Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Espírito de aldeia num prédio


Pedi um raminho de louro, a minha árvore preferida, para temperar os cozinhados e para, de vez em quando, queimar como incenso délfico. Quis a generosidade, ainda existente entre seres humanos, que me fosse ofertado um ramo do tamanho de uma árvore.

Poderíamos ficar com louro para o resto da vida, mas sinto-me ainda mais satisfeita por ter louro só por uns bons tempos, e sentir o prazer de distribuí-lo por mais casas. Um gesto de bondade torna-se maior quando o fazemos crescer, e não o guardamos só para nós. Se há em abundância, o natural é partilhar.

Assim, hoje o L. e eu estivemos a fazer cones de cartolina verde, enchêmo-los de folhinhas de louro e, às escondidas, pendurámo-los nos puxadores das portas dos vizinhos do prédio com um bilhete nosso. Foi uma bela marotice!

Quem sabe se esta surpresa não irá animar alguém que se sinta triste ou sozinho, ou que se esquece sempre de comprar louro quando vai ao supermercado.


A pendurar coisas à socapa nas portas dos vizinhos,

Hazel


3 actividades para fazer com crianças no Verão

O meu gaiato só quer estar no computador. Imponho-lhe limites de tempo e, uma vez esgotados, vai jogar no telemóvel. Tiro-lhe o telemóvel e ele fica amuado comigo. Apre! Querem lá ver isto.

Determinada a provar-lhe que existe um mundo fora desta caixa quadrada, estivemos durante a semana passada entretidos com estas actividades divertidas e criativas, que fotografei para partilhar com outras mães e pais que possam estar a precisar de novas ideias para colocar em prática com os filhotes durante as férias de Verão.

1. Ventoinha de arco-íris



Sempre achei as ventoinhas o objecto mais cinzento e deprimente do Verão. Então, porque não transformá-las num foco de cor e alegria?

Com a ventoinha desligada, desencaixa-se a parte de frente da rede protectora e pinta-se as hélices a partir do centro, em círculo, com tintas de gouache nas cores que mais gostarmos. Deixamos secar, voltamos a colocar a rede, e eis o resultado final, a funcionar (clicar no play):


2. Construir um relógio de Sol

Usámos um pedaço circular de madeira e um palito. Tive de me socorrer do Google para perceber como se faz um relógio de Sol, mas é bastante simples. E depois é divertido ir lá para fora com uma bússola confirmar se as horas batem certo com a hora solar. Com esta actividade, as crianças aprendem a utilizar uma bússola, a identificar os pontos cardeais, e a perceber como se fazem as medições de tempo.


3. Lançar o papagaio (pipa, no Brasil)

Há sempre muitos vizinhos que ficam a espreitar à janela quando vamos lá para fora lançar o papagaio. Se alguém reconhecer este papagaio e for meu vizinho (porque nunca se sabe onde se escondem os leitores da Casa Claridade, hum?), sinta-se livre para experimentar e divertir-se também, como antigamente se fazia - nós emprestamos o papagaio!


Mais ideias e actividades para breve!

Hazel

Hoje é o teu dia, filho

Crédito foto
Há 11 anos atrás, nasci mãe, pela vinda do meu filho.

Querido L., meu bebé que cheirava a flores e a caramelo, abençoado pelas Fadas que abriram o nevoeiro espesso como algodão-doce na A5 para deixar passar o mesmo carro que ainda temos hoje, de quatro-piscas ligados e águas que vertiam como um tapete de cristal que se estendia para a tua chegada.

Hoje, usas o perfume do Batman e gostas de cozinhar. O teu professor disse-me que andaste a atirar aviõezinhos de papel na aula. Apetece-me ralhar por isso, mas adoro-te e também te quero abraçar. E é nesta fronteira fina como um fio de cabelo de anjo que vive o infinito universo do amor incondicional para onde me levaste há 11 anos atrás, e de onde nunca mais saí...

Obrigada, filho.
Hazel

Uma página solta no diário de uma mãe


O meu filho este ano anda na mesma escola onde estudei. No dia da apresentação, não pude deixar de sentir uma certa estranheza quando pensei: agora venho aqui como mãe, não como aluna. Senti-me como o Marty McFly, numa viagem ao futuro, ao ver-me, agora crescida, e com um filho pela mão.

Uma mãe -  contudo - que ainda ouve os AC/DC alto, toca uma guitarra eléctrica imaginária e tem uma tatuagem no braço. A tradição já não é o que era, graças aos Deuses. A-ha!

