Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Espírito de aldeia num prédio


Pedi um raminho de louro, a minha árvore preferida, para temperar os cozinhados e para, de vez em quando, queimar como incenso délfico. Quis a generosidade, ainda existente entre seres humanos, que me fosse ofertado um ramo do tamanho de uma árvore.

Poderíamos ficar com louro para o resto da vida, mas sinto-me ainda mais satisfeita por ter louro só por uns bons tempos, e sentir o prazer de distribuí-lo por mais casas. Um gesto de bondade torna-se maior quando o fazemos crescer, e não o guardamos só para nós. Se há em abundância, o natural é partilhar.

Assim, hoje o L. e eu estivemos a fazer cones de cartolina verde, enchêmo-los de folhinhas de louro e, às escondidas, pendurámo-los nos puxadores das portas dos vizinhos do prédio com um bilhete nosso. Foi uma bela marotice!

Quem sabe se esta surpresa não irá animar alguém que se sinta triste ou sozinho, ou que se esquece sempre de comprar louro quando vai ao supermercado.


A pendurar coisas à socapa nas portas dos vizinhos,

Hazel


3 actividades para fazer com crianças no Verão

O meu gaiato só quer estar no computador. Imponho-lhe limites de tempo e, uma vez esgotados, vai jogar no telemóvel. Tiro-lhe o telemóvel e ele fica amuado comigo. Apre! Querem lá ver isto.

Determinada a provar-lhe que existe um mundo fora desta caixa quadrada, estivemos durante a semana passada entretidos com estas actividades divertidas e criativas, que fotografei para partilhar com outras mães e pais que possam estar a precisar de novas ideias para colocar em prática com os filhotes durante as férias de Verão.

1. Ventoinha de arco-íris



Sempre achei as ventoinhas o objecto mais cinzento e deprimente do Verão. Então, porque não transformá-las num foco de cor e alegria?

Com a ventoinha desligada, desencaixa-se a parte de frente da rede protectora e pinta-se as hélices a partir do centro, em círculo, com tintas de gouache nas cores que mais gostarmos. Deixamos secar, voltamos a colocar a rede, e eis o resultado final, a funcionar (clicar no play):


2. Construir um relógio de Sol

Usámos um pedaço circular de madeira e um palito. Tive de me socorrer do Google para perceber como se faz um relógio de Sol, mas é bastante simples. E depois é divertido ir lá para fora com uma bússola confirmar se as horas batem certo com a hora solar. Com esta actividade, as crianças aprendem a utilizar uma bússola, a identificar os pontos cardeais, e a perceber como se fazem as medições de tempo.


3. Lançar o papagaio (pipa, no Brasil)

Há sempre muitos vizinhos que ficam a espreitar à janela quando vamos lá para fora lançar o papagaio. Se alguém reconhecer este papagaio e for meu vizinho (porque nunca se sabe onde se escondem os leitores da Casa Claridade, hum?), sinta-se livre para experimentar e divertir-se também, como antigamente se fazia - nós emprestamos o papagaio!


Mais ideias e actividades para breve!

Hazel

Hoje é o teu dia, filho

Crédito foto
Há 11 anos atrás, nasci mãe, pela vinda do meu filho.

Querido L., meu bebé que cheirava a flores e a caramelo, abençoado pelas Fadas que abriram o nevoeiro espesso como algodão-doce na A5 para deixar passar o mesmo carro que ainda temos hoje, de quatro-piscas ligados e águas que vertiam como um tapete de cristal que se estendia para a tua chegada.

Hoje, usas o perfume do Batman e gostas de cozinhar. O teu professor disse-me que andaste a atirar aviõezinhos de papel na aula. Apetece-me ralhar por isso, mas adoro-te e também te quero abraçar. E é nesta fronteira fina como um fio de cabelo de anjo que vive o infinito universo do amor incondicional para onde me levaste há 11 anos atrás, e de onde nunca mais saí...

Obrigada, filho.
Hazel

Uma página solta no diário de uma mãe


O meu filho este ano anda na mesma escola onde estudei. No dia da apresentação, não pude deixar de sentir uma certa estranheza quando pensei: agora venho aqui como mãe, não como aluna. Senti-me como o Marty McFly, numa viagem ao futuro, ao ver-me, agora crescida, e com um filho pela mão.

Uma mãe -  contudo - que ainda ouve os AC/DC alto, toca uma guitarra eléctrica imaginária e tem uma tatuagem no braço. A tradição já não é o que era, graças aos Deuses. A-ha!

