no carro que temos. Confiar no interior, sem depender do exterior. Teoricamente, deveria ser assim. Na prática, não é. Na essência, continua a ser.

Isto remete-me a uma entrevista de emprego a que assisti certa vez, numa multinacional igual a tantas outras. O jovem entrevistado apareceu de calções com padrão colorido havaiano, t-shirt e chinelos de enfiar no dedo. Enquanto dissertava sobre as suas anteriores experiências profissionais, de perna esquerda traçada sobre a direita, brincava distraidamente enfiando o dedo indicador entre os dedos do pé.

É interessante recordar o contraste entre o rapaz que trazia as pernas cheias de areia da praia e os funcionários da empresa, que caminhavam de forma muito séria e profissional, desprovidos de expressão corporal, como autómatos. Todos usavam o mesmo corte de cabelo, curto, higiénico e discreto, e os mesmos sóbrios fatos de executivo que, na casual friday, davam lugar a uma camisa de corte perfeito e calças de modelo chinos.

Acreditavam-se tão seguros de si que, nos seus olhares jocosos para com o jovem entrevistado, se revelava o quão escravizados estavam pelas normas instituídas. O rapaz nunca se apercebeu. Ou, se se apercebeu, não se incomodou. Ele vestia a verdadeira roupa da auto-confiança. - E ficou com o emprego.

O Rei de Paus, esta semana, desafia-nos a ser quem somos, sem precisar da aprovação de ninguém. A irmos mais longe, desbravando caminho para além das multidões despersonalizadas, manifestando a nossa unicidade. A transformar chumbo em ouro, sendo alquimistas de nós mesmos, pois somos feitos de luz - e nascemos para brilhar.


Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 17 Março

Terapia Regressiva


A Terapia Regressiva permite, como o nome indica, voltar atrás para curar.

Estas e outras questões poderão ser respondidas através da Terapia Regressiva:

- Porque é que alguns relacionamentos, em particular os familiares, podem ser tão dolorosos, ou mesmo impossíveis de se manter?
- Qual a origem de certos medos ou fobias?
- Qual a origem de certos padrões de comportamento negativos ou doenças?
- Que aprendizagens e desafios trouxe de outras vidas anteriores?

Como se processa?
O paciente submetido à Terapia Regressiva com Reiki encontra-se sempre consciente. Não é praticada hipnose. Durante todo o processo, é o próprio paciente que vê com os seus olhos as outras existências que teve, reconhecendo padrões, desafios ou condicionamentos resultantes no momento actual. As emoções poderão ser sentidas com grande intensidade, despertando momentos de catarse.

Poderei descobrir que fui uma figura histórica numa vida passada?
É praticamente impossível! As possibilidades são ínfimas, microscópicas.
O mais provável e comum é confrontar-se com outras existências cheias de desafios, e reviver as emoções associadas.


A Terapia Regressiva apenas pode ser realizada presencialmente.
É impossível determinar previamente a duração de uma sessão, que pode estender-se de 2 a 4 horas.

Local: Carcavelos e Oeiras
Valor: 100€
Marcação: casa.claridade@gmail.com

Hazel Evangelista
Mestrado em Reiki Essencial

O Cão de Loiça



Todas as casas têm em algum canto discreto, fundo de gaveta, ou entalado entre os livros, um bibelot feio e deprimente que não fica bem em lado algum e ninguém sabe o que lhe fazer. 

Vai-se empurrando para longe da vista, na inconsciente e vã esperança de vir a ser engolido pelo triângulo das Bermudas que habita debaixo do mesmo tapete para onde varremos todos os nossos assuntos mal resolvidos - até ao dia em que recebemos a visita de alguém que, com olhos de lince e sem papas na língua, exclama:
- Macacos me mordam, de onde é que desencantaste essa fancaria?

E eis que a realidade se exibe sem pudores, desnuda e desafiadora perante o constrangimento dos nossos olhos. 

Às vezes, sentimo-nos como esse bibelot, desprovido de valor e de serventia, nem mesmo a de enfeitar os móveis, vítima dos tempos que estão sempre a mudar e a exigir que se mude com eles. 

Se resistimos à mudança, ou mudamos de forma desleal em relação a quem realmente somos, apenas podemos esperar mais insatisfação no futuro - são as regras do jogo.

Que resta, encolher-nos? Desculpar-nos, desfazer-nos em lamentos, tentar dissimular a feiúra (que nada mais é senão a falta de amor e de respeito por nós mesmos)?

Se foi isso que sempre fizemos - baixar-nos para não dar nas vistas, calar para não incomodar os outros - então, aceitámos desempenhar o papel de vítima, do indesejado cão de loiça dos olhos tristes, desprezado e esquecido no fundo de uma gaveta com cheiro a naftalina.

