Perna de porco com batatas

quarta-feira, novembro 16, 2016


À primeira vista, todas as famílias pareciam equilibradas; sem escândalos, tragédias ou histórias que apenas pudessem ser contadas com voz baixa e olhares furtivos. Nesta farsa sem acordo estabelecido, todos eram coniventes, fingindo acreditar no verniz de normalidade que pintava a vida de uns e de outros. Cada qual sabia das suas vergonhas e lamentos; raros eram os que perdiam o controlo do seu teatro de fantoches onde as roupas assentavam sempre bem e os gatinhos dormiam placidamente à janela.

Com esmero de dona-de-casa caprichada, compunha o napperon de renda branca sobre a tampa da arca congeladora e pousava a couve de loiça Bordallo Pinheiro, lascada mas digna, onde guardava os rebuçados da tosse.

Era uma arca com alguns anos, daquelas horizontais, espaçosas. Postas de pescada para fritar, dois frangos criados pela vizinha do lado, pá de porco, língua de vaca, entrecosto, rissóis de camarão, perna de perú e mais de um terço do marido cortado aos pedaços - embalado em sacos de plástico. Há mais de dois anos que o falecido tinha refrescado as ideias para a eternidade, agora aconchegadas por um pacote de ervilhas congeladas.

Tinha sido um homem rude, grosseiro, de poucas falas e nenhum amigo que lhe sentisse a falta. A moldura com a sua fotografia a-preto-e-branco, de sobrolho franzido e o fato dos funerais vestido, continuava na credência da entrada, como se estivesse a observar tudo.

Em casa, longe dos olhares da vizinhança, costumava descarregar a dor abafada de uma infância desprovida de calor humano na Dona Idalina, que andava sempre de meias até aos joelhos e manga comprida para esconder as marcas. Num desacato que foi longe demais, uma frigideira de ferro voou com a força de muitos anos de revolta silenciada. Parecia obra do Diabo.

Chegou, por macabro engano, a dar um pedaço da coxa do marido à vizinha do lado, como retribuição pelos frangos que de vez em quando lhe oferecia. Esta fez um inolvidável guisado para o almoço de Domingo que toda a família lambeu em menos de nada. Enquanto ensopavam o pão no molho, comentavam: “Há anos que não vejo o Júlio, uma besta daquelas nem merece a mulher que tem.”

Amiga dos gatos abandonados que alimentou toda a vida, frequentadora assídua das missas semanais - quiçá com secretamente culpada devoção - sempre com um conselho de culinária a partilhar com as vizinhas na mercearia, a boa senhora esteve sempre acima de qualquer suspeita. Nunca foi descoberta. A arca congeladora sobreviveu-lhe, assim como a prova do seu crime com que pacientemente conviveu durante mais de vinte anos.

O segredo foi desvendado após o seu falecimento, por idade avançada, pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se quando os gritos de horror ressoaram pela casa. Ainda assim, a Dona Idalina foi sempre recordada com saudade e amizade, não só pelos vizinhos, como pelos gatos da rua que durante anos foram alimentados com deliciosas papinhas de carne picada.

Esta semana, o arcano A Sacerdotisa incita-nos a apurar a sensibilidade intuitiva e procurar ver para além das aparências. Por detrás da capa da normalidade, por vezes escondem-se os mais inesperados segredos. E todos os temos.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1607
foto: Anne Taintor

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5 COMENTÁRIOS

  1. KKKKKKK. Amei esse "conto" de humor negro. Quantas Donas Idalinas não gostariam de ter a mesma coragem? E os gatinhos então? Alimentados com deliciosas papinhas de carne. Excelente.

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    1. Obrigada! E quantas Donas Idalinas nunca chegaram a ser descobertas, a-ha! :)

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  2. Enviamos um convite para o teu email :)

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    1. Podes confirmar por favor no spam? Pode ter ido para lá :)

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