A Casa Assombrada | Casa Claridade

29/07/11

A Casa Assombrada

Pelos muros acima, correm lagartixas apressadas, que assustam as senhoras de vestidos de rendas e folhos brancos.

Os cavalheiros, que fumam charuto reclinados nas cadeiras de baloiço, discutem em tom grave o mistério da casa assombrada.

Acham que é o espírito da tia-avó Alvina que faz ressoar pancadas nos muros durante as noites de Lua Cheia.

Ofereceram-lhe flores, rezaram missas e até houve quem fizesse promessas para que ela se fosse embora. E nada.

Mandaram vir o Padre, que encolheu os ombros e disse nada mais havia a fazer senão rezar muito pela alma extraviada.

Chamaram depois a Bruxa, que entrou discretamente pela porta das traseiras, para os vizinhos não verem. Vinha de xaile pelas costas e trazia uma mala antiga na mão direita.

"Vou precisar de passar aqui a noite para o apanhar."
Olharam todos uns para os outros num misto de desagrado e resignação.

Nessa noite, ninguém pregou olho. O fantasma, não deram por ele. E ela passou a noite seguinte. E a seguinte. E a seguinte. Ninguém queria deixar a Bruxa ir embora, por acharem que o fantasma tinha medo dela.

Os anos passaram-se, os mais velhos da família foram partindo, os mais jovens envelheceram e acabaram depois por partir também. A Bruxa ainda hoje continua a viver lá. Tem cabelos brancos e longos que se arrastam atrás de si pelo chão como um vestido de noiva, os olhos perderam a cor e a voz parece o som de ranger de portas.

O carteiro tem medo dela. Os cães uivam quando ela passa. E as pessoas benzem-se.
Dizem que tem mais de 300 anos e vai viver para sempre.

Ah, o fantasma, já me esquecia dele. Era o gato da casa, que saía nas noites de Lua Cheia para caçar ratos e fazia bater os ramos da árvore no muro quando saltava.
Quando a Bruxa foi para lá, deixou-se de caçadas e passava as noites enroscado aos seus pés, sobre a manta de lã colorida. Gatos!...