Numa casa portuguesa fica bem...


Ser português é sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário (que apenas é usado quando vêm visitas) e outro, já velho-gasto-e-possivelmente-lascado, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos, toalhas de mesa ou as almofadas do sofá, que se viram ao contrário para “o lado das visitas” escondendo as nódoas na parte de baixo. Porque se os outros não virem as nossas mazelas, elas “não existem”. Não digam que não.

Temos aversão (para não dizer pavor) a parecer mal aos olhos dos outros e poupamos a-mais-fina-loiça para que as visitas, recebidas com uma cerimónia nunca assumida, vejam apenas o melhor — e não o real. Para “os de casa” usamos os pratos velhos, como se não merecêssemos o melhor que há no nosso próprio armário de cozinha. Homessa. Porque seremos nós assim?

Após profunda introspecção, a vossa velha escriba concluiu que a casa onde vivemos é um ser vivo e comunica como se fosse uma contraparte dos seus habitantes. Por exemplo, o conteúdo do armário onde guardamos os pratos pode ser, em muitos aspectos, semelhante ao interior do nosso coração:

1. Se existir uma infinidade de loiças, novas e antigas, demasiadas para o espaço existente, pode revelar um coração cheio de apegos, preso ao passado;

2. Ter um conjunto de pratos para o dia-a-dia e outro para as visitas, dir-se-ia que sugere incapacidade ou dificuldade em entregar-se de corpo e alma, sem reservas, na amizade, mantendo sempre um pé atrás;

3. Um conjunto de loiça para as visitas, outro para o dia-a-dia e ainda outro terceiro que ocupa um lugar "intermédio", falta de amor por si mesmo, crença de que não é digno do melhor.

Ai, Senhores. Pára tudo. Vou ali à cozinha ver o meu armário.

(Voltei!)

Esta é a história dos meus pratos: já tive dois conjuntos, um do dia-a-dia e outro das visitas (admito com algum embaraço). Entretanto, as transformações que a vida me trouxe levaram a que acabasse por ter no meu armário apenas alguns pratos soltos, restos de outros conjuntos, com um ou outro lascado. Destroços do passado e um coração partido.

Quando tomei consciência desta correlação, um dia desfiz-me dos pratos soltos e lascados e comprei um conjunto de pratos brancos. Simples, humilde e novinho em folha. Era tempo de deixar para trás o que estava atrás e de abraçar o presente.

Porém, o coração continuou partido. Na verdade, ainda está. Mesmo com pratos novos. Mesmo com refeições felizes. Creio que, como um prato fica lascado para sempre, um coração partido nunca mais volta a ficar inteiro. E ninguém garante que não se volte a quebrar ainda mais, em pedaços menores.

Contudo, não foi debalde a libertação dos pratos soltos e maltratados, pois representou o desejo e a possibilidade de recomeçar. E o facto de não ter comprado um conjunto extra de pratos, significa que não tenho um plano B. O que está à vista é o que há.

O arcano A Lua inspira-nos a adaptar-nos às diferentes fases que a vida traz, sem cair na armadilha de alimentar ilusões. Tudo é mutável, sensível, inconstante e tão frágil como um prato de loiça que cai no chão.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online
Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1684

O vazio


A campainha está a tocar, vou ali abrir a porta: são os senhores que vêm instalar um contador bi-horário. Façam favor de entrar, é por aqui. Diz que é raro terem pedidos destes, que os últimos contadores do género foram instalados há muitos anos num mosteiro perdido no nevoeiro lá para as bandas do Nepal.

Hoje em dia toda a gente anda sempre ocupada com alguma coisa e as horas de vazio não despertam o interesse de ninguém, esclarece o sujeito mais alto enquanto ajuda o colega a tirar o contador bi-horário da caixa.

Isso não é de hoje, afianço-lhes. Senão, vejamos: antigamente, quando as pessoas iam à casa-de-banho, liam de-fio-a-pavio os rótulos dos frascos de shampô, do gel de banho, do ambientador; havia os que se entretinham com livros de banda-desenhada, com a literatura médica de alguma caixa de comprimidos que se encontrasse por perto — no fundo, tudo o que estivesse no perímetro de um braço estendido em torno do trono.

