Dentro do meu Candeeiro mora um Fantasma


O candeeiro da minha mesa-de-cabeceira é uma antiguidade e, por isso, faz mau contacto. Todas as noites, quando o desligo, ele volta a acender-se sozinho. Eu volto a desligá-lo, e ele reacende-se. E torno a desligar, até ele acabar por aceitar que é hora de dormir. A maior parte das vezes, ele reacende-se umas sete ou oito vezes seguidas.

É assim todas as noites, nos últimos anos. Mas agora ele ficou caprichoso. Durante a madrugada, várias horas depois de o ter desligado, sou acordada pelo clarão no quarto. Abro os olhos e lá está ele, teimoso, aceso.

Tem sido sempre à mesma hora. Ele é uma antiguidade, e as antiguidades são assim.
Fazem mau contacto e têm as suas vontades e pertinências.

Só hoje reparei que ele nunca se reacende de dia. Nunca aconteceu, mesmo.
Aliás, quando o ligo de dia consigo sempre desligá-lo à primeira. Concluo que o maroto é um noctívago. Prefere brincar comigo à hora em que o Sol dorme e os mistérios e assombros tomam conta do mundo.

Podia trocar-lhe os fios e o interruptor, para que ele funcionasse como os candeeiros modernos, máquinas perfeitas e infalíveis, sem estes humores e contornos excêntricos de personalidade que assustariam muitas pessoas. Mas... eu gosto dele assim.  
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(Mantenho-vos informados, caso ele se lembre de me surpreender com novas habilidades!)

Encantada com antiguidades caprichosas,

Hazel

Manifesto Anti-Galo de Barcelos

A Lenda do Galo de Barcelos
Reza a lenda que tinha havido um crime, e um galego que estava de passagem tornou-se o principal suspeito. Foi condenado à forca. Desesperado, o homem implorou que o levassem ao juiz. Este, encontrava-se a jantar com os amigos. Sobre a mesa, estava uma travessa com um galo assado. O galego, insistindo na sua inocência, disse:

"É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem."

Ainda assim, a condenação foi em frente. No momento do enforcamento, o galo assado levantou-se da travessa e cantou. O juiz, tomando consciência de que tinha cometido um erro, correu para o condenado e retirou-o da forca que, graças a um nó mal feito, não o matara.
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Desde o séc. XVI, o Galo de Barcelos tornou-se um símbolo nacional. De Norte a Sul do país, várias gerações de artesãos portugueses ― quase se diria possuídos pelo espírito do galo cantante ― não têm feito outra coisa ao longo destes últimos cinco séculos, senão galos de Barcelos.

Meus senhores, o bicho está em todo o lado. Em estatuetas de todos os tamanhos e géneros, aventais de cozinha, azulejos, pratos, canecas, copos, travessas, brinquedos, tabuleiros, bordados, caixas, joalharia, almofadas, toalhas, canetas, saca-rolhas, guardanapos, tapetes, cortinas, relógios, porta-chaves, livros para colorir, bijuteria, colchas, talheres, tecidos estampados... ad nauseam!

Nem sei como não está na bandeira nacional, em lugar da esfera armilar.

Esta semana, estava a folhear as promoções dos supermercados e lá estava ele na secção de têxteis: panos da loiça estampados com o Galo de Barcelos, por 1€.

Com tantos padrões que existem, pelo amor da piriquita. Riscas, bolinhas, axadrezado, vichy, cornucópias, losangos, chevron. As modas passam, mas o velhaco do Galo sobrevive a tudo. Pudera, pois se ele cantou depois de ter sido assado, qual zombie de penas estorricadas.

Se houver alguém em Barcelos que esteja a ler isto, peço encontrem outro símbolo. Um pintainho, um perú, um gafanhoto ― o que quiserem. Mas concedam descanso ao galo!

Há cinco séculos ― repito, cin-co-sé-cu-los ― que o vemos em todo o lado. Todos conhecemos o Galo de Barcelos, desde que nascemos; aliás, já o aturamos desde há não sei quantas encarnações antes desta. Por isso, num momento de profundo e galináceo desvario, resolvi escrever este Manifesto Anti-Galo de Barcelos.

O Galo de Barcelos é chato.
O Galo de Barcelos nem sequer sabe cantar, porque é desafinado.
O Galo de Barcelos não passa de um frango que foi mal assado.
O Galo de Barcelos é fatela e piroso.
O Galo de Barcelos é um garganeiro que ocupa o espaço todo e não deixa as outras lendas serem também dignamente representadas em panos-da-loiça-a-1-euro.
O Galo de Barcelos cheira mal das patas! E tem a crista despenteada!
O Galo de Barcelos merece paz e descanso! E nós também! Dele!


Tenho a certeza que vem nas profecias do Nostradamus que os panos da loiça do Galo de Barcelos serão os últimos sobreviventes após o fim do mundo.
Quem viver, verá!

