Poema: Fantasma


Foi lançada hoje a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” - Volume X, da Chiado Books, onde consta este meu poema:

Fantasma

Liquefaz-se o vestido em
ondas
Água doce, limos verdes
Escorrem em regato
Pelos degraus
do Cais.

Elevo-me
nua
Magra como um pássaro
Branca gaivota.

Vai-e-vem o Tejo
Lambe os pés frios.

Entre as duas colunas
Navios-fantasma
trespassam a névoa
Com perfume de especiarias.

Nas pontas dos cabelos
Agitados pelo vento
Acenam lenços de mulheres
Humedecidos
pelas lágrimas.

Desabotoo o peito
Dele tiro o coração
Cai no convés de um navio
Entre redes, cordas
remos partidos.

Levem-no para longe
Tragam outro novo.

Os velhos marinheiros
tomam-me por sereia
Tapam os ouvidos.

Fiquei de peito vazio.

Hazel

Foto: Hazel, por José António Cavaco

Presente de Natal da Myprotein


Obrigada, Myprotein, pelo presente enviado!

O Natal ainda não chegou, mas a Myprotein enviou alguns produtos para a vossa escriba experimentar. Foram estes:

- Manteiga de Amendoim Orgânica, com pedacinhos de amendoim. É oficialmente a melhor manteiga de amendoim que alguma vez provei. Uso nos batidos, em sandes com mel, e como com colher quando ninguém está a olhar porque é mesmo irresistível (e eu sou uma fraca);

-  Proteína Active Women Vegan Blend. Absolutamente deliciosa e nutritiva após fazer exercício físico. Quando esgotei as 3 amostras oferecidas, voltei a usar a proteína de outra marca que já tinha em casa, e notei que a qualidade em termos de sabor, textura e sensação de saciedade é muito inferior à da Myprotein;

- Um Calendário do Advento.

Recomendo vivamente!


O meu feedback é 100% positivo, não porque a marca Myprotein teve a cortesia de me oferecer para testar, mas porque genuinamente adorei e não tenho nem um ponto negativo a referir. É a minha sincera opinião!

Corpo são em mente sã! 🙂👍🏻

Hazel

Poção de Esquecimento


Após retiro prolongado, a (im)paciente da cama cinco agradece as visitas, as mensagens, as flores, os bolos doces sem açúcar, o envio de borboletas, os presentes, os convites e todo o afecto — que, sem dúvida, foi a mais regeneradora das panaceias.

Doutor Passarinho deixou-a ter alta com a advertência de que deverá prosseguir a dieta do tempo. Enquanto compõe o monóculo entre as penas e o bico amarelo-fogo, redige uma receita para levantar na botica hospitalar.

É-lhe entregue pelo boticário alado um frasco de líquido cor-de-musgo com a indicação "Poção de Esquecimento", que contém:

- Duas partes de novas experiências;
- Uma parte de medo diluída em duas de coragem;
- Um terço de excipiente vazio;
- Duas partes de contemplação do mundo (os sons, as luzes, as pessoas, os animais, as plantas, os edifícios, o céu);
- Uma parte de movimento físico, atendendo à máxima renascentista mens sana in corpore sano;
- Salpicos de audição apurada, para escutar a voz interior;
- Metade de amor-próprio, como elemento agregador dos restantes ingredientes.


«Agitar várias vezes ao dia para misturar bem o elixir. 
Tomar uma gota de manhã, de tarde e de noite até à cura completa.»

São-lhe restituídas roupas, sapatos, asas, caderno e lápis, para que volte a escrever.

Sentada numa paragem de autocarro, redige todo este texto no caderno que repousa no colo como um gatinho. Um desconhecido bem-parecido sorri-lhe. Ela retribui.

De asas estendidas em vôo panorâmico,

Hazel

Hospital de Corações


Acabei de inventar. Quem está doente do corpo vai para o hospital “comum”, quem está doente da cabeça vai para o hospital psiquiátrico e quem está doente do coração vai para o hospital de corações.

É um edifício semelhante aos outros por fora, mas com pessoas mais simpáticas e cuidadosas. Todo o staff usa sapatinhos de lã, roupa colorida e também faz parte do equipamento um medidor de dores de coração em vez do vulgar estetoscópio. Neste serviço curam-se mágoas, angústias, tristezas e desgostos de amor.

Os corredores são forrados de algodão até ao tecto e o chão tem relva macia e perfumada. Nas enfermarias, os pássaros trazem gotas de madressilva no bico que vão depositando mililitro a mililitro nas feridas expostas. Ali o Betadine não tem serventia.

Os pacientes magoados são aconchegados em lençóis de asa de pássaro e fecham os olhos durante muito tempo até se sentirem capazes de voltar a abri-los sem perigo de desidratação devido aos ribeiros que deles transbordam em águas contaminadas. É preciso limpar, secar, repousar e, acima de tudo, abrandar o ritmo dos batimentos cardíacos que cavalgam desenfreadamente pelos campos pedregosos da dor.