Hoje levam o telemóvel, a partir de onde enviam emails, sms, partilham fotografias, não perdem pitada das polémicas do dia nas redes sociais —, como quem depende de um fio invisível que o agarre ao mundo cá fora.

Sempre houve a necessidade de ter alguma âncora onde se possa prender a atenção — e que salve a Humanidade, apavorada com a perspectiva do vazio, de se deparar com ele. Assim, olhamos para fora — e nunca para dentro.

Ora bem, já está instalado o contador bi-horário. Só uma assinatura aqui em baixo, menina Hazel, se faz favor. Obrigado e um bom dia.

Fecho a porta satisfeita com o contador bi-horário novinho em folha instalado mesmo em cima da minha cabeça. Tudo para poupar, que o valor da energia anda pela hora da morte.

Planeio usufruir de uma hora de tarifa de vazio uma vez por semana. Sessenta minutos de telemóvel e computador desligados (não referi televisão porque não tenho) e, sem gente a atazanar-me o juízo, pretendo sentar-me e ficar dignamente a olhar no vazio.

Uma hora que, conto, será muito produtiva, pois, em vez de despender energia em tudo e todos, estarei a recarregá-la (sem perigo de electrocussão caso me distraia e entre em sobredosagem se deixar passar mais um quarto-de-hora ou pedaço de tempo que me valha).

Perscrutar o vazio em absoluta ausência de emoções pode parecer o equivalente a contemplar o abismo vertiginoso ou um poço sem fundo, mas há pouco espreitei para lá e pareceu-me seguro e arejado.

Confrontá-lo não me fez sentir vazia, mas preenchida, centrada. Capaz de reclamar todos os pedaços de mim que perdi por aí em angústias e preocupações, em mágoas e excessos de paixão, em dar mais do que recebi, em esperar e desesperar, em imaginar e desimaginar.

Reclamo-os e reintegro-os no meu vazio, no silêncio e na solidão, na paz absoluta.
Só então voltarei à tarifa de fora de vazio.

O arcano O Eremita envia notícias para o mundo através de um pombo-correio que pousou na minha janela. Trazia na pata uma mensagem que desenrolei com cuidado. Estava vazia.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online
Email: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1683

Sabes que estás a ficar velho quando


Esta dor que hoje me tem apoquentado a zona fronteiriça entre o fundo das costas e o começo das nádegas concebe previsões meteorológicas com maior exactidão que o ido Anthímio de Azevedo (amanhã vai estar fresco, algumas nuvens e o Sol vai andar acabrunhado, diz-me).

Tenho conversado com ela; todas as dores vêm para ensinar e quanto mais depressa aprender a lição, mais asinha a mestra parte em busca de novo pupilo. É uma dor velha, muito idosa, que veio visitar-me por um dia — amanhã diz que já se vai embora.

Ofereceu-se para me ensinar a fazer crochet, renda-de-bilros e bordado em ponto-cruz. Declinei cordialmente o obséquio, não fosse ela tornar-se hóspede permanente.

Vencida e de malas aviadas para partir pela calada da noite, enquanto durmo o sono dos justos de pijama-às-riscas e cabelo entrançado, a velha dor deixou-me de presente a sabedoria dos ditados populares, essas verdades-indiscutíveis-e-cientificamente-provadas que tenho dado por mim a dizer aos mais novos.

Foi neste momento que me descobri velha como uma relíquia empoeirada de museu, uma hortaliça murcha, um par de botas fedorentas que já palmilharam meio mundo e sabem todos os atalhos, caminhos e azinhagas.

Como sou uma boa velhaca, descobri que este mal é contagioso: começa-se a memorizar provérbios e depois passamo-los aos outros sem apelo nem agravo. Como a maleita proverbial tem andado em recessão (quem é que os cita hoje em dia?), resolvi disseminá-la em grande escala. Ora tomem disto:

- Depois do Natal, dá o dia um saltinho de pardal.

- Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.

- No mês de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.

- Janeiro fora, cresce o dia uma hora.

- Fevereiro engana a velha ao soalheiro.

- Em Fevereiro, salto de carneiro.

- Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

- Março, marçagão, de manhã é Inverno e à tarde Verão.

- Em Março sobe ao outeiro, se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires nevar, põe-te a cantar.

- Páscoa em Março, ou fome ou mortaço.

- Março, marçagão, de manhã cara de gato, à tarde cara de cão.