De vez em quando, ainda sonho que estou atrasada a caminho da escola, subo as escadas a correr, entro na sala de aulas onde está a decorrer um teste escrito para o qual não estudei, e acabo por não conseguir fazê-lo, porque já terminou o tempo. Há mais de 20 anos que tenho sempre o mesmo sonho, na mesma sala.

Depois da escola ter sido demolida e reconstruída, tinha alguma curiosidade em ver como são as salas de aula agora, em pleno séc. XXI.

Quando entrei para a apresentação, durante uma fracção de segundo, o mundo parou.
Era exactamente a mesma sala de aula dos meus sonhos.
Que momento twilight zone! Quão estranho é isto? Ainda não estou em mim.
Apetecia-me dizer a toda a gente: "Hey, esta é a sala com que tenho andado a sonhar nos últimos 20 anos! Já posso acabar o raio do teste?"
Mas não vou envergonhar o meu filho já no começo do ano lectivo.

Agora tudo é controlado através da internet, palavra desconhecida no meu tempo.
Os quadros negros de ardósia onde se escrevia com giz deram lugar a imaculados quadros brancos, com projector de imagens ligado ao computador do professor.

(Onde terão ido parar as centenas e centenas de quadros de ardósia que havia pelas escolas do nosso país todo, alguém sabe?)

Já ninguém passa bilhetinhos por baixo da mesa. Os telemóveis proliferam. Pergunto-me se ainda se escreverão mensagens nas portas das casas-de-banho. Provavelmente, não.
Quem é que precisa de uma porta para escrever, quando existe o facebook? Haha!

Os alunos alinham-se em fila sobre uma risca branca pintada no chão e seguem ordenados para a sala de aula atrás do professor. Não sei como me sentir em relação a isso. Por um lado, compreendo a necessidade de organização, por outro, pareceu-me ter ouvido uma voz longínqua cantar dentro de mim o refrão "All in all, you're just another brick in the wall".

O primeiro passo para a formatação requerida por uma Sociedade onde tudo deve ser ordeiro e obedecer a um estereotipo ideal. Talvez seja eu que sou uma bota-de-elástico, por ainda sonhar com o Peter Pan e a Terra do Nunca, onde não existem linhas rectas, mas vôos em espiral. Perdoem-me pelo desalinhamento.

Curiosamente, desde o dia em que vi materializada a sala que visitei em sonhos durante mais de 20 anos... nunca mais sonhei com ela.

Ao som de Pink Floyd,
Hazel

O sábio do lago dos lótus





- Mamã, quero fazer alguma coisa contigo, diz o L., cheio de enfado porque os brinquedos já não brincam como antigamente quando era pequenino.

A paciente mamã levou a cangalhada toda dos trabalhos manuais para a mesa da cozinha e sentou-se a desenhar um velho chinês a andar de barco num lago de flores de lótus.

Com lápis-de-cor, pétalas de flores secas (os lótus), folhas secas (o chapéu e as folhinhas nas montanhas), cartão (o barco), um pau de fósforo dos compridos (o remo), pedaços de penas (a gaivota), lãs (cabelo e barba) e outras minhoquices que fui acrescentando, o quadro foi aparecendo aos poucos.

Sua Alteza não estava a colaborar. A resignada mamã foi pintando e colando.
Sua Alteza levantou-se da mesa rabugento e chato, e eu julguei que tivesse ido buscar mais algum ingrediente para colar ao desenho. E nunca mais voltava...

Deve ter ficado com sono pelo movimento suave do barco no lago dos lótus; a surpreendida mamã foi encontrá-lo a dormir profundamente.

Afinal, o que Sua Alteza queria fazer comigo era dormir uma boa sesta!

Com os dedos cheios de cola,
Hazel

"Mamã, eu quero mais liberdade!"



O L. está insatisfeito porque lhe limito o tempo passado no computador a jogar "Minecraft". Num suspiro vindo lá do fundo da alma, clama:

- Mamã, eu quero mais liberdade!

Ora, foi com uma afirmação semelhante que D. Afonso Henriques começou isto tudo. Também queria jogar "Minecraft", e criar um país. Olhem no que deu.

Some things never change.  smile emoticon

Saudações da Rainha-Mãe,
Hazel

Ser adulto é uma seca


Hoje expliquei ao meu gaiato que os crescidos são pessoas muito sérias e, por isso, não podem fazer macacadas nem cantar alto e esganiçado rá-tá-tá-tá-ra-ra-ta-tá-tá como a música das cornetas do circo. 

A menos que tenham as janelas do carro bem fechadas. 

Ele ficou a processar a informação, enquanto avaliava as outras senhoras enfadonhamente circunspectas por detrás dos seus óculos-escuros de marca, no nosso caminho de casa.

