O último dia de vida


«Observo sem emoção o burburinho de gente desinteressante que se arrasta com pachorra de réptil anafado sob o Sol vespertino, esquecendo-me da minha própria existência. Como um fantasma. Ninguém nota a minha presença. Nem eu.

Tudo é temporário. Sei que um dia voltarei a encontrar-me só. A caminhar sem destino numa estrada sem fim, sem anoitecer nem amanhecer. Sem tempo, sem calor, sem vida, sem amor. Vivi vorazmente, com sofreguidão e ansiedade.
Não desperdicei tempo. Consumi-o. Esgotei-o.

(Parágrafo. Um suspiro abafado.)

Sinto-me triste. Choro sem lágrimas. Nutro, mas fico com fome — de amor. Florbela.»

A assinatura em caligrafia elaborada, trémula e cheia de arabescos vertiginosos contrasta com a letra miudinha e tímida que parece pedir desculpas por ocupar espaço na folha branca que as suas mãos frias dobram meticulosamente.

Lambe a dobra do envelope. O sabor acre da cola invade a língua como um gesto brusco desfaz cruelmente o encantamento de uma paixão imaginada.

Lançou a carta para o rio e ficou a vê-la deslizar na superfície espelhada de água doce, entre os patos encardidos pela poluição, uma garrafa vazia de água mineral que flutua com o gargalo virado para cima e um tronco oco e sem graça.

As suas palavras, abandonadas ao naufrágio, nunca foram lidas. Desfizeram-se em farrapos entre os detritos e o lodo, em parte incerta, como um eco que morreu mudo por não ter encontrado paredes onde ressoar.

Não vale a pena. Nem a pena, nem as asas, nem o pássaro a voar no vale, porque não há vale nem pena. O vale tornou-se silencioso e sombrio: os ninhos, a esperança, as flores e os frutos foram devorados por uma nuvem passageira cinzenta-escura com criaturas fantásticas esculpidas pelas correntes de ar. Quando o vento mudou de direcção e soprou de Norte, a nuvem abriu uma boca enorme e engoliu toda a vida. Ficaram as árvores nuas, desprotegidas e tristes. Não vale a pena. Não vale a vida.

Abotoou o casaco junto ao pescoço e regressou a casa em passo seguro e indecifrável, impossível de denunciar as suas intenções. O gato deitado no muro forrado de musgo seco seguiu-a com o olhar velhaco e vigilante, até a porta de casa fechar pesadamente atrás de si, enquanto uma atmosfera de penumbra húmida e lúgubre a recebia.

O dia amanheceu com a janela do quarto cheia de pássaros, uma cortina de penas macias que escondia o olhar sem vida e o frasco dos comprimidos caído no chão.

Esta semana, o arcano Cinco de Copas sopra como o vento frio que nos entra na parte de trás do colarinho, confrontando-nos com o desconforto da falta de um agasalho. Por muitos casacos que se vistam, o frio não cessa de fustigar o corpo e o coração. Se encontrar alguém triste, agasalhe-o com a única fonte de calor capaz de salvar vidas: um abraço.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1670
Foto: Foundry, licença CC0

Monstros debaixo da cama


Não acredito em Deus. Mas sei que Deus existe; disso não duvido, benza-me Deus. Existe para aqueles que acreditam n’Ele. Quem diz Deus, diz o Diabo.

A crença numa ideia torna-a real, verdadeira. Qualquer ideia. Os monstros debaixo da cama são inegavelmente palpáveis para os que neles creem, a ponto de chegarem mesmo a sentir a fria e subtil electricidade causada pela antecipação das mãos trémulas, gélidas e ossudas a agarrar os seus pés. Sim, os monstros debaixo da cama existem. Mais ninguém os pode ver, mas para aquele que acredita neles, são bem visíveis e tangíveis.

O meu gaiato, quando era mais pequeno, assegurava-me todas as noites que havia uma sombra que o espreitava pela porta do quarto e por vezes nem a luz de presença a dissuadia de aparecer. Eu insistia que não existia ali nada, mas ele continuava com medo.

Então, percebi que era eu que estava errada; claro que existia algo. Não para mim, mas para ele. Quando tomei consciência do meu erro, fui buscar dois panos da loiça à cozinha para apanhar o monstro (caso não saibam, os monstros, sombras e outros assombros semelhantes apanham-se com panos da loiça).

Anda, vamos apanhá-lo. O relógio marcava dez para a meia-noite. Apaguei todas as luzes em casa. Eu levava o sabre de luz da “Guerra das Estrelas”, e o meu gaiato uma lanterna. Cada um tinha um pano da loiça preso na parte de trás da camisola com uma mola-da-roupa, como uma capa de super-herói.