Até ao instante em que se faz luz e, num rasgo de auto-libertação, deixamos de curvar as costas para endireitá-las com a mesma fibra e tenacidade de um girassol que, durante a sua vida inteira, todos os dias se recusa a murchar e se vira em direcção ao Sol. 


É então que assumimos todos os nossos pontos brilhantes assim como os baços, tomamo-los como nossos - porque o são - e não mais os escondemos. 

Damos um passo em frente e deixamos de andar a marcar passo, ou a seguir os passos dos outros. 

O arcano Julgamento, que se repete após ter saído na edição de 25 de Fevereiro, volta a confrontar-nos com aquilo que ainda está desarrumado na nossa vida, para que o arrumemos de vez e possamos finalmente afirmar, altivos e seguros: 

- Sou um cão de loiça, e tenho muito orgulho nisso!

Coloquemos o recém reconciliado bibelot em cima da televisão, numa assumida ode ao mau gosto feliz, genuíno e livre, por oposição ao bom gosto impessoal, submisso e sem voz própria. Ou deitemo-lo fora de uma vez por todas. Mudar é bom, quando mudamos para aquilo que sempre quisemos ser.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 10 Março

Palavras e Expressões Alentejanas


Um destes dias, peguei no lápis e no meu caderno de pensamentos, e comecei a reunir uma lista de palavras e expressões alentejanas com que cresci. Ai que bem que soube! Esta vossa escriba não nasceu no Alentejo, mas a parte que vai desde as costelas flutuantes até às unhas dos pés é feita de 50% de genes alentejanos.

Com respeitosas desculpas por algum palavreado que poderá constranger alguns mui nobres leitores de trato mais cerimonioso — que os alentejanos de outrora chamavam tudo pelos nomes, ou então inventavam designações mais castiças — atrevo-me a partilhar este pequeno acervo de expressões coloquiais das terras do além Tejo, resgatado dos recantos mais poeirentos da minha memória, assim como algumas histórias:

Levas um par de nalgadas nã' tarda.
Foi logo a primeira expressão que me lembrei, porque levei muitas. Os alentejanos não usam a palavra "rabo". Só para os animais. Os humanos têm nalgas. Nalgadas são palmadas no rabo.

Pantomineiro (pronuncia-se pant'minêro).
Mentiroso. Aldrabão. Aquele que diz pantominices.

Estás aqui, estás a levar uma estampilha.
Bofetada. Também levei, especialmente da minha professora primária, que estava na menopausa e, para aliviar os picos de fúria, fazia o gosto ao dedo a esbofetear os miúdos que se esqueciam de fazer os trabalhos de casa (eu era dolorosamente esquecida...).

Caga-te, porca.
Adoro esta. Tem tanto de embaraçoso quanto de cómico. Já não a oiço há anos.
É o equivalente ao "gaba-te, cesto", quando alguém tem a mania da superioridade e gosta de se vangloriar. Mal podem imaginar a quantidade de vezes que a digo mentalmente em resposta a gabarolices que oiço por aí. 😀

Vou à da Conceição.
Ir "à da" é ir a casa de alguém que, geralmente, nunca é muito longe. No entanto, se a casa for longe, numa outra cidade a vários quilómetros de distância, nesse caso já se dizia "vou visitar a Conceição". Dizia-se sempre "à da", e nunca "à do", a menos que se tratasse de um homem que vivesse sozinho.

Cagalosa.
Havia uma vizinha alentejana com quem eu costumava ir para a praia de Carcavelos quando era pequena. Era uma mulher simpática, mas, benzam-na os Deuses, bruta.

Na época, não sabia nadar. Ela obrigava-me a ir para a água; levava-me ao colo e deixava-me cair quando vinham as ondas e eu não tinha pé. Acabava por ir ao fundo, em pânico com a água a entrar-me pelo nariz e pela boca. Quando ela me agarrava e voltava a tirar da água, ria-se e dizia sempre "Ah, cagalosa!". — Eu ficava danada.

Cresci zangada com ela, porque passou um Verão inteiro a brincar aos afogamentos comigo e ainda tinha o desplante de me chamar cagalosa, porque sabia que me arreliava. Fingia que não a via quando passava na rua e, mesmo assim, ela exclamava sempre um sonoro e denunciador "OLH'Á CAGAAALOSAAA!".