- Não, filho, as outras mães não fazem mesmo estas coisas. Nem eu as faço em frente a mais ninguém, além de ti, porque os adultos não acham graça a muitas brincadeiras. Preferias que eu fosse mais séria?

- Não, gosto de ti assim. (abençoado!)

E continuei a cantoria, enquanto estacionava, com os meus mais despreocupados agudos.
O L., no banco de trás, esboçava o seu sorriso tranquilo de "tudo está bem como está".

Mas o som atravessa os vidros dos carros, e a prova disso foram os olhos esbugalhados da senhora no carro ao lado, que seguiram incrédulos o nosso caminho todo até entrarmos no prédio. Caminho esse, que percorremos cheios de dignidade. E seriedade.

Se o Peter Pan fosse uma miúda... era eu!  

Forever young,

Hoje, o post é para o meu filho

Parabéns! Hoje é o teu dia, filhooooooo!

A mamã está tão orgulhosa de ti. Já tens 10 anos!
Viva, viva, viva!

Obrigada por sermos os melhores amigos do mundo e por gostares tanto de mim.

Obrigada por me teres escolhido a mim, quando eras ainda só uma estrelinha, para eu ser a tua mamã.

Como estás muito crescido e já sabes ler bem, agora já consegues ler as mensagens que a mamã te foi escrevendo ao longo dos anos.
Guardei tudo para ti:

Tinhas 4 anos - "Post para um leitor que ainda não sabe ler"

Tinhas 5 anos - Como foi quando tu nasceste. Passa para o seguinte, este lês quando fores mais crescido.

Tinhas 6 anos - Este vai dar menos trabalho a ler, tem uma música gira para tu ouvires.

Tinhas 7 anos - Escuta a música que tocava enquanto eu esperava que nascesses.

Tinhas 8 anos - Tem uma mensagem da mamã e desenhos-animados do Dartacão!

Aos 9 anos, a mamã não escreveu mensagem no blog, foi quando fomos passear. Ai que alívio, é menos uma para leres!

E agora... vai abrir os teus presentes, que estão.......

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Escondidos na marquise da sala.

Muitos beijinhos!

Mamã.

Lição de anatomia


L. - Mamã, dói-me o peito. Já não consigo comer mais.
Hazel - O peito? Homessa! Mas em que sítio?
L. - Aqui, mamã.

Ele mostra, colocando a mão na barriga.

Hazel - Isso não é o peito, é a barriga. O peito é na zona das maminhas.
L. - Ai é nas maminhas? Então, a barriga é isto tudo das maminhas para baixo?
Hazel - Sim.
L. - Uau...!

Beijos anatómicos,



Querido filho,


Hoje é o teu dia de anos. Estás um menino crescido e a mamã está muito orgulhosa de ti.

Já tens 8 anos, sabes ler, escreves bilhetes para a mamã, e hoje a mamã está muito feliz por poder escrever este bilhete e tu já o conseguires ler. Há muitas pessoas que também conseguem ler este bilhete no computador delas, e muitas estão em outros países tão longe que só se pode ir de avião.

Mas é para ti que hoje escrevo, meu príncipe.
Para te dizer que és o meu melhor amigo, e a mamã todos os dias é feliz porque tu existes.
Quando começaste a nascer, estava tanto nevoeiro que parecia que o mundo se encheu de algodão-doce para te receber. Vieste com os primeiros raios de Sol pela manhã.
E tudo ficou mais bonito, mais especial por teres chegado.

Todos os dias cresces mais um bocadinho, especialmente quando comes sopa, e um dia vais ficar mais alto que a mamã. A mamã vai ser mais velhinha, vai continuar a voar de vassoura e quando tiveres os teus filhos também os levo para a cama de vassoura como às vezes te levo quando te portas bem. E sabes porquê? Porque a mamã é assim mesmo, e tu gostas da mamã assim como é. E isso faz a mamã feliz.

Obrigada, filho, por me teres escolhido a mim para ser tua mamã quando estavas à espera de nascer. Parabéns pelos teus 8 anos! O teu presente está escondido. Tens de usar o mapa do tesouro que está debaixo da tua almofada para o encontrar.

Amo-te.
Mamã

Este vídeo é para ti.


Uma floresta de feijões mágicos

De pequenino se torce o pepino!

Este projecto, para fazer com as crianças, vai ensinar-lhes:

1. Que os feijões não nascem nas latas.
2. A cuidar, amar e respeitar a Natureza.
3. A serem responsáveis.

Forrar o fundo de um recipiente transparente com algodão, depositar vários feijões e humedecer o algodão com água.
Em poucos dias, estará assim, verdejante.

