Casimiro


Breve história em três tempos, para leitores ávidos e impacientes.

[Tempo um]
Casimiro era um homem de certa idade.
Tinha uma marreca notável.
Usava sempre um casaco grande.
Nunca casou, embora sonhasse com tal felicidade.
Não se lhe conheceu família.

[Tempo dois]
Um dia, Casimiro morreu.
Oh Casimiro.

[Tempo três]
Então, descobriu-se
que Casimiro não tinha marreca.
O que escondia dentro do casaco grande
eram asas de anjo.

Hazel

Estupendo Idiota


Olá, idiota. Como tens passado? Espero que o mundo te esteja a tratar bem.
Pensei em ti ontem: estava a abrir uma lata de milho para a salada e lembrei-me daquela vez em que roubámos duas maçarocas de milho numa horta.

Eu era tão pequena que ninguém me via no meio das espigas. Chegámos a casa esbaforidos. Passámos as maçarocas no lume, barrámos manteiga e comêmo-las à dentada. Não sei se por terem sido roubadas, nunca comi nada tão delicioso. Se calhar já não te recordas. Nessa época, ainda não eras um idiota total, mas só meio-idiota, disso lembro-me bem.

Depois fomos crescendo, tu sempre o meu herói. Eram os anos 80 e eu escutava as tuas cassettes do Russ Ballard, do Rod Stewart (fiquei com essa, não vale a pena procurares por ela, desculpa!), os “Hit Parade” — que rebobinava com uma caneta.

Bebíamos Capri-Sonne, eu tinha cadernos do Pierrot e tu usavas calças estrelicadas. Víamos o Espaço 1999, os Jovens Heróis de Shaolin, o Alf e, mais tarde, o Michael Knight. Tudo era incrivelmente fascinante, mas nada era tão incrível como tu, sempre confiante e conhecedor do mundo, ao contrário de mim, que era atada e passava demasiado tempo agarrada aos livros. Era natural que troçasses, pois.

Mas não importava; deixava-te rir da minha falta de destreza com as coisas elementares, da minha cara, da minha voz, do meu corpo esguio e desajeitado, do cheiro pestilento dos meus ténis. Desde que isso te fizesse gostar de mim.

A idade adulta chegou e comecei a cansar-me de representar um papel que me deixava vazia e despedaçada como um pássaro que amputava as próprias asas. Afinal, por uma migalha de simpatia tua, eu é que acabava a não gostar de mim mesma.

Parei, então. Tratei de reconstruir a minha dignidade. Nunca mais curvei as costas para me tornar pequena. Atrevi-me a ser eu mesma; quem gostasse de mim, havia de gostar a sério e quem não gostasse, pois paciência. Afinal, um repolho não se vai transformar num bife para agradar a alguém que não gosta de verdura, não é verdade? E eu, meu caro, assumi o repolho que sou. Desculpa não ser um bife.

Quando me permiti ser eu, deixei de vez de existir para ti. Nunca me telefonaste no meu aniversário (durante quase todos estes anos, tenho detestado fazer anos). Despachavas-me quando te ligava. Nunca disseste que gostavas de mim. Nunca quiseste saber se estou viva, se estou segura, se estou feliz. Nunca quiseste sequer olhar para mim.

Sei, no fundo, que preferias que eu não existisse. Tornei-me a pedra que sempre esteve no teu sapato. E eu, que até era capaz de descalçar os meus e andar descalça por ti, seu palerma.

Foste um idiota, mas um idiota estupendo, que tanto me ensinou sobre o amor-próprio, o amor incondicional e a rejeição. Muitas graças por tudo isso. Prefiro tê-lo aprendido contigo do que com qualquer outra pessoa de quem gostasse menos.

Vimo-nos pela última vez no funeral da mãe. Soube pelo gelo nos teus olhos que não nos voltaríamos a ver. Aceitei a derrota. Desisti. Estilhaçada de dor, arranquei o meu próprio coração, comi-o, vomitei-o, voltei a comê-lo, a vomitá-lo e a comê-lo e a vomitá-lo e a comê-lo, até já não ter mais nada. E segui com a minha vida.
E!, sou feliz! Ora toma.

Contudo, não te minto: sou feliz — mas faltas-me tu. Não esqueço o teu aniversário, embora já não te telefone. Tentei odiar-te, porque era mais fácil assim, mas não consegui. A verdade é que nunca deixei nem deixarei de te amar. E vou esperar por ti até ao último dos meus dias, porque sou uma idiota, seu idiota.

Esta semana, o arcano Oito de Copas leva-nos a reflectir sobre os momentos de viragem, em que, pelo bem da vida que impera ser vivida e da paz interior que impera ser sentida, devemos desistir daquilo que nos fere e seguir por um caminho diferente. Porque todos temos o direito inato de ser felizes.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1674
Foto: StillWorksImagery, licença CC0

Rosa dos Ventos



Desço o ribeiro a baloiçar até ao mar
na canoa do teu abraço.

Beijos ébrios de maresia.
A madressilva dos teus olhos.

Abres estrelas do mar
das tuas mãos frias
no corpo de nevoeiro
perdido na bruma.

Enrolados em tentáculos de vontade
Navega-me em ondas de lençóis brancos
que vão e que vêm,
na maré que enche.

Velas da camisa desfraldadas
lambem o mastro, que se eleva húmido
Afundado no gemido das tábuas
Trémulas, rendidas à tormenta.

Desaguam os cobertores
escorridos aos pés da cama,
Entre as conchas e búzios
da roupa naufragada no chão.

Secreto, o tesouro de colares
Pérolas de leite doce e rubi vermelho
encharcado no marulhar do sémen em ondas.
Suspiras a bonança e o cansaço.

Sou o vento
Tu a rosa
que me sabe as direcções
que me encontra sentido.

