Hospital de Corações


Acabei de inventar. Quem está doente do corpo vai para o hospital “comum”, quem está doente da cabeça vai para o hospital psiquiátrico e quem está doente do coração vai para o hospital de corações.

É um edifício semelhante aos outros por fora, mas com pessoas mais simpáticas e cuidadosas. Todo o staff usa sapatinhos de lã, roupa colorida e também faz parte do equipamento um medidor de dores de coração em vez do vulgar estetoscópio. Neste serviço curam-se mágoas, angústias, tristezas e desgostos de amor.

Os corredores são forrados de algodão até ao tecto e o chão tem relva macia e perfumada. Nas enfermarias, os pássaros trazem gotas de madressilva no bico que vão depositando mililitro a mililitro nas feridas expostas. Ali o Betadine não tem serventia.

Os pacientes magoados são aconchegados em lençóis de asa de pássaro e fecham os olhos durante muito tempo até se sentirem capazes de voltar a abri-los sem perigo de desidratação devido aos ribeiros que deles transbordam em águas contaminadas. É preciso limpar, secar, repousar e, acima de tudo, abrandar o ritmo dos batimentos cardíacos que cavalgam desenfreadamente pelos campos pedregosos da dor.

Na hora das refeições, serve-se tempo em modestos tabuleiros. Puré de tempo com escalopes de tempo, salada de tempo e, para beber, tempo espremido. Os pacientes não gostam do cardápio, mas é o único que realmente pode ajudar. A dieta do tempo, além de desinteressante e insípida, ainda tem a terrível desvantagem de ter de ser seguida durante muito tempo.

Não existe roupa para os pacientes no hospital dos corações. Andam nus, despojados de tudo o que possa causar ainda mais peso que aquele que já transportam. Apenas as asas de pássaro servem de agasalho nas noites mais frias e solitárias, onde se ouve o eco do choro e o gemido da dor abafado nas almofadas. Mas há-de passar, tudo passa um dia, com a ajuda do Doutor Passarinho. Ei-lo a entrar agora no gabinete de medidor de dor de coração pendurado no bico para auscultar mais uma paciente que acabou de dar entrada.

Chama-se Hazel e vai ficar na cama cinco, junto à janela. Um bando de pássaros-enfermeiros faz-se acompanhar dos auxiliares em sapatinhos de lã para ajudar a recolher as águas que lhe escorrem dos olhos. A cura vai demorar. Submetida à dieta do tempo, a paciente debate-se e implora por uma anestesia geral ou a eutanásia, mas ambas lhe são recusadas. Terá de aguentar. Terá de conseguir.

Esta semana, o arcano Três de Espadas diz-nos que por muito que doa, um dia tudo acabará por passar. Quando? Não sei. Mas não pode haver tempestade que dure para sempre.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1688
foto: Comfreak, licença CC0

Para uns anjo, para outros pior que o belzebú


Fugiram-me duas velas de casa. Tinha-as em cima da mesa de jantar, cada qual no seu castiçal, e desapareceram sem deixar pingo de cera nem de remorso. Corri atrás delas rua fora, mas no primeiro cruzamento virou uma para cada lado. As danadas. Voltei para casa de mãos a abanar.

Coloquei um anúncio no Encontra-me. Entre cães e gatos desaparecidos, lá estavam as minhas velas. Ambas brancas e simples, uma acesa e outra apagada. Ofereci alvíssaras a quem mas trouxesse de boa saúde e ainda por derreter.

Estas são velas especiais, têm de compreender. Velas que falam, que pensam, que têm opiniões e caprichos. Andaram desaparecidas durante vários dias e noites até finalmente dar com elas estafadas, caídas à porta de casa. A vizinha da frente levantou uma sobrancelha julgando que se tratasse de alguma reles feitiçaria, mas expliquei-lhe que “não, vizinha, isto são só as velhacas das minhas velas que me tinham fugido”.

Entraram de pavio tombado para a frente, receosas do ralhete que iriam levar. Encaixaram-se muito direitas e compenetradas nos castiçais enquanto viam puxar de uma cadeira para ouvir o que tinham a contar sobre a inusitada evasão.

Começou a acesa a falar. Vinha maravilhada. Por todas as ruas onde tinha passado, encontrou luz: reflectida nas montras das lojas, a cintilar nas paragens de autocarro, nos carros que circulavam na estrada; a dançar nos olhos das pessoas que cruzaram o seu caminho. Jamais imaginaria que houvesse tanta beleza no mundo, suspirava encantada.

Seguiu-se a apagada. Num suspiro profundo e tristíssimo, lamentou a malograda saída. Sentiu-se perdida, desajustada nas ruas afundadas em trevas. As pessoas eram obscuras e sinistras, tudo era desinteressante, escuro e vil. Nunca encontrou uma réstia de luz.

Homessa, que tontas, disse-lhes, enquanto fui buscar um espelho para colocar à frente dos castiçais, aquilo que viram foi uma projecção da vossa própria luz (ou da ausência dela).

A acesa sorriu enternecida. Amolecida pelo calor inclinou-se para o lado e acendeu a companheira apagada que num segundo começou a irradiar luz, alívio e alegria. Prometeram não tornar a fugir.