Fica à responsabilidade da criança cuidar da sua floresta de feijões mágicos e todos os dias verificar se precisa de ser regada, se tem luz suficiente...

Pode acrescentar ao recipiente um pequenino duende, uma casinha, um tesouro...
Não se esqueça de recompensar o seu filho: conte-lhe a história do "João e o Pé de Feijão"!



Parabéns, meu filho!

Parabéns, meu bebé. Fazes hoje 7 anos!
Era esta música que estava a tocar enquanto eu esperava para te receber.

Que as bênçãos da Terra, Ar, Fogo e Água sempre acompanhem o teu pensamento e o teu caminho. Que Iemanjá me guie enquanto mãe justa, que ensina, protege e dá amor.
Que sejas muito feliz, meu doce Príncipe!

Beijos de mãe

A vida tem destas coisas.

Julgamos que tudo está finalmente arrumado no seu devido lugar, mas um dia olhamos em volta e já nada nos faz sentido. Pior: olhamos para dentro de nós e encontramos o Vazio.
Poderia fingir que não o vejo. Era o mais fácil, o mais conveniente, o mais expectável.
E tentei durante algum tempo. Tentei mesmo.

Entretanto, por duas vezes, atravessei a estrada e ia sendo atropelada.
Em ambas as situações, os pára-choques dos carros ficaram encostados a mim a ponto de sentir o calor do motor. Safei-me sem um arranhão e com a nítida sensação de ter sido salva por intervenção divina. Mas... e se da próxima não me safar?
E se isso tiver sido um aviso para repensar toda a minha vida?
E se a minha existência for abruptamente interrompida um dia, e eu me arrepender da falta de coragem que tive para virar tudo do avesso e fazer o menos fácil, o menos conveniente, o menos expectável, por receio dos julgamentos alheios?

Então, antecipei-me. Decidi saltar directamente para o momento da minha morte.
O exercício mental foi simples: vi-me deitada numa urna, coberta por cravos (sempre foram a minha flor preferida) e a tampa a fechar-se sobre mim para sempre.
Nada mais há a perder a partir deste momento tão definitivo, e as opiniões alheias são, seguramente, o menos importante.
Pois, refiz tudo a partir daí. Virei tudo do avesso, morri e estou a renascer.


E agora, venha quem vier. Pensem o que pensarem. Digam o que disserem.
Viver não é respirar, queridos leitores. É ter a coragem de escolher o nosso próprio caminho, mesmo que isso implique termos de percorrê-lo sozinhos, e vencer todo o tipo de obstáculos.

Foi o que fiz. Há mais de um mês atrás, separei-me da pessoa com quem casei, e actualmente vivo na minha própria casa.
Tentarei voltar aos posts e retomar o Projecto 365 logo que me seja possível.
Os comentários continuam fechados.
A quem me quiser desejar boa-sorte, agradeço do fundo do coração.
Aos que se acharem no direito de julgar ou criticar, sugiro que empreguem o vosso tempo e energia para outros fins mais construtivos e altruístas.

O meu sincero e profundo agradecimento por todos os emails e comentários enviados, pela vossa amizade e apoio. Grata por tudo.

English Spoken!

Todas as manhãs, sempre com o ponteiro do relógio que não perdoa um segundo a empurrar-me o rabo (fica feio escrever "rabo"?), levo o L. à escolinha. E vocês sabem lá.

Come. Come. Come. Come. Olha o tempo a passar. Anda lavar os dentes. Bochecha. Cospe.
Olha, cuspiste a camisola. Anda cá trocar. Veste o casaco. Enfia o braço. Anda. Despacha-te.
Onde é que está a minha mala? Deixa o gato. Vai descendo as escadas. Anda.
[Ah... estou a ver esta introdução como um eficaz anticoncepcional em larga escala. Quem estava na dúvida sobre ter ou não filhos, já ficou esclarecido, hã?]

Entretanto, este nosso emocionante safari matinal ganhou um novo grau de dificuldade.

Só porque me lembrei que enquanto vou a conduzir até à escolinha, podia aproveitar esse tempo para fazer algo útil e interessante: ensinar inglês ao L..

E passei a conversar com ele em inglês. Com frases curtas e expressivas.

- Oh, look, a dog!
- What's that? A truck!
- Do you need a handkerchief?
- Hurry up!
- Let's find a place to park the car.
- Can you unfasten your seatbelt?
- Take off your coat.
- Give mummy a kiss.
- Behave.