- Abril, águas mil, coadas por um mandil.

- Em Março tanto durmo como faço.

- Abril frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.

- Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

- Em Maio, cereja ao borralho.

- Água de Maio, pão para todo o ano.

- Em Maio, canta o gaio.

- Maio claro e ventoso, faz o ano rendoso.

- O que Janeiro deixa nado, Maio deixa espigado.

- Agosto, mês de desgosto.

- Não há Sábado sem sol, Domingo sem missa nem Segunda sem preguiça.

- A velha que bem governou, o melhor tição para Maio o deixou.

- Em Agosto todo o fruto tem o seu gosto.

- Uma andorinha não faz o Verão.

- Em Agosto frio no rosto.

- Em Dezembro descansar para em Janeiro trabalhar.

O arcano A Sacerdotisa inspira-nos a virar as páginas do tempo, a fazer uso da sabedoria que adquirimos e a nutri-la discreta e incessantemente, numa gestação silenciosa. Sabemos sempre a resposta que precisamos, mesmo quando achamos que não. Basta escutar o que as nossas dores têm para ensinar.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1682
Foto: geralt, licença CC0

A Origem do Dia dos Namorados


O dia 14 de Fevereiro, conhecido actualmente como "Dia dos Namorados", é uma celebração pagã associada ao início da época de acasalamento na Natureza. Na Roma antiga, dava pelo nome de Lupercalia, a festa em honra de Lupercus, o Fauno (Pã, na Grécia), divindade regente das florestas e de todos os seus habitantes.

Esta vossa escriba não esteve lá para ver, mas dizem que era assim que se passava:

Os sacerdotes escolhidos sacrificavam ritualisticamente dois bodes e um cão. O sangue que escorria da adaga sacrifical era embebido em lã, que tinha sido previamente molhada em leite e, com a mesma, ungiam a testa, o que induzia a estados de euforia.

Vestiam o couro dos animais, ou usavam-no em torno da cintura para tapar os órgãos genitais, encarnando, assim, o espírito do senhor das florestas. Cortavam longas tiras de pele aos animais sacrificados, a que davam o nome “februa” (e que está na origem etimológica da palavra Fevereiro, o mês correspondente à época desta celebração), e usavam a februa para chicotear o povo.

Corriam para açoitar os jovens na flor da idade, sedentos de sexo (que não deviam oferecer muita resistência, os doidivanas); as mulheres inférteis, para estimular a fertilidade; as grávidas, para aliviar as dores de parto; as púdicas e as frígidas, para despertar a libido; e todos os que apanhassem pelo caminho. Era a loucura.

Espantavam-se os maus espíritos, purificavam-se as pessoas, as casas e as ruas, e estimulava-se a saúde, a sexualidade e a fertilidade.

Vá-se lá saber como, as vergastadas acabaram por dar lugar, séculos mais tarde, à oferta de ursinhos de peluche fofinhos, postais com frases pirosas, caixinhas de bombons de chocolate em formato de coração e lingerie comestível.

Agora, meus passarinhos, toda a gente odeia o Dia dos Namorados, dizem que é comercial, que a data irrita, que os casais apaixonados são entediantes, que isto, que aquilo.

O arcano A Força ruge com a ferocidade de um animal que nos toma de assalto, atiçando-nos os instintos, pondo-nos à prova — açoitando-nos a paciência com a februa.

Ainda ontem, quando pedi ao senhor do talho que cortasse a carne em tiras para o strogonoff, pareceu-me ter visto sair — com estes olhos qu’a terra não há-de comer — um mancebo que levava, engalanada com um laçarote, uma caixa cheia de tiras de carne, em honra dos bons e velhos tempos em que se corria desnudo e bramava de prazer e de dor ao mesmo tempo. Não havia caras de enjoadinhos. Ai não gostas de ursinhos de peluche?, Toma lá!

Ponham-se a pau.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online
Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1668

Diário de Bordo do Navegante Solitário


Pede-se à loucura que, se um dia chegar, não se faça anunciar. Que tome conta de mim sem que eu o saiba, para que, ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados (para além de descompassados — e destrambelhados), e a mim sã. Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciência da inconsciência, a lucidez das trevas.

Assim, se se der o advento do desnorte, escusam de me avisar, pois vos tomarei como loucos por apontardes a fuga à norma onde a norma foge à fuga de si mesma.