Nós somos para os outros um reflexo daquilo que eles são. Para os detentores de luz, teremos sempre alguma luz e virtude. Para os mais sombrios, seremos vício e escuridão.

Aqueles que nos olham com bondade encontrá-la-ão também em nós; seremos anjos para esses — e piores que o belzebú para os outros. Deixá-los ver-nos com os olhos que têm, que importa lá isso. O arcano Rei de Paus inspira-nos a não parar de brilhar — e iluminar aqueles que se cruzam connosco.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1687
Imagem: kellepics, licença CC0

A louca da camisa de dormir


A louca da camisa-de-dormir todos os dias faz o mesmo percurso que se cruza com o meu, ora de manhã, ora pela tardinha. Contemplo a visão onírica da senhora de meia-idade que atravessa a estrada sem pressa, a chinelar nas suas chanatas de quarto com borlas emplumadas em seda rosa-pétala, cabelos de nuvem e às vezes um robe puído sobre a camisa-de-dormir comprida.

Há no seu semblante triste a beleza silenciosamente desesperada e suspensa no tempo de uma mulher que naufragou e não pára de nadar mesmo sem mar entre as vagas dos dias que se sucedem — sem nunca chegar a terra.

Não usa chapéu para se proteger da chuva — parece mesmo não a sentir. Caminha de olhos fixos no vazio e mãos caídas. Vejo nela o avesso de nós, que saímos de casa vestidos, aprumados, ordenados e perfumados.

Talvez sejamos nós o avesso dela:

Quando regressamos a casa, libertamo-nos dos atavios sociais e vestimos a roupa-de-andar-por-casa, que costuma ser confortavelmente triste e gasta, às vezes tem nódoas que não saem, está debotada e pingona, mas somos incapazes de a deitar fora.

A roupa-de-andar-por-casa é o sorriso que esmorece pelo cansaço ou pelo enfado da rotina. A maquilhagem que cai desmaiada nas olheiras, os cabelos desalinhados, as unhas dos pés compridas, os chinelos velhos e um pouco (ou muito) fedorentos, que cheiram a casa, a conforto e a amparo.

A voz áspera do catarro, a rabugice do Domingo à noite, o ranho a espreitar das narinas dos gaiatos, as caretas que fazemos para o espelho quando vamos a caminho do duche pela manhã. A suposta ausência de beleza a que nos permitimos entregar — e onde repousamos — quando nos sentimos seguros e protegidos do olhar alheio.

É a verdade do que somos, com os nossos maus cheiros, pêlos que despontam bravios onde menos queremos, cabelos oleosos junto à raiz e aquele bocadinho de sujo debaixo das unhas — a crua humanidade que não nos atrevemos a partilhar senão com aqueles que sabemos que vão amar-nos por completo.

O arcano Sete de Espadas aponta-nos para as nossas roupas de andar-por-casa e de andar-na-rua, para as mentiras que contamos ao mundo e a nós mesmos. Todos mentimos. Até o mais honesto de nós. Porque se mostrássemos toda a verdade como ela é, seríamos para os outros uma louca em camisa-de-dormir.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1686
Foto: fotografreneasmussen

Quatro casamentos e três funerais


A respeito do cartaz “Não matem os velhinhos”, lembrei-me de uma gaiata que conheci, bem mai’nova e desempoeirada que a sirigaita da frase. Sorridente e surpreendente no seu batom vermelho-malagueta e óculos-escuros-femme-fatale, assentia com a cabeça enquanto escutava a sua história ser-me contada pela amiga que fez as apresentações.

Que a jovem contava oitenta e duas primaveras. Sorri com admiração, duas vezes a minha idade.

Que o marido tinha morrido havia meia-dúzia de anos num acidente de viação; que era ela quem estava ao volante. O meu sorriso logo esmoreceu, dando lugar ao silêncio respeitoso, compadecido e atrapalhado de quem ficou subitamente sem saber como reagir.

Mas que continuava a conduzir. E que entretanto tinha casado novamente havia poucos meses, lançava a entusiástica amiga enquanto a moça de oitenta e dois anos ia acenando com a cabeça numa expressão travessa. O meu sorriso voltou aos poucos a estender-se aliviado, ora bem, a vida continua, está certo, tem que ser assim.

Que era a quarta vez que casava. As minhas sobrancelhas subiram em espanto.
E todos pela igreja. Homessa, como?, indaguei. Eles morrem todos!, exclamou sem grama-de-drama. Não aguentei. Levei as mãos à cabeça e ri-me incrédula. Os lábios vermelho-malagueta riram também, da tragicomédia que por vezes é a vida; e que se apresentava ali, simples, despreocupada e limpa na doce e divertida senhora que vivera o dobro de mim.

Compreendi no seu riso que não havia tempo a perder, culpas carregar, tristezas a alimentar, dramas para chorar. Havia tão somente um ponteiro de tempo a marcar tiquetaque e um apetite voraz pela vida como o de uma criança que apenas quer os doces sem passar pela sopa e pela salada. Tudo é relativizado. As tragédias, o que os outros pensam, as preocupações, os medos. Só há tempo para o agora e para a verdade que, no fundo, são quase sinónimos um do outro.