De vez em quando, ainda sonho que estou atrasada a caminho da escola, subo as escadas a correr, entro na sala de aulas onde está a decorrer um teste escrito para o qual não estudei, e acabo por não conseguir fazê-lo, porque já terminou o tempo. Há mais de 20 anos que tenho sempre o mesmo sonho, na mesma sala.

Depois da escola ter sido demolida e reconstruída, tinha alguma curiosidade em ver como são as salas de aula agora, em pleno séc. XXI.

Quando entrei para a apresentação, durante uma fracção de segundo, o mundo parou.
Era exactamente a mesma sala de aula dos meus sonhos.
Que momento twilight zone! Quão estranho é isto? Ainda não estou em mim.
Apetecia-me dizer a toda a gente: "Hey, esta é a sala com que tenho andado a sonhar nos últimos 20 anos! Já posso acabar o raio do teste?"
Mas não vou envergonhar o meu filho já no começo do ano lectivo.

Agora tudo é controlado através da internet, palavra desconhecida no meu tempo.
Os quadros negros de ardósia onde se escrevia com giz deram lugar a imaculados quadros brancos, com projector de imagens ligado ao computador do professor.

(Onde terão ido parar as centenas e centenas de quadros de ardósia que havia pelas escolas do nosso país todo, alguém sabe?)

Já ninguém passa bilhetinhos por baixo da mesa. Os telemóveis proliferam. Pergunto-me se ainda se escreverão mensagens nas portas das casas-de-banho. Provavelmente, não.
Quem é que precisa de uma porta para escrever, quando existe o facebook? Haha!

Os alunos alinham-se em fila sobre uma risca branca pintada no chão e seguem ordenados para a sala de aula atrás do professor. Não sei como me sentir em relação a isso. Por um lado, compreendo a necessidade de organização, por outro, pareceu-me ter ouvido uma voz longínqua cantar dentro de mim o refrão "All in all, you're just another brick in the wall".

O primeiro passo para a formatação requerida por uma Sociedade onde tudo deve ser ordeiro e obedecer a um estereotipo ideal. Talvez seja eu que sou uma bota-de-elástico, por ainda sonhar com o Peter Pan e a Terra do Nunca, onde não existem linhas rectas, mas vôos em espiral. Perdoem-me pelo desalinhamento.

Curiosamente, desde o dia em que vi materializada a sala que visitei em sonhos durante mais de 20 anos... nunca mais sonhei com ela.

Ao som de Pink Floyd,
Hazel

O sábio do lago dos lótus





- Mamã, quero fazer alguma coisa contigo, diz o L., cheio de enfado porque os brinquedos já não brincam como antigamente quando era pequenino.

A paciente mamã levou a cangalhada toda dos trabalhos manuais para a mesa da cozinha e sentou-se a desenhar um velho chinês a andar de barco num lago de flores de lótus.

Com lápis-de-cor, pétalas de flores secas (os lótus), folhas secas (o chapéu e as folhinhas nas montanhas), cartão (o barco), um pau de fósforo dos compridos (o remo), pedaços de penas (a gaivota), lãs (cabelo e barba) e outras minhoquices que fui acrescentando, o quadro foi aparecendo aos poucos.

Sua Alteza não estava a colaborar. A resignada mamã foi pintando e colando.
Sua Alteza levantou-se da mesa rabugento e chato, e eu julguei que tivesse ido buscar mais algum ingrediente para colar ao desenho. E nunca mais voltava...

Deve ter ficado com sono pelo movimento suave do barco no lago dos lótus; a surpreendida mamã foi encontrá-lo a dormir profundamente.

Afinal, o que Sua Alteza queria fazer comigo era dormir uma boa sesta!

Com os dedos cheios de cola,
Hazel

"Mamã, eu quero mais liberdade!"



O L. está insatisfeito porque lhe limito o tempo passado no computador a jogar "Minecraft". Num suspiro vindo lá do fundo da alma, clama:

- Mamã, eu quero mais liberdade!

Ora, foi com uma afirmação semelhante que D. Afonso Henriques começou isto tudo. Também queria jogar "Minecraft", e criar um país. Olhem no que deu.