Quem sabe não terei perdido já o tino e ainda ninguém tenha reunido a coragem de mo comunicar. Suspeito-o por encontrar-me tantas vezes a remar contra a maré com remos feitos de penas de gaivota.

E ainda assim, remo sem parar. Pouco importa se existe algum destino porventura escondido entre as brumas salgadas que repousam sobre a linha do horizonte; para que me serviria uma ilha com palmeiras e araras no meio do oceano, senão para me deixar consumir pela insularidade, entontecida com o movimento das águas em redor dos meus pés estacados, mergulhados na areia fina?

À minha volta voam tubarões obesos e esfaimados, de bocarra escancarada e dentes afiados, devorando peixes inocentes, matrículas de carros acidentados, garrafas de rum contrabandeado e almas desalmadas, sem sequer mastigar. Bom proveito lhes faça. Flutuam frascos de vidro com mensagens enroladas em papel ensopado, alforrecas gelatinosas e ouve-se ao longe o eco do canto das sereias. Nada disso me distrai.

O barquinho prossegue sem mapa nem bússola, em direcções improváveis, vivas e inquietantes, descobrindo novas pétalas à rosa-dos-ventos. Eles na deles, eu na minha. Desalinhada, inconsciente da minha inconsciência, flor branca à proa. Para eles, a terra é plana e termina no precipício da miopia; para mim, é redonda mal julgarem que caí do precipício, estarei a dar a volta por baixo e a aparecer por trás a morder-lhes o rabo! Bons ventos me levem.

O arcano O Louco inspira-nos a nunca deixarmos de ocupar o nosso próprio lugar no mundo e de acreditar em nós, mesmo que sejamos tomados por insensatos. Que importa isso. Nada importa. Nada.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1667
Foto: Comfreak, licença CC0

Mortinho por viver


Ai. Pois não é que esta vossa escriba encontrou um defunto a viver no seu roupeiro? Tinha-o guardado há tanto tempo que me esqueci dele. Lá estava, bem direitinho como compete aos defuntos, com o típico e expectável saco de plástico preto a envolvê-lo. Tal não poderia continuar, não senhor. Urgia ressuscitá-lo e, com efeito, assim aconteceu.

Fiz deslizar com delicadeza e solenidade o fecho do esquife, perdão, do saco preto, e encontrei o já referido defunto em perfeito estado de conservação. Nem um odor sinistro que acusasse o seu estado de abandono prolongado. Garanto-vos.

O falecido era um escorreito casaco preto-corvo que comprei há não-sei-quanto-tempo e custou três quartos da falange do dedo mindinho, para usar em dias de festa. Sóbrio, impecável e medonho, com uma espessa aplicação de pêlo sintético na gola, que se assemelha a um gato preto morto a aconchegar o pescoço nas noites frias.

Homessa, que me teria passado pela ideia. Para "dias de festa", se isso lá é coisa que se pense. Então não é verdade que todos os dias são dias de festa?, e que todos os dias celebramos mais um dia de vida? Que a grande festa está em ter dias para contar — em vivê-los, assim, viver, mesmo?

Por que esperamos, valha-nos Zeus, enquanto as traças dançam o pasodoble nos buracos dos nossos mais adorados e preciosos (ou abomináveis) atavios. Não há mais roupas de festa aqui em casa. É tudo para usar, mesmo que se gaste, ainda que se estrague, e até que eu própria me torne um defunto, não me permitirei guardar mais defuntos.

O arcano A Morte confronta-nos implacavelmente com tudo aquilo que morreu dentro de nós e à nossa volta. Até quando iremos esperar, aguardar, respirando o mesmo ar velho e pesado? Apalpai-vos (não uns aos outros, seus marotos, mas a vós mesmos)!, só para ter a certeza que estais vivos, palpitantes, pulsantes, febris de vida.

No fim de tudo, o que realmente importa é quão bem soubemos viver; quão bem nos permitimos amar; quão bem conseguimos ir embora, deixar tudo para trás, sacudir a poeira e começar de novo. Quão bem soubemos apreciar, saborear. Quão bem soubemos dar, a nós mesmos e aos outros.

