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Manifesto Anti-Galo de Barcelos

REZA A LENDA que tinha havido um crime. Um galego que estava de passagem, principal suspeito, foi condenado à forca. Desesperado, o homem implorou que o levassem ao juiz, que se encontrava a jantar com os amigos. Sobre a mesa havia uma travessa com um galo assado. O galego, insistindo na sua inocência, profetizou:

«É tão certo eu estar inocente, 
como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.»

A condenação foi em frente. No momento do enforcamento, o galo assado pôs-se de pé sobre a travessa e cantou. O juiz, consciente do erro, correu para o condenado e retirou-o da forca que, graças a um nó mal feito, não o matara.

O Galo tornou-se símbolo nacional em Portugal, desde o séc. XVI. De Norte a Sul do país, várias gerações de artesãos portugueses – dir-se-ia possuídos pelo espírito do bicho – não têm feito outra coisa ao longo destes cinco séculos, senão galos de Barcelos.

MEUS SENHORES, ELE ESTÁ POR TODO O LADO. Em estatuetas de todos os tamanhos e géneros, aventais de cozinha, azulejos, pratos, canecas, copos, travessas, brinquedos, tabuleiros, bordados, caixas, joalharia, almofadas, toalhas, canetas, saca-rolhas, guardanapos, tapetes, cortinas, relógios, porta-chaves, livros para colorir, colchas, tecidos estampados... ad nauseam!

Nem sei como não está na bandeira nacional, em lugar da esfera armilar. Ontem estava a folhear as promoções dos supermercados e lá estava, na secção de têxteis:

«Panos da loiça estampados com o Galo de Barcelos, por 1€.»

Com tantos padrões que existem, pelas barbaças de Zeus. Riscas, bolinhas, axadrezado, vichy, cornucópias, losangos, chevron. As modas passam, mas o velhaco do franganete sobrevive a tudo. Pudera, pois se ele cantou depois de ter sido assado, qual zombie de penas estorricadas.

Se houver alguém em Barcelos que esteja a ler isto, peço que encontrem outro símbolo. Um louva-a-Deus, um perú, um gafanhoto – o que quiserem. Mas deixem o galo descansar.

Há cinco séculos, repito, cin-co-sé-cu-los que estamos nisto. Quinhentos anos.

Todos conhecemos o Galo de Barcelos, desde que nascemos. Aliás, já o aturamos desde há não sei quantas encarnações antes desta. Por isso, venho aliviar o nosso país com este Manifesto (alguém tinha que fazer isto).

Manifesto Anti-Galo de Barcelos

O Galo de Barcelos é chato.
O Galo de Barcelos nem sequer sabe cantar, porque é desafinado.
Có-có-ró-có-quiii! Desafinado!

O Galo de Barcelos não passa de um frango mal assado.
O Galo de Barcelos é fatela e piroso.

O Galo de Barcelos é um garganeiro que ocupa o espaço todo e não deixa as outras lendas serem também dignamente representadas em panos-da-loiça-a-um-euro.

O Galo de Barcelos tem as penas gordurosas!
O Galo de Barcelos cheira mal das patas! 
E tem a crista despenteada!

O Galo de Barcelos merece paz e descanso! 
E nós também! Dele!


Por certo vem nas profecias de Nostradamus que os panos da loiça do Galo de Barcelos serão os últimos sobreviventes após o fim do mundo.
Quem viver, verá!

Horrorizada com a descoberta de um pano da loiça com o Galo de Barcelos no fundo de uma gaveta,

Hazel
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Cronista, Viajante no Tempo, Terapeuta, Taróloga, Tradutora, Professora.