Some things never change.  smile emoticon

Saudações da Rainha-Mãe,
Hazel

Ser adulto é uma seca


Hoje expliquei ao meu gaiato que os crescidos são pessoas muito sérias e, por isso, não podem fazer macacadas nem cantar alto e esganiçado rá-tá-tá-tá-ra-ra-ta-tá-tá como a música das cornetas do circo. 

A menos que tenham as janelas do carro bem fechadas. 

Ele ficou a processar a informação, enquanto avaliava as outras senhoras enfadonhamente circunspectas por detrás dos seus óculos-escuros de marca, no nosso caminho de casa.

- Não, filho, as outras mães não fazem mesmo estas coisas. Nem eu as faço em frente a mais ninguém, além de ti, porque os adultos não acham graça a muitas brincadeiras. Preferias que eu fosse mais séria?

- Não, gosto de ti assim. (abençoado!)

E continuei a cantoria, enquanto estacionava, com os meus mais despreocupados agudos.
O L., no banco de trás, esboçava o seu sorriso tranquilo de "tudo está bem como está".

Mas o som atravessa os vidros dos carros, e a prova disso foram os olhos esbugalhados da senhora no carro ao lado, que seguiram incrédulos o nosso caminho todo até entrarmos no prédio. Caminho esse, que percorremos cheios de dignidade. E seriedade.

Se o Peter Pan fosse uma miúda... era eu!  

Forever young,

Hoje, o post é para o meu filho

Parabéns! Hoje é o teu dia, filhooooooo!

A mamã está tão orgulhosa de ti. Já tens 10 anos!
Viva, viva, viva!

Obrigada por sermos os melhores amigos do mundo e por gostares tanto de mim.

Obrigada por me teres escolhido a mim, quando eras ainda só uma estrelinha, para eu ser a tua mamã.

Como estás muito crescido e já sabes ler bem, agora já consegues ler as mensagens que a mamã te foi escrevendo ao longo dos anos.
Guardei tudo para ti:

Tinhas 4 anos - "Post para um leitor que ainda não sabe ler"

Tinhas 5 anos - Como foi quando tu nasceste. Passa para o seguinte, este lês quando fores mais crescido.

Tinhas 6 anos - Este vai dar menos trabalho a ler, tem uma música gira para tu ouvires.

Tinhas 7 anos - Escuta a música que tocava enquanto eu esperava que nascesses.

Tinhas 8 anos - Tem uma mensagem da mamã e desenhos-animados do Dartacão!

Aos 9 anos, a mamã não escreveu mensagem no blog, foi quando fomos passear. Ai que alívio, é menos uma para leres!

E agora... vai abrir os teus presentes, que estão.......

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Escondidos na marquise da sala.

Muitos beijinhos!

Mamã.

Quem és tu, afinal, gato do demo?

Notícia de última hora!

Todos vós que acompanhais a Casa Claridade, já conheceis Dom Gato Aramis.
Sua Alteza tornou-se de tal forma popular, que até tem a sua própria página de facebook.

Pois, este gato tem sido uma autêntica caixa de surpresas. Quando o acolhi, julguei, durante um certo tempo, que era uma gata (não tinha "berloques"!). Eu chamava-lhe Clarisse.

Até que, um dia, vi uma coisita espetada no baixo ventre, e pensei: "Homessa... Que raio é aquilo? Será uma inflamação?" E fui ao Google Images. Ocorreu-me pesquisar com as palavras-chave "pénis de gato". No meio de uma data de imagens porno-escabrosas que não estavam relacionadas com gatos, acabei por obter a resposta para aquilo que eu julgava ser uma inflamação: era uma pilinha (note-se, é a primeira vez que escrevo "pilinha" em 6 anos de blog!).

Imediatamente, e para não mais ofender a virilidade da "Clarisse", mudei-lhe o nome para Aramis, numa alusão ao Mosqueteiro cuja sexualidade causava dúvidas. E os anos passaram.

Pois, há cerca de meia-hora atrás, acabei de fazer outra descoberta. Sempre pensei que o Aramis fosse um "Bosques da Noruega". Hoje ao consultar este site com o Dom Gato entalado debaixo do meu braço enquanto comparava a cara dele com a cara dos gatos no site, descobri que afinal ele não é um Bosques da Noruega, mas um Main Coon.

Depois disto, só me resta um dia vir a descobrir que ele é um humano disfarçado de gato que me observa atentamente a tomar banho e em outras actividades do foro privado. Uia!