Não há tempo a perder com o certo tornado incerto. Pensem o que quiserem. Façam o que quiserem. Mas façam o que vos fizer felizes.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1664
foto: licença CC0

Borboletário


As curvas do meu corpo macio insinuam-se numa dança ondulante e silenciosa à medida que me movo com languidez, inconspícua por entre a folhagem que emoldura a paisagem límpida e orvalhada da manhã. Ocasionalmente, uma folha ou outra roçam-me a pele nua.

Alimento incessantemente o apetite voraz, erótico e insaciável que me consome. Os pedaços de folha tenros desfazem-se aos poucos na minha boca pequenina e húmida que não pára de sugar e de procurar por mais e mais e mais, até finalmente atingir — a saciedade.

Esgotada e preenchida, arrasto-me com lentidão; procuro uma folha onde possa abandonar-me ao repouso digestivo. Rastejo com esforço, o corpo dilatado, exausto, num êxtase guloso que gradualmente se agudiza em dor. Os meus fluidos jorram lentamente como um rio doce sobre os nervos da folha verde, onde me suspendo em crisálida para enfim encontrar o silêncio secreto; e nele, o caos, a desordem imóvel, a dor que me dilacera, que me liquefaz, que me destrói. Ninguém consegue ouvir os meus gritos mudos. Nem eu. Mas grito.

Os sucos circulam lentamente, latejam na escuridão, cada vez mais devagar até se tornarem espessos, coalhados. Ninguém me pode ajudar; rendo-me à morte. Morro. Eu não sou eu. Não sei o que sou. Não sou, sequer. Morro. Morri. Sinto alívio. Já não dói mais. Não tenho dor, nem medo, nem fome. Nem sede.

Silêncio.

Um ponto fino de luz pulsa no escuro, e cresce aos poucos. A dormência desvanece; chegam até mim sons difusos de não muito longe. Sinto-me apertada, falta-me o ar. Preciso de espaço, de me movimentar. Tenho sede, tenho fome, tenho ânsias de sair, senão morro. Preciso de sair da morte para não morrer de vez, mesmo que morra a fazê-lo; preciso de viver, para não morrer.

O arcano A Temperança indica-nos o caminho: sempre em diante, em direcção à luz. Atrás está a morte, à frente a sabedoria. Que as experiências vividas no passado nos sejam mestras e não nos amargurem —, e delas sairemos ilesos, capazes de voar, cumprindo assim a nossa natureza.

Rasgo o tecido que me asfixia com delicada violência e espreguiço-me, alongando o meu corpo, que descubro novo e diferente. Tenho asas revestidas de poeira fina e pele fofa e sedosa. Oh sim, tenho asas. Não mais rastejo por entre as folhas. Preciso de néctar, de ar, de luz. Consigo voar! As asas nas minhas costas estendem-se coloridas e reflectem a luz do Sol. Ouço o riso de uma criança que corre atrás de mim e rio-me também, enquanto subo em espiral por entre as árvores.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1663
Foto: Marco Santos

Tão pequena e tão ladina


Os carros colam-se uns aos outros numa longa e fumegante serpente de chapa e vidros eléctricos ali mesmo à saída do bairro. Saem pela direita os que apanham a auto-estrada, fazem pisca para a esquerda os que seguem pela Marginal.

Estão todos parados agora; vejo alguns a enfiar o dedo no nariz, outros a tirar as remelas dos olhos, lacrimosos com a luz dura e cortante da manhã; outros ainda, a perscrutar o nada, suspensos no vazio existencial para onde nos atiram as filas de trânsito.

Estendem-se alguns olhares conformado-entediados no passeio de calçada onde caminha em passo ligeiro, como se estivesse prestes a fazer uma travessura, a vizinha do prédio ao lado do meu. Velhinha, franzina e de cabelo ralo e escuro, sempre de sorriso doce e olhos ladinos. Mora sozinha, nunca aceita boleias.

O ronronar do ralenti dos motores é interrompido pelo inusitado chiado de metal das rodas do seu carro-saco de ir ao supermercado. Não sei se é ela que leva o carro, se o carro que a leva a ela.

— Olá, menina.
— Boa tarde, menina.
— Bom dia, menina.
— Adeus, menina.
A voz assenta-lhe como uma luva: baixa e matreira, mas cheia de genica.