Na hora das refeições, serve-se tempo em modestos tabuleiros. Puré de tempo com escalopes de tempo, salada de tempo e, para beber, tempo espremido. Os pacientes não gostam do cardápio, mas é o único que realmente pode ajudar. A dieta do tempo, além de desinteressante e insípida, ainda tem a terrível desvantagem de ter de ser seguida durante muito tempo.

Não existe roupa para os pacientes no hospital dos corações. Andam nus, despojados de tudo o que possa causar ainda mais peso que aquele que já transportam. Apenas as asas de pássaro servem de agasalho nas noites mais frias e solitárias, onde se ouve o eco do choro e o gemido da dor abafado nas almofadas. Mas há-de passar, tudo passa um dia, com a ajuda do Doutor Passarinho. Ei-lo a entrar agora no gabinete de medidor de dor de coração pendurado no bico para auscultar mais uma paciente que acabou de dar entrada.

Chama-se Hazel e vai ficar na cama cinco, junto à janela. Um bando de pássaros-enfermeiros faz-se acompanhar dos auxiliares em sapatinhos de lã para ajudar a recolher as águas que lhe escorrem dos olhos. A cura vai demorar. Submetida à dieta do tempo, a paciente debate-se e implora por uma anestesia geral ou a eutanásia, mas ambas lhe são recusadas. Terá de aguentar. Terá de conseguir.

Esta semana, o arcano Três de Espadas diz-nos que por muito que doa, um dia tudo acabará por passar. Quando? Não sei. Mas não pode haver tempestade que dure para sempre.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos, Massamá, Santarém e online
Tarot - Reiki - Regressão - Reprogramação Emocional
Email: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1688
foto: Comfreak, licença CC0

Para uns Anjo, para outros pior que Belzebú


Fugiram-me duas velas de casa. Tinha-as em cima da mesa de jantar, cada qual no seu castiçal, e desapareceram sem deixar pingo de cera nem de remorso. Corri atrás delas rua fora, mas no primeiro cruzamento virou uma para cada lado. As danadas. Voltei para casa de mãos a abanar.

Coloquei um anúncio no Encontra-me. Entre cães e gatos desaparecidos, lá estavam as minhas velas. Ambas brancas e simples, uma acesa e outra apagada. Ofereci alvíssaras a quem mas trouxesse de boa saúde e ainda por derreter.

Estas são velas especiais, têm de compreender. Velas que falam, que pensam, que têm opiniões e caprichos. Andaram desaparecidas durante vários dias e noites até finalmente dar com elas estafadas, caídas à porta de casa. A vizinha da frente levantou uma sobrancelha julgando que se tratasse de alguma reles feitiçaria, mas expliquei-lhe que “não, vizinha, isto são só as velhacas das minhas velas que me tinham fugido.”

Entraram de pavio tombado para a frente, receosas do ralhete que iriam levar. Encaixaram-se muito direitas e compenetradas nos castiçais enquanto viam puxar de uma cadeira para ouvir o que tinham a contar sobre a inusitada evasão.

Começou a acesa a falar. Vinha maravilhada. Por todas as ruas onde tinha passado, encontrou luz: reflectida nas montras das lojas, a cintilar nas paragens de autocarro, nos carros que circulavam na estrada; a dançar nos olhos das pessoas que cruzaram o seu caminho. Jamais imaginaria que houvesse tanta beleza no mundo, suspirava encantada.

Seguiu-se a apagada. Num suspiro profundo e tristíssimo, lamentou a malograda saída. Sentiu-se perdida, desajustada nas ruas afundadas em trevas. As pessoas eram obscuras e sinistras, tudo era desinteressante, escuro e vil. Nunca encontrou uma réstia de luz.

Homessa, que tontas, disse-lhes, enquanto fui buscar um espelho para colocar à frente dos castiçais, aquilo que viram foi uma projecção da vossa própria luz (ou da ausência dela).

A acesa sorriu enternecida. Amolecida pelo calor inclinou-se para o lado e acendeu a companheira apagada que num segundo começou a irradiar luz, alívio e alegria. Prometeram não tornar a fugir.

Nós somos para os outros um reflexo daquilo que eles são. Para os detentores de luz, teremos sempre alguma luz e virtude. Para os mais sombrios, seremos vício e escuridão.

Aqueles que nos olham com bondade encontrá-la-ão também em nós; seremos anjos para esses — e piores que o belzebú para os outros. Deixá-los ver-nos com os olhos que têm, que importa lá isso. O arcano Rei de Paus inspira-nos a não parar de brilhar — e iluminar aqueles que se cruzam connosco.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos, Massamá, Santarém e online
Tarot - Reiki - Regressão - Reprogramação Emocional
Marcação: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1687
Imagem: kellepics, licença CC0