«Quando o apanharmos, damos-lhe 
com o sabre nos cornos.» 

Pronto, não disse cornos, embora a miudagem agora use palavras bem mais escabrosas. Acho que disse trombas. Ou fuças. Ou ventas.

Corremos a casa toda de-fio-a-pavio. Os monstros existem e precisam de ser caçados. O medo torna-os reais, poderosos. Mas a coragem de olhá-los de frente fá-los dissolverem-se, transformarem-se em nada. Matámos, assim, o monstro — quando matámos o medo. Nunca mais foi preciso ligar a luz de presença.

O arcano Oito de Paus inspira-nos a ver para além do visível, a acreditar em algo mais. Qualquer impossível pode tornar-se possível por acreditarmos nele. Monstros existem, monstros deixam de existir, num estalar de dedos.

Quando sentimos que estamos preparados para enfrentar o obstáculo, já o ultrapassámos e, se o ultrapassámos, é porque, na verdade, ele nunca existiu. Foi apenas a nossa percepção que deu um salto para a frente, e que alterou a realidade. Simples de entender, ainda mais fácil de executar. Porque embora todos tenhamos algum tipo de monstro debaixo da cama, e acreditemos nele, mesmo sabendo que o sacana não existe… olha, foi-se embora.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1669
Imagem: kellepics, licença CC0

10 anos a escrever


Este velho blog celebra hoje uma década de vida. Dez anos! Manter um blog durante tanto tempo tornou-se quase um ritual, uma superstição, um hábito impossível de explicar.

A vossa velha escriba resolveu, dada a efeméride, desvendar dez factos aleatórios jamais revelados numa década de Casa Claridade. Vocês merecem. Ora façam a fineza de puxarem uma cadeira e de se sentarem:

1. Nasci no dia 5 de Maio (o 5º mês do ano), numa 5ª feira.

2. Hazel é o meu nome, que assino legitimamente no Cartão de Cidadão, no Banco e em todos os documentos, embora não seja o nome com que nasci, que era igual ao da minha mãe. Desde que ela faleceu, deixei definitivamente de usá-lo. Tenho, assim, dois nomes, ainda que utilize apenas um.

3. Não bebo bebidas com gás (fazem-me soluços instantaneamente).

4. Já vivi numa casa assombrada.

5. Quando era gaiata, fui para a catequese porque as minhas amigas também andavam lá e diziam que faziam desenhos e actividades divertidas, mas quando ia à missa saía sempre a meio para vomitar. Nunca soube porquê. Acho que era da ruindade. Acabei por desistir — aquilo não era, definitivamente, para mim. Excepto uma vez, nunca mais entrei em igrejas.

6. Já fui hospitalizada com sintomas de ataque cardíaco e entreguei a password da Casa Claridade para que pudesse ser feita uma publicação a explicar o que me teria acontecido, caso morresse. Felizmente, esta nunca chegou a ser escrita. Descobri depois que tive síndrome de Takotsubo, vulgarmente conhecido como "síndrome do coração partido".

7. As abelhas e as vespas não me picam. Tive um enxame de vespas dentro do meu cabelo, por me ter aproximado muito do ninho e nenhuma picou. O segredo é sentir verdadeiro amor e entrega.

8. Já enfiei a minha própria mão numa liquidificadora e liguei-a. Fui parar ao Hospital. Foi um milagre não ter perdido os dedos. Nunca mais fiz batidos de fruta em liquidificadoras. Chuif!

9. Caso pessoas. Sempre que solicitada, realizo casamentos pagãos, escritos e estruturados por mim, desempenhando funções de Sacerdotisa.

10. Já pratiquei Body Combat e também já dancei num rancho folclórico. E gostei! Actualmente, apenas faço dança oriental. Se pudesse, adorava aprender a dançar sevilhanas. Quem sabe um dia.

Muitas graças a todos por me acompanharem!

Sempre vossa,

Hazel

A Origem do Dia dos Namorados


O dia 14 de Fevereiro, conhecido actualmente como "Dia dos Namorados", é uma celebração pagã associada ao início da época de acasalamento na Natureza. Na Roma antiga, dava pelo nome de Lupercalia, a festa em honra de Lupercus, o Fauno (Pã, na Grécia), divindade regente das florestas e de todos os seus habitantes.