Não se passa nada. É apenas a velhinha fura-vidas a passar em compasso certo à hora que os pássaros alisam as penas e se ouvem os passos das primeiras crianças a caminho da escola. Os ocupantes da gigante serpente de chapa poluente carregam na buzinha como quem estala um chicote para atiçar os da frente a andar.

Ficamos a vê-la ir embora pela rua fora, sem nunca parar, sem jamais abrandar. Talvez seja mesmo o carro-saco de tecido axadrezado que a leva, movido por uma força desconhecida, como um cão fiel que fez o mesmo percurso mais vezes do que se consegue lembrar.

Descobri-lhe o segredo no outro dia, quando a vi passar com o carro-saco mal fechado. Olhei de soslaio e deliciei-me ao descobrir que não são compras que ela transporta lá dentro. O carro-saco vai cheio de vida. Por isso, sei que a velhinha ladina vai viver para sempre — ou até arrumar o carro-saco e se esquecer de onde o deixou.

Esta semana, o arcano O Carro inspira-nos a não ficar parados atrás dos outros como um autómato que é conduzido por alguém. É tempo de encher o nosso carro-saco de vida e seguir-lhe o encalço. Mais do que seguir, perseguir. Com ardor e determinação. Quatro-piscas ligados!, este veículo vai sair do tracejado da estrada para fazer uma manobra inesperada.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1651
Foto: violetta, licença CC0

«Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar»


Ainda parece que a oiço, cítrica e com um travo amargo de laranja seca; profética, com uma intuição que roçava o sobrenatural. Uma autêntica bruxa que, no entanto, desprezava bruxas e as desacreditava. Mas que as havia, havia — sempre haverá.

Continuo sem compor pela manhã o delicioso leito onde Morfeu todas as noites me engole inteirinha com languidez, gula e oblívio, sem conseguir já deslindar se será por indolência ou insolência tardia; se por inofensivo e inconsequente exercício da liberdade de escolha; se por consideração ao bem-estar dos ácaros que se comprazem em deitar-se na minha almofada a ler o jornal de patinhas traçadas com os cobertores meio caídos; ou se pelo hábito de quatro décadas a defender que é bem mais prazeroso desfazer uma cama do que fazê-la — interpretem como quiserem, seus malandrões, bem vos conheço.

O infame provérbio sempre me apoquentou, dada a fatalidade que lhe é inerente, aprisionando-nos para sempre às nossas escolhas, negando-nos o direito de mudar de ideias, num castigo inevitável e eterno digno de Némesis grega.

Ovelha ronhosa (e ranhosa também, mas só mais lá para meados da Primavera, quando começam as alergias) que sou, continuo a desafiar a norma instituída. Longe vão os tempos em que se acreditava que as coisas eram como eram e nada se podia fazer senão carregar-uma-cruz-às-costas sem hipótese de redenção ou salvação, em resultado de um provérbio cruel e ditatorial.

Porque quem boa cama fizer, nela se há-de deitar — OU NÃO.
A qualquer momento, podemos sempre trocar os lençóis frios de algodão por outros aconchegantes de flanela, até mesmo a meio da noite. Ou ir buscar mais um cobertor.

Ou tirar tudo, atirar pela janela soltando um grito de Tarzan (não o Taborda, mas o outro) e dormir em cima do colchão. Ou virar os pés da cama para a cabeça e dormir de pernas para o ar. Ou, em vez de deitar, ficar sentado, de cócoras, de pé ou com um pé na cama e outro no chão. Podemos reformular tudo a qualquer momento, apesar de termos sido programados para acreditar que estamos condicionados.

Esta semana, o arcano O Imperador confronta-nos com a autoridade cega a que fomos (e somos) tantas vezes sujeitos, as verdades ‘inquestionáveis’, as normas, o dever de encaixar e obedecer sem questionar regras que não sabemos já quem criou e porque o fez, mas que vão sendo papagueadas de geração em geração perpetuando uma herança de medo da mudança e de submissão.

Mudam-se os tempos, actualizem-se os provérbios.
Não façam a cama: reinventem-na.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1648
foto: Pexels, licença CC0

Fátima, Futebol, Fado e Fogo


A morte ergueu-se da terra escura e caminhou implacável por entre a rectidão austera das árvores que aguardaram o fim com dignidade e sacrifício, fornecendo oxigénio até ao derradeiro segundo. Levou tudo à frente como uma besta cega, surda e muda. Famílias, floresta, animais, casas, carros. Sem fazer distinções entre bons e maus, ateus e religiosos, crianças e adultos; como as epidemias medievais que varriam localidades inteiras, deixando para trás a sombra do desamparo, do vazio e da revolta.