Horrorizada com a descoberta de um pano da loiça do Galo de Barcelos no fundo de uma das gavetas da minha cozinha,

Hazel

Uma noite de loucos no Hospital Júlio de Matos

Neste último Sábado à noite, estive no Hospital Júlio de Matos.
Fui de livre e espontânea vontade, sem vestir um casaco branco, sabem, daqueles em que nos podemos abraçar a nós mesmos, e que são moda nos hospitais psiquiátricos. haha!

E, olhem, deixem que vos diga: foi uma estadia de loucos...

Tudo começou quando enviei uma foto de um antigo guarda-jóias meu que, caso fosse aceite, passaria a fazer parte de um dos cenários vintage da peça de teatro com o nome "E morreram felizes para sempre".

Em troca, se a candidatura fosse aprovada, eu receberia bilhetes VIP para assistir à mesma peça. Eles aceitaram!

Às 22:00, dei por mim, e mais umas vinte pessoas, fechados numa sala pequena, velha, mal iluminada e cheia de tubos de ensaio, no antigo hospital psiquiátrico.

Foram-nos entregues máscaras cirúrgicas e explicadas as regras. É proibido retirar a máscara durante a peça inteira, falar, andar de mãos dadas, tirar fotografias, filmar e mexer nos actores. Casacos e malas devem ficar no bengaleiro. Todos vão de mãos a abanar, retirados da sua zona de conforto.

É permitido circular livremente, mexer nos cenários, abrir gavetas, armários, portas, baús, livros, ler relatórios médicos, e bisbilhotar tudo o que quisermos. Tudo mesmo.

Todos os convencionalismos ficaram lá fora. A maçaneta da porta mexe-se sozinha, causando um silêncio perturbador na sala onde esperamos o início da peça, sem percebermos de imediato que ela já tinha começado, como uma charada perfeita.

A abertura violenta da porta que dá acesso ao interior escuro do hospital, faz-nos ter mais adrenalina do que sangue a percorrer as veias. De máscaras cirúrgicas colocadas, todos perdem as máscaras sociais e observam sem pudores o que se está a passar a um milímetro da própria pele arrepiada de emoção, abrem e remexem em gavetas, ou sentam-se numa poltrona de veludo vermelho-sangue dentro de um quarto impregnado de perfume de lavanda onde um casal se veste para ir a uma festa. Os cenários estão repletos de pistas.

Nesta viagem no tempo, somos transportados para o ano de 1949, em que o Dr. Egas Moniz recebe o Prémio Nobel da Medicina pela sua maquiavélica invenção da lobotomia.

Algumas das pessoas que estavam a assistir foram levadas para salas fechadas com personagens, ou puxadas para o meio da cena, tornando-se parte activa nela (esta vossa escriba, infelizmente, não teve essa sorte!).

A curiosidade é-nos constantemente espicaçada (cheguei a ver um rapaz rastejar por uma passagem secreta dentro de um roupeiro que o levava para outra sala), levando-nos a perseguir as personagens ao longo de cenas recheadas de mistério, loucura, erotismo, pancadaria, dança, sentido de humor e uma dose constante de ironia. Nenhuma palavra é dita pelos actores durante a peça. E, no entanto, conseguimos acompanhar tudo.

Sentimo-nos como fantasmas que descem as escadarias a correr e caminham a passo apressado através dos corredores escuros e cheios de nevoeiro do "hospital dos malucos" - como é vulgarmente conhecido - a meio da noite.

Várias histórias interligadas desenrolam-se em simultâneo nos diferentes cenários, levando-nos a observar diversos pontos de vista para cada situação. Que belíssima metáfora.

Os actores desta peça de teatro imersível tiveram um desempenho irrepreensível.

Os cenários são riquíssimos, mexendo-nos com os sentidos. Diferentes cheiros em cada sala, cortinas de veludo, toucadores, livros velhos, perfumes antigos, um esqueleto, um picador de gelo (para as lobotomias!), chávenas que abanam sozinhas sobre cómodas, candeeiros com abat-jours de franjas...

Regressamos para casa no fim da peça a reviver mentalmente tudo o que se passou, como se o nevoeiro dos corredores do hospital, de alguma forma mágica, nos acompanhasse, e passamos dias a fio a tirar conclusões atrás de conclusões. Talvez tenhamos sido sujeitos a uma lobotomia, mas sem o picador de gelo, e bem-sucedida...

Agradeço à Produção pela oferta dos bilhetes e pela experiência vivida, e regressarei em Setembro, para continuar a charada.

Na plena posse das minhas faculdades,
Hazel

A Lenda e a Simbologia da Dança dos 7 Véus


A origem da enigmática e fascinante "Dança dos Sete Véus" é tão difusa e volúvel quanto o é todo o Mistério Feminino. Ainda que exista uma ideia (errada) de que é uma espécie de striptease, tal não poderia estar mais longe da verdade.

