(a receita do crime perfeito)
À PRIMEIRA VISTA, todas as famílias parecem equilibradas: sem escândalos, tragédias ou histórias que apenas se possam contar em voz baixa. Nesta farsa sem acordo estabelecido, todos são coniventes, fingindo acreditar no verniz de normalidade que pinta a vida de uns e de outros.
Cada um sabe das suas vergonhas e lamentos. São raros aqueles que perdem o controlo do seu teatro de fantoches onde as roupas assentam sempre bem e os gatinhos dormem placidamente à janela.
***
Com esmero de dona-de-casa tradicional, compunha o napperon de renda branca sobre a tampa da arca congeladora e pousava a couve de loiça Bordallo Pinheiro, lascada mas digna, onde guardava os rebuçados para a tosse crónica.
Era uma arca com alguns anos, daquelas horizontais, espaçosas. Postas de pescada para fritar, dois frangos criados pela vizinha do lado, pá de porco, língua de vaca, entrecosto, rissóis de camarão, perna de perú e mais de um terço do marido cortado aos pedaços e embalado em sacos de plástico. Há mais de dois anos que o falecido tinha refrescado as ideias para a eternidade, agora aconchegadas por um pacote de ervilhas congeladas.
Tinha sido um homem de poucas falas, rude, grosseiro. A moldura com a sua fotografia a-preto-e-branco, com o fato dos casamentos e dos funerais que lhe assentava mal nos ombros, continuava na credência da entrada. O seu olhar de sobrolho carregado, com uma camada de pó sobre o vidro, parecia observar tudo em silêncio.
Dentro de portas, costumava descarregar a dor abafada de uma infância desprovida de calor humano na Dona Idalina, que andava sempre de meias até aos joelhos e mangas compridas para esconder as marcas.
Numa daquelas tardes de Verão em que o ar parecia ter sido sugado de dentro de casa, a frigideira de ferro voou pela primeira vez com a força de muitos anos de revolta silenciada. Parecia obra do Diabo. O silêncio invadiu a casa, enquanto uma poça de sangue escuro crescia no chão da cozinha.
(...)
Há anos que não vejo o Júlio,
uma besta daquelas nem merece a mulher que tem.
Esteve sempre acima de qualquer suspeita. Nunca foi descoberta. A arca congeladora sobreviveu-lhe, assim como os restos da prova do crime com que conviveu durante mais de vinte anos, até à sua própria morte, por idade avançada.
O segredo foi desvendado pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se com gritos de horror a ressoar pela casa.
O segredo foi desvendado pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se com gritos de horror a ressoar pela casa.
Os gatos da rua, cúmplices fiéis do crime perfeito, continuaram a voltar todos os dias ao pôr-do-Sol, à espera das deliciosas e inesquecíveis taças com papinhas de carne picada.
O arcano A Sacerdotisa incita-nos a apurar a sensibilidade e a intuição, e ver para além das aparências. Por detrás da capa da normalidade, por vezes escondem-se os mais inesperados segredos.
E todos os temos.
Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1607