Após a breve euforia nacional com o trio divino: a visita do Papa (Fátima); a vitória da Selecção Nacional (Futebol); não é bem Fado, mas o primeiro lugar na Eurovisão (Fado), enfrentamos uma inesperada e catastrófica quadratura com o Fogo que nos derrubou o ânimo e lançou no cadafalso da melancolia tipicamente portuguesa.

Apontam-se responsáveis, especula-se e acusa-se como no tempo da caça-às-bruxas, onde a falta de verdade, a manipulação da informação e a indignação nos intoxicam o discernimento. Os doutores da peste envergam actualmente, em lugar das lúgubres máscaras com o bico longo, máscaras anti-fumos e fardas de Bombeiro, do INEM, da Protecção Civil, fazendo o que podem até à exaustão, perdendo tantos deles também as suas vidas.

Se outrora a causa das epidemias era a falta de higiene e de redes de esgotos, hoje a diferença não é tanta assim, se avaliarmos bem. É notório que os hábitos de asseio melhoraram consideravelmente, contudo a higiene dos valores humanos encontra-se pela hora da morte, começando na putrefacção dos interesses económicos associados aos incêndios e na corrupção associada à plantação de eucaliptos, e terminando nas fétidas reportagens sensacionalistas onde se explora gratuita e escandalosamente a desgraça alheia para fazer disparar os gráficos de audiências.

O esgoto encontra-se a céu aberto, senhoras e senhores, é vê-lo e cheirá-lo. Todos os anos o enfrentamos sem solução à vista. Andamos sempre às voltas com os mesmos assuntos, com as mesmas reacções, como uma criança num carrocel comandado por alguém que não vemos, permanentemente surpreendida apesar de estar num círculo que se repete ad nauseam.

Esta semana, o arcano A Morte leva-nos numa viagem rocambolesca e reveladora às agruras da existência, em busca do silêncio e de um caminho que se não vê — mas que tem que aparecer algures no meio das cinzas.

Nada faz sentido. Não há justiça. Invente-se um país novo. Se faz favor, alguém que desligue a ficha deste carrossel para que possamos sair dele.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1637
foto: Pexels, licença CC0

Ou fumam todos, ou não fuma nenhum


Portugal está dividido em dois. De um lado, espetam-se dedos indicadores manchados de amarelo-nicotina, ferozmente indignados com a possibilidade da proibição de fumar nas praias. Reclamam, entre baforadas desesperadas de fumo cinzento, que é uma forma de ditadura, um ridículo atentado à sua liberdade, que não tem jeito nenhum, que não cabe na cabeça de ninguém.

Do outro lado, encontram-se, em estado zen, os saudáveizinhos para quem o cinzeiro do carro serve só para pôr as moedas. Satisfeitos e aliviados por finalmente poderem inspirar o perfume da maresia na época balnear, sem o indesejável fumo egoicamente exalado — pelos outros —, desejam que a abençoada lei seja aprovada o mais depressa possível.

Ora, depois da proibição de fumar em espaços fechados, voltamos a aborrecer-nos uns com os outros por causa dos espaços abertos; quando ainda mal tivemos tempo de superar o choque da prepotência de Miguel Sousa Tavares: quando questionado, na época, sobre a questão das crianças respirarem o fumo do tabaco nos restaurantes, sugeriu que os pais se abstivessem de as levar a lugares públicos, até porque o barulho delas era mais incomodativo que o fumo. Por aqui se vê os malefícios do excesso do tabaco. Ainda assim, teve que se submeter à nova lei, tal como os demais indivíduos-inaladores-e-exaladores de fumo.

Concordo que não se deve condicionar a liberdade dos outros. É um direito absolutamente inquestionável. Querem fumar, fumem. Que inalem todo o fumo que lhes aprouver (como dizia o outro, quando morrerem, vão de costas). O que não podem é exalá-lo junto de quem não partilha o seu vício. Explicando o óbvio: é tão inaceitável como qualquer outro toxicodependente andar a injectar as drogas que toma no corpo dos outros. Só não parece tão mau. Mas é.