Em choque,

A perseguição



Estava indecisa se deveria ou não partilhar convosco uma experiência tão escatológica como esta. Mas sei que vocês, seus marotos, mesmo que não admitam, têm um prazer obsceno em ler relatos de teor escatológico (e eu em escrevê-los).

O momento alto de ontem, o clímax de todas as emoções, foi quando cheguei a casa à tarde. O gato Aramis passou por mim deixando um rasto de odor fecal atrás de si. Pffff. Nunca antes tinha acontecido, mas pensei com os meus botões que ele estivesse com flatulência. Não liguei.

Sentei-me a ler as mensagens do dia, e Sua-Alteza-O-Gato salta-me para o colo trazendo consigo o mesmo cheiro suspeito e nauseabundo.

Oh limpinhos e perfumados amigos, o meu estômago subiu e desceu em menos de um segundo no momento em que lhe levantei a cauda felpuda e vi duas bolas penduradas lá por baixo. "Queres ver que lhe cresceram testículos?", ainda pensei, num momento-insanidade.

Eram dois... dois... cagalhotos! Colados aos pêlos, ali junto ao buraquinho. Nunca me levantei tão rápido de uma cadeira. O gato, assustado, saltou para o chão e desatámos numa perseguição desenfreada em que ele se escapulia com a velocidade de um tiro com os berloques a dançar debaixo da cauda e eu corria o melhor que podia atrás dele.

Até que finalmente o agarrei. Munida de toalhetes húmidos, tentei tirar os... os... vocês sabem. Quanto mais puxava, mais empastados ficavam no pêlo. Empastados, é esse o termo. E o cheiro, senhores, o cheiro. It's a dirty work, but someone's gotta do it.

Coloquei o meu sensor de nojo de lado e, meio pacote de toalhetes depois, consegui limpar tudo, debaixo dos insultos e protestos miados em gatês pelo pobre bichano, que não compreendia esta minha invasão às suas partes íntimas. Desculpa, Gato!

Ainda hoje me pareceu tê-lo visto a olhar de lado para mim. Está zangado e não o culpo. Ficou a dúvida: deveria aparar-lhe os pêlos à volta do...?

De mãos desinfectadas,

Hazel

Lição de anatomia


L. - Mamã, dói-me o peito. Já não consigo comer mais.
Hazel - O peito? Homessa! Mas em que sítio?
L. - Aqui, mamã.

Ele mostra, colocando a mão na barriga.

Hazel - Isso não é o peito, é a barriga. O peito é na zona das maminhas.
L. - Ai é nas maminhas? Então, a barriga é isto tudo das maminhas para baixo?
Hazel - Sim.
L. - Uau...!

Beijos anatómicos,



Querido filho,


Hoje é o teu dia de anos. Estás um menino crescido e a mamã está muito orgulhosa de ti.

Já tens 8 anos, sabes ler, escreves bilhetes para a mamã, e hoje a mamã está muito feliz por poder escrever este bilhete e tu já o conseguires ler. Há muitas pessoas que também conseguem ler este bilhete no computador delas, e muitas estão em outros países tão longe que só se pode ir de avião.

Mas é para ti que hoje escrevo, meu príncipe.
Para te dizer que és o meu melhor amigo, e a mamã todos os dias é feliz porque tu existes.
Quando começaste a nascer, estava tanto nevoeiro que parecia que o mundo se encheu de algodão-doce para te receber. Vieste com os primeiros raios de Sol pela manhã.
E tudo ficou mais bonito, mais especial por teres chegado.

Todos os dias cresces mais um bocadinho, especialmente quando comes sopa, e um dia vais ficar mais alto que a mamã. A mamã vai ser mais velhinha, vai continuar a voar de vassoura e quando tiveres os teus filhos também os levo para a cama de vassoura como às vezes te levo quando te portas bem. E sabes porquê? Porque a mamã é assim mesmo, e tu gostas da mamã assim como é. E isso faz a mamã feliz.

Obrigada, filho, por me teres escolhido a mim para ser tua mamã quando estavas à espera de nascer. Parabéns pelos teus 8 anos! O teu presente está escondido. Tens de usar o mapa do tesouro que está debaixo da tua almofada para o encontrar.

Amo-te.
Mamã

Este vídeo é para ti.


Ensinar um gato a usar a sanita em 8 passos


Aramis, meu bom gato. A tua vida vai mudar radicalmente. Tu, que és tão espertinho. Tu, que és tão simpático. Tu, que te julgas humano e só gostas de beber água se for de um copo.