Ainda hoje, se ela me encontrasse, me chamaria assim. E se na adolescência eu me encolhia de vergonha pela embaraçosa saudação, hoje tenho saudades de ouvi-la.
Mas da boca desta senhora. Que ninguém se atreva a chamar-me cagalosa. A ver!
Quase me esquecia de referir o significado da palavra. Um cagaloso é alguém medroso.
[Esta vossa escriba já não tem medo da água, mas ainda sou cagalosa com as ondas, especialmente as do Guincho, que são bravas]

Anda lá que n'a morres de coice de boi.
Deixa lá que isso não te vai fazer mal (quando temos medo que um determinado alimento nos vá fazer mal).

Rodilha = Pano de limpar a loiça. Ou roupa amarrotada.
Amolar = Arreliar. Aborrecer.
Assomei-me à janela. = Espreitei pela janela.
Titarada = Macacada. Confusão. Palhaçada.
Gaiato. Ou gaiata. = Criança. Rapaz ou rapariga novos.
A dormir e a caçar ratos. = A fingir que está a dormir.

Temos a porca nas ervilhas.
O equivalente a "está o caldo entornado". Ou ao igualmente ameaçador "mau, mau..."

Temos a burra nas couves. = Idem anterior.

Porra madrinha, que se caga a noiva.
Equivale a "porra", mas mais refinado, como se pode v(l)er. Expressão de espanto, admiração.

Parece que saíste do cu do burro. = Tens a roupa toda amarrotada.
Eu pareço sempre saída do cu do burro, porque não passo a ferro há muitos anos.

Foi prender o burro. = Amuou, fez birra.
Está com o grão na asa. = Está bêbedo.
Isso traz água no bico. = Ter segundas intenções.
Testo = Tampa (da panela, por exemplo).
Chocolatêra = Cafeteira.
Aventar = Deitar fora.
Canalha = Grupo de miúdos.
Astro = O céu. Exemplo: "O astro hoje está carregado, vem lá trovoada."
'tou cá com uma lanzêra. = Estou cá com uma preguiça/moleza.
Magano = Maroto, traquinas.
Zorra = Raposa
Ametade (pronuncia-se com os dois "ás" abertos) = Metade.

Cagando e andando (nem acredito que escrevi isto),

Hazel

Faça Chuva ou Faça Sol



“Março, marçagão, de manhã Inverno, à tarde Verão”, diziam os antigos. O mês de Março é um mês de transição nas estações, de tempo incerto, humores flutuantes, ora esperançosos, ora macambúzios. Nas escolas, deveria haver uma disciplina dedicada apenas à contemplação da Natureza, pois as mais valiosas lições que precisamos de aprender são-nos continuamente ensinadas por esta incansável professora que não desiste de nós, por muito que reclamemos dos seus métodos de ensino.

Os ciclos da vida são iguais aos da Natureza que, tanto nos enche a casa e a alma de Sol, calor e esperança, como de vento frio que escancara atrevidamente as janelas mal trancadas e nos rouba o conforto, as certezas e o ânimo. É tudo tão maior que nós. 
E, mesmo assim, ainda acreditamos que conseguimos controlar alguma coisa.

Nós não controlamos absolutamente nada. Zero. Não controlamos a Natureza, não controlamos o trânsito (excepção concedida aos polícias-sinaleiros e, mesmo assim, há sempre o risco de alguém lhes desobedecer), não controlamos o futuro dos nossos empregos, não controlamos a velocidade da ligação à internet, não controlamos os remoinhos no nosso cabelo, não controlamos a nossa própria vida. 

Já é uma sorte tremenda se nos conseguirmos controlar a nós mesmos perante a imprevisibilidade das pessoas que, por vezes, nos pregam uma rasteira quando julgávamos que nos iam dar uma palmada amigável nas costas; ou das situações, que pareciam estar tão bem encaminhadas, mas, afinal, nos escaparam como areia da praia entre os dedos.

Esta semana, o Cavaleiro de Espadas, frio e contundente como o vento invernoso que se debate contra a chegada da Primavera, mostra-nos a necessidade de aprender a respirar no meio do caos, lidar com os imprevistos e preservar a serenidade quando todos à nossa volta parecem ter enlouquecido ou perdido a noção dos valores humanos mais básicos.

Seguindo os ensinamentos da professora Natureza, lida-se com os dissabores e os imprevistos da mesma forma que se lida com um temporal que surge repentinamente e nos interrompe um dia que prometia ser quente e ameno: sem lamentos nem zangas. 

Aceitamos a inevitabilidade do que nos rodeia e adaptamo-nos com a mesma rapidez com que fomos surpreendidos. Fácil de dizer, mas difícil de fazer, pensarão. 

Ainda assim, é mais eficaz ir buscar um chapéu de chuva do que pôr a cabeça de fora da janela e reclamar com as nuvens: “Oiçam lá, eh vocês aí em cima! Acham que isto é tempo que se apresente?” Não... Não creio.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 3 Março