O Tesouro do Pirata

quinta-feira, fevereiro 18, 2016


Uma vez, conheci um indivíduo a quem faltava um dente na parte da frente do maxilar inferior. Alto, gordo e de farta barba negra, qual pirata Blackbeard, era uma figura imponente que não passava despercebida. Pelo buraco do seu sorriso desdentado, discorriam os mais escabrosos exemplares do vernáculo português com o mesmo direito e tranquilidade de qualquer outra palavra do léxico lusitano.

Nunca quis tapar com um dente postiço a janela que espreitava atrevida do seu sorriso barbudo, porque ela estava sempre ocupada por um cachimbo fumegante que tinha a largura exacta do dente que lhe faltava. Grande, bruto, de discurso ruidoso e detentor de toda a discografia do músico grego Vangelis, este homem era como uma criança gigante. Foi uma das pessoas mais felizes e contagiantes que conheci.

O pirata Barba Negra, vamos chamar-lhe assim, era como um pirata dos tempos modernos. O mundo era, para ele, um enorme oceano a explorar com a insensatez que caracteriza aqueles que acreditam piamente na existência de um tesouro à espera em cada esquina, em cada encontro, em cada fim de tarde à volta de uma mesa cheia de amigos onde se ergue o cálice e brinda por tudo e por nada. E não é que havia mesmo?

Tinha modos grosseiros, mas era genuíno. Amava o ar que respirava, os animais, a música e as pessoas, que abraçava com tamanha força que tinha a reputação de alinhar as escolioses mais retorcidas.

De apetite voraz pela comida e pela vida, não perdia tempo com canapés e outras pequenezas. Os seus olhos viajavam para lá do horizonte, onde alcança a visão daqueles que vivem num estado de constante deslumbramento pelo mundo e o redescobrem a cada passo que dão, mesmo que o caminho percorrido todos os dias seja sempre igual. Era de lá, daquele lugar onde as ondas do mar beijavam o convés do navio e as sereias nos encantam os sentidos, que ele falava e levava os interlocutores numa viagem épica por lugares-comuns que se tornavam fascinantes pela forma apaixonada como os apontava.

Tomavam-no por um tolo, mas ele era aquele que tinha o dom do amor. O amor que flui simplesmente, como uma taça que transborda. Sem qualquer intenção romântica, que as delicadezas não faziam o seu género.

A distância dos anos revelou-me o segredo deste pirata de barba negra, bruto e feliz: todos os dias, ele apaixonava-se de novo pela vida e por todos aqueles que faziam parte dela - creio que, inadvertidamente, acabei de roubar o tesouro do pirata e partilhá-lo com o mundo. Felizmente, a fonte é inesgotável.

A carta Ás de Copas é um bilhete para embarcar nesta viagem pelo mar do amor, da gratidão por estarmos vivos, e do permanente enamoramento por tudo o que nos rodeia. Ahoy! Mar à vista!

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição de 18 Fevereiro

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