O cabelo na sopa

quinta-feira, novembro 10, 2016


O menino Ricardinho foi ensinado a não comer de boca aberta. Filho de família de classe média, representava a promessa num futuro cheio de conquistas que os pais falharam em atingir. Compenetrado, sentava-se à mesa de costas rectas como um esparguete e manuseava os talheres com destreza cirúrgica, para inchado orgulho da avó que todas as semanas o levava pela mão a passear nas roupas domingueiras cheia de vaidade, de peito inchado como um perú, para que as outras avós vissem que o seu neto era a mais fina flor, de esmerada educação, fino trato e uma palidez mais alva que o branco-pérola das meias até aos joelhos.

Todas as atenções recaíam no menino que nem o guardanapo deixava cair ao chão. Pelo canto do olho, via o avô palitar os poucos dentes que ainda conservava, enquanto saía um arroto sem pudor nem cerimónia, e voltava a concentrar-se no seu prato, porque no seu universo de água-de-colónia com cheiro a talco e roupa de marca impecavelmente engomada, não havia espaço para a rudeza humana.

O Ricardinho foi crescendo sem abandonar o porte frio e aristocrático até se tornar adulto e acumular títulos académicos conseguidos à custa de muita cábula e copianço.
O que importava era o resultado, não os meios para lá chegar - e chegou, ora se chegou.
O menino dos papás veio mesmo a representar um cargo autárquico, para deleite dos progenitores, que entretanto ficaram demasiado importantes e cheios de si para cumprimentar os vizinhos.

Nos grandes encontros gastronómicos, o Ricardinho mantinha o mesmo esmero e elegância no manuseio dos talheres, que cortavam pedaços de vitela barrosã com a mesma precisão e argúcia com que cortava o orçamento de acordo com os interesses que melhor o serviam. Todos sabiam que o menino Ricardinho era travesso, mas poucos se atreviam a referir as suas marotices, com excepção de um jornal onde trabalhavam pessoas levadas da breca, honestas e de olho vivo que, ao contrário do menino, não viam o que lhes convinha, mas a verdade nua e sem artifícios.

Para grande embaraço do Ricardinho, certa vez, ao comer uma sopa da pedra, encontrou um cabelo. Discretamente, puxou-o da boca, mas o cabelo era enorme e nunca mais acabava. Quanto mais puxava, mais o cabelo parecia crescer, tornando-se impossível fingir que ele não existia. O vexame foi inevitável. O menino Ricardinho queria abafar o caso, mas ainda assim, a verdade já estava nas bocas do mundo.

Esta semana, o arcano Rainha de Espadas ensina-nos que nem sempre a verdade é devidamente recompensada e raros são os que preservam a ética, mesmo longe dos olhares alheios. Ainda assim, sempre haverá um denunciador cabelo na sopa, onde quer que se coma.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1606
foto: "Portrait of a boy", Kurt Günther

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