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A Linguagem Secreta do Leque


AS MINHAS MÃOS vasculham o fundo da mala como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ah, aqui está. O leque vermelho, vermelho-Almodóvar, emerge por entre molhos de chaves, carteiras e tralhas-que-nem-sei. Abro-o com urgência num gesto seco, antigo, tantas vezes repetido. 

O som frrrr rasga um arco no ar e, ao estender como uma asa de pássaro, liberta uma nuvem de odor familiar e reconfortante a incenso velho. Quando um leque se abre numa tarde de calor, o rio de sangue quente que me corre nas veias recorda-se sempre da sua nascente espanhola. Oh si, cariño.

Venho de uma linhagem de mulheres de diferentes pronúncias e nações, com um objecto em comum, cuja aparência era uma extensão das suas personalidades: o leque. 

Todas as que me antecederam, vilãs ou heroínas, o puxavam de dentro das malas em conversas demoradas, confidências a meia-voz em pátios abafados, e nos silêncios partilhados em que o calor parecia uma entidade viva sentada à mesa connosco.

Viajo no tempo através do ritmo hipnótico das hastes do leque, e revejo esse objecto tão feminino, servindo, ao longo de gerações, para temperar diferentes fogos: o calor do Verão, o calor das paixões, o calor da menopausa.

Mas também para dançar, para lutar, para segredar, esconder e revelar. E, por vezes, para seduzir, se recuarmos um pouco mais no tempo.

Durante os séculos XVIII e XIX, sobretudo nos meios aristocráticos e burgueses da Europa, o leque tornou-se um instrumento subtil de expressão social. Em bailes, salões e encontros de cortejo, certos gestos com o leque podiam sugerir interesse, recusa, discrição ou convite, permitindo às mulheres comunicar de forma elegante e silenciosa numa época em que tudo tinha de ser insinuado.

Trago esta relíquia esquecida no fundo do baú do tempo para o século XXI, desejando secretamente que se mantenha viva esta velha arte de comunicação-e-sedução –, actualmente designada flirt:

Linguagem Secreta do Leque

1. Amo-te.
Passar o leque suavemente pelo rosto.

2. Sou comprometida. 
Abanar o leque lentamente.

3. Sou solteira.
Passar o leque pela testa.

4. Segue-me.
Pousar o leque junto ao coração.

5. Não traias o nosso segredo. 
Cobrir parcialmente a orelha esquerda com o leque aberto.

6. Quero falar contigo.
Bater suavemente com o leque fechado na palma da mão.

7. Encontra-te comigo. 
Segurar o leque fechado junto do corpo, em sinal discreto.

8. Conquistaste o meu coração. 
Abanar o leque rapidamente.

9. Deixa-me em paz. 
Fechar o leque abruptamente.

10. Estou interessada. 
Abrir o leque lentamente enquanto sustenta o olhar.

11. Não estou interessada. 
Desviar o olhar enquanto o leque se fecha.

Quando vejo outra mulher remexer na mala numa sala de espera, no comboio, num café, e puxar um leque de lá de dentro, volto a viajar no tempo. E sorrio em reconhecimento, com cumplicidade feminina silenciosa. 

Isso acontece cada vez menos, no entanto.
Onde andam as mulheres de leque? 

De leque na mão,

Hazel
Consultas de Tarot em Oeiras e Online
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Contacto: casa.claridade@gmail.com

Fotografia: Carlos Carreto
Cronista, Viajante no Tempo, Terapeuta, Taróloga, Tradutora, Professora.