Quando te vi assim, sentadinho no trono, tive uma ideia: vou ensinar-te a usar a sanita dos humanos. Vou mesmo!

Não preciso de referir as vantagens de treinar um gato a usar a sanita. Mas vou referi-las na mesma, então quem é que manda aqui?

1. Acaba-se "aquele" cheiro que a caixa das areias às vezes liberta na casa;

2. Preservamos o meio-ambiente e poupamos dinheiro, pois deixamos de precisar de comprar areia;

3. Deixamos de ter a tarefa desagradável de limpar a caixa das areias.

Se está curioso sobre como vou ensiná-lo, aqui está um vídeo muito útil:


Aqui estão os 8 passos:

1 - Colocar a caixa das areias do gato ao lado da sanita.
2 - Todos os dias, ir gradualmente subindo a caixa colocando listas telefónicas ou outra coisa qualquer por baixo, até acabar por ficar da mesma altura da sanita.
3 - Colocar a caixa das areias em cima da sanita.
4 - Substituir a caixa das areias por uma bacia redonda cheia de areia que se coloca em cima da sanita.
5 - Colocar a bacia dentro da sanita, mantendo a areia.
6 - Fazer um buraco no fundo da bacia e colocar areia à volta.
7 - Aumentar o tamanho do buraco da bacia.
8 - Retirar a bacia de dentro da sanita. E temos um gato treinado!

Desejem-nos boa sorte. O treino começa... hoje!
Alguém se atreve a embarcar nesta aventura connosco e treinar o seu gato?

UPDATE EM 21/11/2012:
Estava tudo a correr tão bem... e na última etapa do treino... foi o desastre total.

Todos os tapetes da casa sujos de xixi e o cocó fazia no chão ao lado da sanita.
Estivemos quase lá. Quaaaase!
Portanto, desisti do treino, com muita pena, e voltámos à velha caixa das areias.
Voltámos, é como quem diz, quem a usa é o gato, não eu!
Eu tenho cá para mim que ele até conseguia fazer tudo certinho, mas decidiu assim porque gosta de ver esta sua súbdita sentir emoções fortes. Affff....!
Mas não desistam. Há gatos e gatos. Pode ser que o vosso seja mais... hmmm... flexível! 


Beijos felinos,

Hazel

Gato dos Infernos!


Dom Gato é caprichoso. Muito caprichoso. Pois que não bebia água. E eu tentei tudo. Recipientes de metal. De plástico. Brancos. Transparentes. Altos. Baixos. E nada.

O único sítio onde Sua Alteza se dignava beber água era na banheira (ele sempre teve a mania das grandezas). Sempre que acabo o meu duche, lá vai ele, qual aspirador, lamber as gotas todas das paredes da banheira.

Mas umas gotinhas não eram o suficiente para um leão dos sofás, e isso intrigou-me durante muito tempo, já que ele que nunca bebia do seu bebedouro.
Até um dia eu entrar de repente na cozinha e descobrir o seu segredo...

Sempre que eu não bebia a água toda durante o jantar, deixava o copo na mesa para depois beber o resto antes de deitar. Pois encontrei este Belzebú dos Infernos, todo deitado em cima da mesa, a mergulhar a língua no meu copo num shlép shlép cheio de satisfação.
Durante não-sei-quanto-tempo, o gato tem andado a beber a minha água.
Ou, por outra, eu tenho andado a beber água do gato.

Fica lá com o copo para ti, ó gato com mania que é pessoa!

Beijos de gato,

Hazel

O pombo em apuros

Todos os dias, voo na minha vassoura para ir buscar o L. à escola.

Hoje os meus sentidos mais subtis - deve ter sido o 6º ou 7º sentido - detectaram que um ser alado estava em aflição. E lá estava este pombo (não é tão lindo?) a correr pelo chão do recreio, atravessando os buracos da vedação da escola em direcção à estrada.

Não está ferido e tem as penas todas completas, mas por algum motivo, não consegue voar.
- O que terás tu, pombinho?

Vai ficar comigo até conseguir recuperar-se e depois devolvo-o ao seu habitat.
Já há tanto tempo que eu não recebia um hóspede do reino dos céus.
Dom Gato está algo nervoso, mas já foi avisado para se comportar. Hum!

Desejem-lhe as melhoras!



Uma floresta de feijões mágicos

De pequenino se torce o pepino!

