AS MINHAS MÃOS vasculham o fundo da mala como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ah, aqui está. O leque vermelho, vermelho-Almodóvar, emerge por entre molhos de chaves, carteiras e tralhas-que-nem-sei. Abro-o com urgência num gesto seco, antigo, tantas vezes repetido.
O som frrrr rasga um arco no ar e, ao estender como uma asa de pássaro, liberta uma nuvem de odor familiar e reconfortante a incenso velho. Quando um leque se abre numa tarde de calor, o rio de sangue quente que me corre nas veias recorda-se sempre da sua nascente espanhola. Oh si, cariño.
2. Sou comprometida.
3. Sou solteira.
4. Segue-me.
5. Não traias o nosso segredo.
6. Quero falar contigo.
7. Encontra-te comigo.
8. Conquistaste o meu coração.
9. Deixa-me em paz.
10. Estou interessada.
11. Não estou interessada.
De leque na mão,
Hazel
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Contacto: casa.claridade@gmail.com
Venho de uma linhagem de mulheres de diferentes pronúncias e nações, com um objecto em comum, cuja aparência era uma extensão das suas personalidades: o leque.
Todas as que me antecederam, vilãs ou heroínas, o puxavam de dentro das malas em conversas demoradas, confidências a meia-voz em pátios abafados, e nos silêncios partilhados em que o calor parecia uma entidade viva sentada à mesa connosco.
Viajo no tempo através do ritmo hipnótico das hastes do leque, e revejo esse objecto tão feminino, servindo, ao longo de gerações, para temperar diferentes fogos: o calor do Verão, o calor das paixões, o calor da menopausa.
Mas também para dançar, para lutar, para segredar, esconder e revelar. E, por vezes, para seduzir, se recuarmos um pouco mais no tempo.
Viajo no tempo através do ritmo hipnótico das hastes do leque, e revejo esse objecto tão feminino, servindo, ao longo de gerações, para temperar diferentes fogos: o calor do Verão, o calor das paixões, o calor da menopausa.
Mas também para dançar, para lutar, para segredar, esconder e revelar. E, por vezes, para seduzir, se recuarmos um pouco mais no tempo.
Durante os séculos XVIII e XIX, sobretudo nos meios aristocráticos e burgueses da Europa, o leque tornou-se um instrumento subtil de expressão social. Em bailes, salões e encontros de cortejo, certos gestos com o leque podiam sugerir interesse, recusa, discrição ou convite, permitindo às mulheres comunicar de forma elegante e silenciosa numa época em que tudo tinha de ser insinuado.
Trago esta relíquia esquecida no fundo do baú do tempo para o século XXI, desejando secretamente que se mantenha viva esta velha arte de comunicação-e-sedução –, actualmente designada flirt:
Trago esta relíquia esquecida no fundo do baú do tempo para o século XXI, desejando secretamente que se mantenha viva esta velha arte de comunicação-e-sedução –, actualmente designada flirt:
Linguagem Secreta do Leque
1. Amo-te.
1. Amo-te.
Passar o leque suavemente pelo rosto.
2. Sou comprometida.
Abanar o leque lentamente.
3. Sou solteira.
Passar o leque pela testa.
4. Segue-me.
Pousar o leque junto ao coração.
5. Não traias o nosso segredo.
Cobrir parcialmente a orelha esquerda com o leque aberto.
6. Quero falar contigo.
Bater suavemente com o leque fechado na palma da mão.
7. Encontra-te comigo.
Segurar o leque fechado junto do corpo, em sinal discreto.
8. Conquistaste o meu coração.
Abanar o leque rapidamente.
9. Deixa-me em paz.
Fechar o leque abruptamente.
10. Estou interessada.
Abrir o leque lentamente enquanto sustenta o olhar.
11. Não estou interessada.
Desviar o olhar enquanto o leque se fecha.
Quando vejo outra mulher remexer na mala numa sala de espera, no comboio, num café, e puxar um leque de lá de dentro, volto a viajar no tempo. E sorrio em reconhecimento, com cumplicidade feminina silenciosa.
Isso acontece cada vez menos, no entanto.
Onde andam as mulheres de leque?
Quando vejo outra mulher remexer na mala numa sala de espera, no comboio, num café, e puxar um leque de lá de dentro, volto a viajar no tempo. E sorrio em reconhecimento, com cumplicidade feminina silenciosa.
Isso acontece cada vez menos, no entanto.
Onde andam as mulheres de leque?
De leque na mão,
Hazel
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Fotografia: Carlos Carreto