Inalem isto de uma vez por todas: a questão que se trata aqui não é a de privar alguém da liberdade de fumar. Trata-se, sim, do exercício da liberdade de escolha para os outros, os que não querem ser fumadores passivos.

Esta semana, o arcano Roda da Fortuna recorda-nos que nada pode ser tomado por garantido e permanente. Nem as leis, nem os costumes, nem a vida. Vêm aí novos tempos, de ar limpo e oxigenado. Talvez doa um bocadinho ajustarem-se, especialmente no ego. Mas, se isto vos serve de consolo, leitores fumadores-furibundos: em Nova Iorque, onde desde 2011 foi aprovada a proibição de fumar em parques e praias, os resultados foram de uma melhoria na saúde geral da população, com menos registos de enfartes do miocárdio e idas às urgências. E esta, hein?

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1625
foto: Hans, licença CC0

De raízes bem assentes no chão


Não me atrevo a reproduzir nestas respeitáveis páginas o palavrão que me invadiu os pensamentos quando li a notícia sobre a oliveira milenar de Mouriscas - mas afianço-vos que era um exemplar vernacular escandaloso e com pêlos púbicos. Tão depressa li a notícia publicada n’O Ribatejo, logo a partilhei na minha página pessoal de facebook - deixando de fora o genital vocábulo -, sem conter toda a indignação que me assolou. Como um rastilho aceso, a revolta propagou-se imediatamente por centenas de pessoas de Norte a Sul de Portugal, Reino Unido e até mesmo no Brasil.

Guilherme Falcão Rosa, vereador de Lambeth, Londres, pretendia arrancar uma oliveira da freguesia de Mouriscas, Ribatejo, para replantá-la numa praça londrina, em comemoração da aliança luso-britânica. Esclareceu o equívoco de se tratar da oliveira mais antiga de Portugal, com 3350 anos, convicto que já seria ‘aceitável’ transplantar um outro exemplar, que fosse, no mínimo, mais antigo que o tratado de Windsor, assinado em 1386 (para quem teve preguiça de fazer as contas, foi há 631 anos).

Está tudo errado. Primeiro, uma árvore não é um objecto de que se possa dispor - em particular, uma árvore secular, que deveria ser intocável, sagrada. Não é o mesmo que ir ali ao mercado de Santarém comprar uma árvore num vasinho de plástico para plantar no quintal.

Segundo, uma oliveira dificilmente sobreviveria no clima londrino. Iria acabar por morrer, se não pela violência do transplante, pela diferença climatérica. Guilherme Rosa, focado no protagonismo imediato, preferiu ignorar esses ‘detalhes’, considerando-os má vontade das pessoas, que não o queriam deixar trabalhar.

“Guilherme, deixa-te de parvoíces!”, exclama um dos seus amigos na sua página pública, sucedido por largas dezenas de outros protestos. Houve mesmo quem manifestasse o desejo de oferecer o próprio Vereador GFR como presente, em lugar da oliveira, desculpando-se como as tias idosas quando oferecem cuecas pelo Natal: “É fraquinho, mas é de boa-vontade”.

Guilherme Rosa marchou como um soldado teimoso descompassado de todo o pelotão de protestos, clamando que ele é que estava certo, numa atitude caprichosa e obstinada.

Em poucas horas, já circulava uma petição que se opunha à inusitada ideia, que rapidamente contou com mais de um milhar de assinaturas. A petição, assim como as pressões exercidas pelas redes sociais e pelo PAN, levaram o executivo de Lambeth a abandonar a ideia.

GFR considerou, em declarações prestadas à comunicação social, a campanha contra o seu projecto “vil e pérfida”. Contudo, aconteceu, justamente, o oposto. A oliveira foi salva graças à bondade de milhares de pessoas que se juntaram por um bem superior, demonstrando que o amor pela Natureza está vivo e de boa saúde.

Esta semana, o arcano O Mago inspira-nos a levar avante aquilo em que acreditamos. Se conjugarmos, nas medidas certas, mente e coração, acção e sensatez, tudo pode acontecer. 
Até mesmo unir milhares de pessoas para mudar o destino de uma árvore.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1621
foto: Julie-Kolibrie, licença CC0