A Dança dos Sete Véus é uma forma de arte riquíssima em simbologia mágica onde se faz uma teatralização do processo iniciático.

A lenda da descida aos Submundos pela Deusa Babilónica Ishtar (Senhora do Amor, da Fertilidade e da Guerra), poderá estar na origem desta dança:


Ishtar viajou através do reino dos mortos para resgatar o seu amado Tammuz. Teve de atravessar 7 portais, cada um guardado por 7 demónios.

Para poder passar cada portal, foi-lhe exigido que deixasse ficar um dos seus pertences que representava um atributo de que ia prescindindo: beleza, fertilidade, amor, saúde, magia, poder e o domínio sobre as estações do ano.

Todas as jóias e véus que levava iam ficando para trás ao longo da descida. Quando passou o último portal, estava completamente nua.

O cair dos véus representa o revelar dos mistérios outrora ocultos, a abertura da visão, o despertar da consciência.

Simboliza também a troca inevitável imposta pelo eterno girar da Roda da Fortuna: é preciso deixar ir, abdicar do que nos é precioso, desapegando-nos da ilusão de posse, para conquistar algo grandioso.

Seja no mundo dos homens, seja no dos Deuses, não existem espaços vazios; há que pagar um preço por cada degrau evolutivo da longa escadaria da ascensão espiritual. Para andar para a frente, tem que se deixar algo para trás.


A ascensão faz-se para baixo e não para cima - é no mergulho nos submundos que nos despimos das máscaras sociais e encaramos o nu visceral da Verdade, regressando, assim, à Essência. Como uma semente que precisa das profundezas da terra para poder germinar, e só assim consegue romper a superfície do solo em direcção ao Sol.

Abreviando a lenda, que é extensa, Ishtar revela a sua verdadeira essência e une-se a Tammuz, tornando-se a guardiã das chaves dos portais, que abrem apenas para os Iniciados.

É-me inevitável olhar para esta representação da Deusa Ishtar sem associá-la à carta de Tarot "O Mundo".

Na carta XXI (21 = 3 ciclos de 7), "O Mundo", vemos uma mulher (os Mistérios e o atravessar dos portais são assuntos eternamente ligados ao sexo feminino; as mulheres são, em si, o portal da vida e da morte), nua (porque está na sua essência e, portanto, dispensa artifícios), e que segura as duas varinhas (detém as chaves do Conhecimento).

O véu que serpenteia o corpo nu, uma alusão ao Conhecimento desvendado. Tal como Ishtar, acompanhada pelos 4 guardiões. A derradeira representação da Iniciação.

Diz-se que os sete véus correspondem às sete cores do arco-íris, as sete notas musicais, as sete virtudes os sete vícios, os sete planetas, os sete chakras: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-claro, violeta (ou azul-índigo) e branco.

O número 7 é considerado o número da perfeição, por ser a soma do 3 (Céu/Espírito) com o 4 (Terra/Matéria); ou seja, a fusão dos mundos. A Totalidade.

Idealmente, as cores dos véus são as dos sete chakras principais, e a retirada de cada véu é acompanhada de movimentos corporais com ondulações e/ou marcações na zona do corpo que é revelada e que corresponde ao chackra que é "descoberto".

Respondendo à pergunta que paira na mente dos mais púdicos, a verdadeira nudez é um conceito mais profundo que um corpo sem roupa. Não existe nudez física na Dança dos Sete Véus. Os véus vão caindo, mas a roupa permanece vestida. Porque é a alma que se desnuda, e não o corpo.

 

No limiar dos portais,

Hazel

O sábio do lago dos lótus





- Mamã, quero fazer alguma coisa contigo, diz o L., cheio de enfado porque os brinquedos já não brincam como antigamente quando era pequenino.

A paciente mamã levou a cangalhada toda dos trabalhos manuais para a mesa da cozinha e sentou-se a desenhar um velho chinês a andar de barco num lago de flores de lótus.

Com lápis-de-cor, pétalas de flores secas (os lótus), folhas secas (o chapéu e as folhinhas nas montanhas), cartão (o barco), um pau de fósforo dos compridos (o remo), pedaços de penas (a gaivota), lãs (cabelo e barba) e outras minhoquices que fui acrescentando, o quadro foi aparecendo aos poucos.

Sua Alteza não estava a colaborar. A resignada mamã foi pintando e colando.
Sua Alteza levantou-se da mesa rabugento e chato, e eu julguei que tivesse ido buscar mais algum ingrediente para colar ao desenho. E nunca mais voltava...

Deve ter ficado com sono pelo movimento suave do barco no lago dos lótus; a surpreendida mamã foi encontrá-lo a dormir profundamente.

Afinal, o que Sua Alteza queria fazer comigo era dormir uma boa sesta!

Com os dedos cheios de cola,
Hazel