Ele fica muito calado e atento. Depois de alguns dias, começou a associar as palavras às situações e a apreciar a aprendizagem de uma nova língua. Quando vou buscá-lo à tarde, pede-me para continuar a falar em inglês. E quando passamos pelo supermercado, quer que eu diga em inglês o nome de todos os legumes (nota mental: ver como se diz "chuchu").

Tem sido tão enriquecedor, que deixo esta sugestão a todos os pais e mães que saibam falar outra língua além da de Camões. As crianças são muito mais inteligentes do que julgamos...

E agora, please excuse me, que eu vou ali ao dicionário ver como se diz "ranho" em inglês.
É das tais palavras que não se aprendem numa sala de aulas, mas fazem parte do dia-a-dia de uma mãe. :)

Em tempo: ranho = snot

O orgulho da mamã


Hazel - Meu bebé, o que é que tu gostas mais de ouvir: o Avô Cantigas, os AC/DC ou as cantigas que a mamã te canta?

L. - Os AC/DC.

Ahhhh. É mesmo meu filho!

Hazel

Alguém tem um cobertor a mais?

Tão fofinho que sou. Uma riqueza. A minha família trata-me bem.
Tenho sempre a minha taça cheia de comida boa, mimam-me, escovam-me, e tenho muitos sítios quentes e confortáveis para dormir. É uma rica vida, a minha. Sou um sortudo.

Mas nunca me vou esquecer da fome e do frio que passei na rua, quando fui abandonado.

Estive quase a fazer a última grande viagem, mas a minha amiga lutou tanto por mim, que recuperei as forças e a vontade de viver.

E, no entanto, nunca me esqueço dos amigos felinos que deixei e não tiveram a mesma sorte que eu.
Nos canis e gatis, é tudo feito de cimento e ferro.
Muitos dos companheiros mais frágeis (bebés e idosos) têm morrido, devido ao frio.

Se eles tivessem um agasalho, isso podia fazer toda a diferença para eles.
Podia salvar-lhes a vida...

E eu queria pedir-vos, humanos bondosos, que ajudassem os meus amigos que ainda não têm família.

Se tiverem cobertores, mantas, edredons, ou até mesmo toalhas de banho que não precisem, entreguem, por favor, na União Zoófila, em Lisboa.
Conto convosco. Por favor.

Um Fotógrafo de 5 anos em Minha Casa

A minha máquina fotográfica anterior avariou, e dei-a ao L., para brincar.
(ainda dá para tirar fotos, embora saiam com excesso de luz e às riscas)
O L. andou todo divertido, feito repórter abelhudo, a registar tudo o que via.

Ontem, ele mostrou-me as fotos que andou a tirar. E eu fiquei impressionada. Ainda estou.
Como é que este gaiato de 5 anos consegue tirar melhores fotografias com uma máquina avariada do que eu com uma nova?

Acreditem ou não, todas as fotos que se seguem foram tiradas pelo L., nas suas brincadeiras, e sem qualquer influência da minha parte.

Esta é a perspectiva mágica que ele tem da nossa casa:

Mesa posta na cozinha num fim de tarde qualquer.

Os seus Legos (em grande plano!).

A sala.

O ânus de Dom Gato. lol

Um dos seus carrinhos, em plano gigante.

O seu pato do banho.
Aqui, ele devia estar sentado no trono a fazer o "número 2". ahahah

Mais uma da sala.

Pelos corredores da casa.

Hoje o post é teu, filho.

Como se fazem bebés

Depois do banho:

L. - Olha, mamã, que engraçado, tenho aqui duas bolinhas.
Hazel - Pois tens, filho. Sabes o que é que as tuas bolinhas têm lá dentro? Sementinhas.
L., fascinado - Ehhhh... e para que é que servem as sementinhas?
Hazel - Para fazer bebés, quando fores crescido.
L. - Mas, como? Onde é que se põem as sementinhas?
Hazel, já meio atrapalhada - As sementinhas passam para uma senhora.
L. - Como é que passam?

A-ha! E agora, hã?
Como é que os meus leitores esclarecidos e desembaraçados iam descalçar esta bota e explicar isto a uma criança de 5 anos?

Há a velha história da cegonha que vem a voar de França e traz os bebés numa alcofa pendurada pelo bico. Mas isso era antigamente. Era bonito, era romântico, e era mentira.

As crianças querem e merecem saber a verdade. Hoje, no século XXI, chama-se a criança indagadora ao computador e mostra-se isto (imagens de um livro de psicologia infantil alemão):

Hazel - Percebeste, meu bebé?
L. - Deixa-me ver outra vez, mamã.
(viu outra vez)
L. - Ah, está bem. Percebi. Posso ir comer bolachas?

Pronto.