Esta vossa escriba não esteve lá para ver, mas dizem que era assim que se passava:

Os sacerdotes escolhidos sacrificavam ritualisticamente dois bodes e um cão. O sangue que escorria da adaga sacrifical era embebido em lã, que tinha sido previamente molhada em leite e, com a mesma, ungiam a testa, o que induzia a estados de euforia.

Vestiam o couro dos animais, ou usavam-no em torno da cintura para tapar os órgãos genitais, encarnando, assim, o espírito do senhor das florestas. Cortavam longas tiras de pele aos animais sacrificados, a que davam o nome “februa” (e que está na origem etimológica da palavra Fevereiro, o mês correspondente à época desta celebração), e usavam a februa para chicotear o povo.

Corriam para açoitar os jovens na flor da idade, sedentos de sexo (que não deviam oferecer muita resistência, os doidivanas); as mulheres inférteis, para estimular a fertilidade; as grávidas, para aliviar as dores de parto; as púdicas e frígidas, para despertar a libido; e todos os que apanhassem pelo caminho. Era a loucura.

Espantavam-se os maus espíritos, purificavam-se as pessoas, as casas e as ruas, e estimulava-se a saúde, a sexualidade e a fertilidade.

Vá-se lá saber como, as vergastadas acabaram por dar lugar, séculos mais tarde, à oferta de ursinhos de peluche fofinhos, postais com frases pirosas, caixinhas de bombons de chocolate em formato de coração e lingerie comestível.

Agora, meus passarinhos, toda a gente odeia o Dia dos Namorados, dizem que é comercial, que a data irrita, que os casais apaixonados são entediantes, que isto, que aquilo.

Esta semana, o arcano A Força ruge com a ferocidade de um animal que nos toma de assalto, atiçando-nos os instintos, pondo-nos à prova — açoitando-nos a paciência com a februa.

Ainda ontem, quando pedi ao senhor do talho que cortasse a carne em tiras para o strogonoff, pareceu-me ter visto sair — com estes olhos qu’a terra não há-de comer — um mancebo que levava, engalanada com um laçarote, uma caixa cheia de tiras de carne, em honra dos bons e velhos tempos em que se corria desnudo e bramava de prazer e de dor ao mesmo tempo. Não havia caras de enjoadinhos. Ai não gostas de ursinhos de peluche?, Toma lá!

Ponham-se a pau.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1668

Diário de Bordo do Navegante Solitário


Pede-se à loucura que, se um dia chegar, não se faça anunciar. Que tome conta de mim sem que eu o saiba, para que, ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados (para além de descompassados — e destrambelhados), e a mim sã. Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciência da inconsciência, a lucidez das trevas.

Assim, se se der o advento do desnorte, escusam de me avisar, pois vos tomarei como loucos por apontardes a fuga à norma onde a norma foge à fuga de si mesma.

Quem sabe não terei perdido já o tino e ainda ninguém tenha reunido a coragem de mo comunicar. Suspeito-o por encontrar-me tantas vezes a remar contra a maré com remos feitos de penas de gaivota.

E ainda assim, remo sem parar. Pouco importa se existe algum destino porventura escondido entre as brumas salgadas que repousam sobre a linha do horizonte; para que me serviria uma ilha com palmeiras e araras no meio do oceano, senão para me deixar consumir pela insularidade, entontecida pelo movimento das águas em redor dos meus pés estacados, mergulhados na areia fina?

À minha volta voam tubarões obesos e esfaimados, de bocarra escancarada e dentes afiados, devorando peixes inocentes, matrículas de carros acidentados, garrafas de rum contrabandeado e almas desalmadas, sem sequer mastigar. Bom proveito lhes faça. Flutuam frascos de vidro com mensagens enroladas em papel ensopado, alforrecas gelatinosas e ouve-se ao longe o eco do canto das sereias. Nada disso me distrai.

O barquinho prossegue sem mapa nem bússola, em direcções improváveis, vivas e inquietantes, descobrindo novas pétalas à rosa-dos-ventos. Eles na deles, eu na minha. Desalinhada, inconsciente da minha inconsciência, flor branca à proa; para eles, a terra é plana e termina no precipício da miopia; para mim, é redonda, e mal julgarem que caí do precipício, estarei a dar a volta por baixo e a aparecer por trás a morder-lhes o rabo! Bons ventos me levem.

Esta semana, o arcano O Louco inspira-nos a nunca deixarmos de ocupar o nosso próprio lugar no mundo e de acreditar em nós, mesmo que sejamos tomados por insensatos. Que importa isso. Nada importa. Nada.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1667
Foto: Comfreak, licença CC0