Hazel

foto: Pexels, licença CC0

Os malmequeres que nos querem bem


Ai o que eu gosto de malmequeres. Reconfortantes e malcheirosos, aparecem todos os anos quando já ninguém espera por eles, no momento em que se perdeu a esperança de que o Inverno vá alguma vez terminar e nos rendemos quebrados pela chuva mole, teimosa e eterna, um regozijo para o bolor que se imiscui pelos roupeiros bafientos e trepa paredes e ânimo.

Junto duas colheres de café solúvel, uma de açafrão e outra de canela em pó. Misturo água quente, mexo e levo aos lábios a velha caneca, fumegante e aromática; tem, por certo, muito mais de trinta anos. Era eu gaiata — foi quase ontem. É a minha caneca preferida.

A minha mãe tinha uma prima que não tomava banho. Poderia chamar-se Vera (prima-Vera), mas era Bárbara o seu nome — e bárbaro o tule odorífico em sua volta, quase visível, quase palpável. Paz à sua alma, já há muitos anos liberta do corpo que raras vezes terá entrado num chuveiro. Não importa, estimávamo-la na mesma.

Sorvo devagar o café-com-açafrão-e-canela na caneca com o desenho do texugo oferecida pela prima Bárbara numa das suas visitas e deixo a música tocar alto como que a exorcizar as últimas sombras nebulosas do Inverno: “A Primavera” de Vivaldi, interpretada pelo violinista Itzhak Perlman.

Era muito boa senhora, mau grado a falta de esmero na higiene pessoal. Os cabelos pintados de azeviche, impecavelmente ordenados com laca, o sorriso sereno e acolhedor, sempre amorosa e paciente. Falava baixinho, a dentadura ficava-lhe larga. Não me consigo lembrar sobre o que conversava, mas recordo a sua generosidade e bondade.

A prima Bárbara nunca avisava quando vinha visitar-nos. Aparecia sempre de surpresa, pela Primavera; como os malmequeres, reconfortantes e malcheirosos. Inesperados rasgos de luz invadem a casa, ou é isto ou é a mistura do açafrão e da canela no café. Olho pela janela e vejo malmequeres lá fora, um espectáculo para a alma oferecido pela Natureza, que escapa à atenção de quem passa. Pouso a caneca vazia e termino a crónica com a alma cheia de pétalas.

Esta semana, o arcano Ás de Paus aparece num súbito e inesperado impulso, como os malmequeres salpicam de luz os campos verdes e encharcados pelas chuvas, inspirando-nos a deixar o Inverno para trás e, junto com ele, as sombras, a indecisão, os receios. Assim, sem mais nem menos; a renovação e a novidade chegam para quem se dispuser a colher os malmequeres.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1673
Foto: Couleur, licença CC0

A vendedora de ovos


A SENHORA-GALINHA usa quase sempre o mesmo kispo cor-de-papas-de-aveia, a condizer com o tom das asas das suas galinhas. Roliça e muito baixa, encontro-a sempre sentada em doce pacatez sobre um banquinho que desaparece debaixo das saias, dando a ideia de estar a chocar os ovos que tem para venda.

Ao seu lado, sobre as pedras da calçada, as caixas de madeira cheias de ovos, alguns das suas galinhas, e um ou outro com o carimbo vermelho do aviário, mas quem é que vai reparar.

A tranquilidade de quem já viu muito e por isso sabe que não há penas que valham apoquentarmo-nos com pouco, fá-la esperar pelas clientes, quer chova, quer faça Sol, com o mesmo sorriso reconfortante que lhe ilumina o rosto trigueiro, salpicado por uma constelação de manchas deixadas pelos Verões, beijos de Sol que nunca desaparecem.

O olhar astuto, de quem faz as contas de cabeça com a mesma genica que uma galinha depenica dois grãos de milho, segue-me com atenção à medida que desço as escadinhas da vila de Oeiras pela manhã, sempre apressada como a lebre-das-maravilhas, numa maratona contra os ponteiros do relógio.

Retribui os meus bons-dias, enquanto choca os seus ovos com mansidão. Sei que me lê como a um livro, que percebe quando estou contente ou cabisbaixa. 

Deixo, pois também a leio: naquele vislumbre de breves segundos, sei que miga com paciência o pão velho para fazer papas para as galinhas, que recolhe os ovos com as mãos pequeninas e amorosas, as mesmas que não sabem escrever muito bem, mas sabem amar. Às vezes é dura com as palavras. Mas nem sempre. Há muitos anos que aprendeu a escolher quando falar e quando guardar silêncio, e a manter uma certa reserva com as pessoas. Sei tudo isso sem nunca termos falado — e aposto que ela sabe outro tanto de mim. Ou mais.

A senhora-galinha é a derradeira guardiã dos contos inventados e por inventar, das fábulas das cegonhas e das raposas, das galinhas com dentes, dos coelhos com asas e dos elefantes voadores. 

É por ela que ainda existem ovos de ouro; são exactamente esses que choca sentada em frente ao muro de cimento que não tem cor nem luz, mas que ganha vida e apenas existe por ela estar ali, assim como aquele fragmento de dia é essencial para preservar a doçura trigueira das minhas sardas de menina que um dia serão também manchas da idade, beijos de Sol dados ao longo de muitos Verões — como os seus. Fazemos parte da vida uma da outra. Somos amigas, sem sequer nos conhecermos.

O arcano Três de Copas inspira-nos a encontrar alegria, doçura e amizade ao virar da esquina — e quando não o encontrarmos, talvez porque já escasseiem no mundo (ou porque nem todas as localidades têm a sorte de ter uma senhora-galinha), sejamos nós a levá-lo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1671
Ilustração: Prawny, licença CC0