Este projecto, para fazer com as crianças, vai ensinar-lhes:

1. Que os feijões não nascem nas latas.
2. A cuidar, amar e respeitar a Natureza.
3. A serem responsáveis.

Forrar o fundo de um recipiente transparente com algodão, depositar vários feijões e humedecer o algodão com água.
Em poucos dias, estará assim, verdejante.

Fica à responsabilidade da criança cuidar da sua floresta de feijões mágicos e todos os dias verificar se precisa de ser regada, se tem luz suficiente...

Pode acrescentar ao recipiente um pequenino duende, uma casinha, um tesouro...
Não se esqueça de recompensar o seu filho: conte-lhe a história do "João e o Pé de Feijão"!



Tu mereces, gato.

Passa as manhãs na cama e as tardes à janela a fazer charme para as pessoas que passam na rua.







Há mais de 2 anos que...
... peneiro os teus cocós das areias como os garimpeiros a peneirar pepitas de ouro.
... apanho as bolas de pêlo que vomitas sempre em cima dos tapetes.
... tiro os teus pêlos dos meus casacos.

E há mais de 2 anos, também, meu bom gato, que...
... fazes parte da minha vida. Que a embelezas, reconfortas e amacias os altos e baixos.
... tornas-me mais feliz. Muito grata, Aramis.

Agora, traduzido, para que consigas ler:

Miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau
Miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau
Miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau
Miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau
Miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau miau

[O Aramis foi resgatado da rua, onde tinha sido abandonado. Hoje é um gato feliz e é um grande e fiel amigo. A sua história.]

Beijos de gato,
Hazel

Parabéns, meu filho!

Parabéns, meu bebé. Fazes hoje 7 anos!
Era esta música que estava a tocar enquanto eu esperava para te receber.

Que as bênçãos da Terra, Ar, Fogo e Água sempre acompanhem o teu pensamento e o teu caminho. Que Iemanjá me guie enquanto mãe justa, que ensina, protege e dá amor.
Que sejas muito feliz, meu doce Príncipe!

Beijos de mãe

A vida tem destas coisas.

Julgamos que tudo está finalmente arrumado no seu devido lugar, mas um dia olhamos em volta e já nada nos faz sentido. Pior: olhamos para dentro de nós e encontramos o Vazio.
Poderia fingir que não o vejo. Era o mais fácil, o mais conveniente, o mais expectável.
E tentei durante algum tempo. Tentei mesmo.

Entretanto, por duas vezes, atravessei a estrada e ia sendo atropelada.
Em ambas as situações, os pára-choques dos carros ficaram encostados a mim a ponto de sentir o calor do motor. Safei-me sem um arranhão e com a nítida sensação de ter sido salva por intervenção divina. Mas... e se da próxima não me safar?
E se isso tiver sido um aviso para repensar toda a minha vida?
E se a minha existência for abruptamente interrompida um dia, e eu me arrepender da falta de coragem que tive para virar tudo do avesso e fazer o menos fácil, o menos conveniente, o menos expectável, por receio dos julgamentos alheios?

Então, antecipei-me. Decidi saltar directamente para o momento da minha morte.
O exercício mental foi simples: vi-me deitada numa urna, coberta por cravos (sempre foram a minha flor preferida) e a tampa a fechar-se sobre mim para sempre.
Nada mais há a perder a partir deste momento tão definitivo, e as opiniões alheias são, seguramente, o menos importante.
Pois, refiz tudo a partir daí. Virei tudo do avesso, morri e estou a renascer.


E agora, venha quem vier. Pensem o que pensarem. Digam o que disserem.
Viver não é respirar, queridos leitores. É ter a coragem de escolher o nosso próprio caminho, mesmo que isso implique termos de percorrê-lo sozinhos, e vencer todo o tipo de obstáculos.

Foi o que fiz. Há mais de um mês atrás, separei-me da pessoa com quem casei, e actualmente vivo na minha própria casa.
Tentarei voltar aos posts e retomar o Projecto 365 logo que me seja possível.
Os comentários continuam fechados.
A quem me quiser desejar boa-sorte, agradeço do fundo do coração.
Aos que se acharem no direito de julgar ou criticar, sugiro que empreguem o vosso tempo e energia para outros fins mais construtivos e altruístas.

O meu sincero e profundo agradecimento por todos os emails e comentários enviados, pela vossa amizade e apoio. Grata por tudo.