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Vizinhos, essa espécie em vias de extinção


Sou de um tempo em que a chave da porta da rua ficava quase sempre pendurada do lado de fora. Só tocava à campainha quem era 'de fora', os vendedores de enciclopédias, as beatas a pedir quinquilharia para a quermesse. As vizinhas sabiam que não era preciso bater, chegava até a ser despropositado cumprir tal formalidade.

Entrava-se sem cerimónias para pedir um molho de coentros, uns limões, oferecer um saco cheio de figos acabados de colher, partilhar revistas de moda e de conselhos femininos, ou trocar dois dedos de conversa sobre a vida alheia e os dilemas da educação dos filhos.
Tudo enquanto se tiravam as favas das vagens, se descascavam batatas para o almoço ou descosiam os alinhavos da bainha de uma saia.

O tempo arrastava-se devagar. Era um tempo mais longo. Havia sempre o que fazer, mas havia sempre tempo para tudo. As tardes esticavam até se perderem de vista no horizonte.

Hoje, já adulta, entro no prédio onde moro, vejo se há correio e subo as escadas de pedra fria onde raramente encontro alguém. As pessoas esperam até ouvir uma porta bater para abrirem a porta das suas próprias casas e assim saírem sem ter de passar pela maçada/obrigação de cumprimentar.

É reconfortante ouvir os pratos dos vizinhos do lado a baterem no lava-loiças depois do almoço e a torneira a abrir e fechar. Os lençóis floridos da vizinha de cima, que me tapam tantas vezes as janelas, e eu nunca tenho coragem de reclamar, porque são tão acolhedores e primaveris, que preferia perguntar em que loja os comprou a queixar-me. É praticamente todo o contacto humano que existe.

Sinto falta de ter vizinhos que me perguntem se posso dispensar algumas batatas porque o supermercado já está fechado, ou a quem eu possa pedir um ramo de salsa.
Que me avisem "Ó vizinha, vem lá chuvaaaa!", para eu tirar a roupa do estendal a tempo.
Ou que me peçam para lhes regar as plantas quando vão de férias.

No ano passado, mesmo sem conhecer os meus vizinhos, pendurei nos puxadores das suas portas um pequeno saco com frutos secos e um postal de Natal "Votos de Boas Festas dos vizinhos do 1º Esquerdo!" A vizinha da frente veio bater à minha porta uns dias depois e ofereceu-me um bloco de apontamentos com desenhos de girassóis. Depois mudou de casa.

Há dias, esqueci-me da chave de casa pendurada do lado de fora da porta. O vizinho de cima tocou à minha campainha: "Cuidado, olhe que se esqueceu da chave cá fora", e desapareceu num ápice, sem chegar a ouvir o meu agradecimento.

Oh, que nostalgia.

Hazel
Cronista, Viajante no Tempo, Terapeuta, Taróloga, Tradutora, Professora.