Laboratório do Amor


O amor é urgente, desajuizado e ridículo. Eventualmente, causa até um bocado de nojo, podendo mesmo chegar a induzir em gregorianos espasmos pré-vómito aos que, frustrados nas suas ilusões, deixaram de acreditar porque o tomaram por uma âncora que estanca a fragata em alto mar, quando o segredo está nas velas que a fazem deslizar, engolindo céu, sol, estrelas, mar e vento.

É uma carga de trabalhos, disso não há dúvida. Não se pode amar em part-time, ou tirar férias do amor. É um trabalho para escravos que se deixam capturar de livre vontade e que apenas podem ser remunerados com amor. Quem for mal pago, começa a desmazelar-se no serviço.

Nada sabendo de comprovado sobre tão misterioso e hermético tema, reservado aos poetas e aos loucos, e incluíndo-me nos últimos (primeiro, porque não sei rimar e segundo, porque só alguém sem juízo poderia, nos tempos que correm, atrever-se a amar), publico o resultado de uma longa e minuciosa pesquisa realizada em laboratórios da-mais-fina-e-excelsa-qualidade sobre as transformações dos vinte aos quarenta anos nas artes de l’amour:

Aos vinte anos, já sabemos o que queremos — ou julgamos saber.
Aos quarenta, sabemos o que não queremos.

Aos vinte, preocupamo-nos em agradar à família.
Aos quarenta, que se lixe o que pensa a tia, a prima ou o periquito. Quem sabe da nossa vida somos nós, ora.

Aos vinte, acreditamos em príncipes encantados.
Aos quarenta, voltamos a acreditar neles, porque no intervalo conhecemos sapos — e se há sapos, tem de haver, pelo menos, um príncipe (segundo dados avançados pelo cientista Walt Disney).

Aos vinte, não temos medo de amar.
Aos quarenta, somos uns cagarolas, cheios de miaúfa, mas amamos na mesma.

Aos vinte, julgamos que vamos viver para sempre e que não precisamos de dormir.
Aos quarenta, não temos tempo a perder e só fazemos uma directa em troca de amor eterno.

Aos vinte, confiamos.
Aos quarenta, desconfiamos.

Aos vinte, não gostamos de ouvir conselhos.
Aos quarenta, desejaríamos ter quem no-los pudesse dar.

Aos vinte, temos a pele esticada e viçosa.
Aos quarenta, temos que aproveitar antes que isto caia tudo (!), benza-nos Afrodite.

Aos vinte, achamos que já sabemos tudo.
Aos quarenta também.

Se o digníssimo e marotíssimo leitor tiver idade compreendida entre os vinte e os trinta, já sabe com que contar quando chegar aos longínquos quarenta. Estatísticas e experiências laboratoriais indicam que tudo tem a tendência a melhorar, apesar de às vezes parecer que não.

Se tiver entre quarenta e cinquenta, venham de lá esses ossos num sentido e compreendido abraço. Força aí.

Se tiver mais de sessenta, peço que colabore neste estudo, a bem do destino da Humanidade e da preservação de tão raro e valioso bem — l’amour — enviando para o meu email a sua história de vida e de amor para ser apreciada pelos nossos cientistas-do-amor.

Esta semana, o arcano Dois de Copas abraça-nos como uma balada dos anos 80, inspirando-nos a encontrar o amor, primeiro dentro de nós, depois nos olhos de alguém. Abençoados os que já o encontrámos. Boa sorte aos que o procuram.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1652
Ilustração: Kaz, licença CC0

Tão pequena e tão ladina


Os carros colam-se uns aos outros numa longa e fumegante serpente de chapa e vidros eléctricos ali mesmo à saída do bairro. Saem pela direita os que apanham a auto-estrada, fazem pisca para a esquerda os que seguem pela Marginal.

Estão todos parados agora; vejo alguns a enfiar o dedo no nariz, outros a tirar as remelas dos olhos, lacrimosos com a luz dura e cortante da manhã; outros ainda, a perscrutar o nada, suspensos no vazio existencial para onde nos atiram as filas de trânsito.

Estendem-se alguns olhares conformado-entediados no passeio de calçada onde caminha em passo ligeiro, como se estivesse prestes a fazer uma travessura, a vizinha do prédio ao lado do meu. Velhinha, franzina e de cabelo ralo e escuro, sempre de sorriso doce e olhos ladinos. Mora sozinha, nunca aceita boleias.

O ronronar do ralenti dos motores é interrompido pelo inusitado chiado de metal das rodas do seu carro-saco de ir ao supermercado. Não sei se é ela que leva o carro, se o carro que a leva a ela.

— Olá, menina.
— Boa tarde, menina.
— Bom dia, menina.
— Adeus, menina.
A voz assenta-lhe como uma luva: baixa e matreira, mas cheia de genica.

Não se passa nada. É apenas a velhinha fura-vidas a passar em compasso certo à hora que os pássaros alisam as penas e se ouvem os passos das primeiras crianças a caminho da escola. Os ocupantes da gigante serpente de chapa poluente carregam na buzinha como quem estala um chicote para atiçar os da frente a andar.

Ficamos a vê-la ir embora pela rua fora, sem nunca parar, sem jamais abrandar. Talvez seja mesmo o carro-saco de tecido axadrezado que a leva, movido por uma força desconhecida, como um cão fiel que fez o mesmo percurso mais vezes do que se consegue lembrar.

Descobri-lhe o segredo no outro dia, quando a vi passar com o carro-saco mal fechado. Olhei de soslaio e deliciei-me ao descobrir que não são compras que ela transporta lá dentro. O carro-saco vai cheio de vida. Por isso, sei que a velhinha ladina vai viver para sempre — ou até arrumar o carro-saco e se esquecer de onde o deixou.

Esta semana, o arcano O Carro inspira-nos a não ficar parados atrás dos outros como um autómato que é conduzido por alguém. É tempo de encher o nosso carro-saco de vida e seguir-lhe o encalço. Mais do que seguir, perseguir. Com ardor e determinação. Quatro-piscas ligados!, este veículo vai sair do tracejado da estrada para fazer uma manobra inesperada.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1651
Foto: violetta, licença CC0