Ajudei-a a subir as escadas depois da consulta. Os olhos brilhavam-lhe. Ia com pressa, afinal estava casada há pouco tempo e o corajoso marido desafiador das funestas estatísticas esperava-a em casa. Despedi-me grata pelo privilégio da aprendizagem que trouxe aquele sorriso vermelho-malagueta, com uma admiração e afecto que duram até hoje.

Esta semana, o arcano Ás de Paus aponta-nos a luz da vida e diz-nos que podemos fazer com ela tudo aquilo que quisermos, a qualquer momento. E que bom que é. Tenhamos a idade que tivermos. Aconteça o que acontecer. Só depende de nós. Mesmo que os outros não entendam as escolhas imprevisíveis ou fora do que é considerado “normal”.

Que a centelha divina possa brilhar enquanto houver caminho para andar. Os velhinhos já não são como antigamente; estão mais vivos, mais rebeldes e mais jovens que muitos jovens que andam por aí a passear cartazes.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1685
foto: Mansellgrl5, licença cc0

Numa casa portuguesa fica bem...


Ser português é sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário (que apenas é usado quando vêm visitas) e outro, já velho-gasto-e-possivelmente-lascado, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos, toalhas de mesa ou as almofadas do sofá, que se viram ao contrário para “o lado das visitas” escondendo as nódoas na parte de baixo. Porque se os outros não virem as nossas mazelas, elas “não existem”. Não digam que não.

Temos aversão (para não dizer pavor) a parecer mal aos olhos dos outros e poupamos a-mais-fina-loiça para que as visitas, recebidas com uma cerimónia nunca assumida, vejam apenas o melhor — e não o real. Para “os de casa” usamos os pratos velhos, como se não merecêssemos o melhor que há no nosso próprio armário de cozinha. Homessa. Porque seremos nós assim?

Após profunda introspecção, a vossa velha escriba concluiu que a casa onde vivemos é um ser vivo e comunica como se fosse uma contraparte dos seus habitantes. Por exemplo, o conteúdo do armário onde guardamos os pratos pode ser, em muitos aspectos, semelhante ao interior do nosso coração:

1. Se existir uma infinidade de loiças, novas e antigas, demasiadas para o espaço existente, pode revelar um coração cheio de apegos, preso ao passado;

2. Ter um conjunto de pratos para o dia-a-dia e outro para as visitas, dir-se-ia que sugere incapacidade ou dificuldade em entregar-se de corpo e alma, sem reservas, na amizade, mantendo sempre um pé atrás;

3. Um conjunto de loiça para as visitas, outro para o dia-a-dia e ainda outro terceiro que ocupa um lugar "intermédio", falta de amor por si mesmo, crença de que não é digno do melhor.

Ai, Senhores. Pára tudo. Vou ali à cozinha ver o meu armário.

(Voltei!)

Esta é a história dos meus pratos: já tive dois conjuntos, um do dia-a-dia e outro das visitas (admito com algum embaraço). Entretanto, as transformações que a vida me trouxe levaram a que acabasse por ter no meu armário apenas alguns pratos soltos, restos de outros conjuntos, com um ou outro lascado. Destroços do passado e um coração partido.

Quando tomei consciência desta correlação, um dia desfiz-me dos pratos soltos e lascados e comprei um conjunto de pratos brancos. Simples, humilde e novinho em folha. Era tempo de deixar para trás o que estava atrás e de abraçar o presente.

Porém, o coração continuou partido. Na verdade, ainda está. Mesmo com pratos novos. Mesmo com refeições felizes. Creio que, como um prato fica lascado para sempre, um coração partido nunca mais volta a ficar inteiro. E ninguém garante que não se volte a quebrar ainda mais, em pedaços menores.

Contudo, não foi debalde a libertação dos pratos soltos e maltratados, pois representou o desejo e a possibilidade de recomeçar. E o facto de não ter comprado um conjunto extra de pratos, significa que não tenho um plano B. O que está à vista é o que há.

O arcano A Lua inspira-nos a adaptar-nos às diferentes fases que a vida traz, sem cair na armadilha de alimentar ilusões. Tudo é mutável, sensível, inconstante e tão frágil como um prato de loiça que cai no chão.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1684

O vazio


A campainha está a tocar, vou ali abrir a porta: são os senhores que vêm instalar um contador bi-horário. Façam favor de entrar, é por aqui. Diz que é raro terem pedidos destes, que os últimos contadores do género foram instalados há muitos anos num mosteiro perdido no nevoeiro lá para as bandas do Nepal.

Hoje em dia toda a gente anda sempre ocupada com alguma coisa e as horas de vazio não despertam o interesse de ninguém, esclarece o sujeito mais alto enquanto ajuda o colega a tirar o contador bi-horário da caixa.

Isso não é de hoje, afianço-lhes. Senão, vejamos: antigamente, quando as pessoas iam à casa-de-banho, liam de-fio-a-pavio os rótulos dos frascos de shampô, do gel de banho, do ambientador; havia os que se entretinham com livros de banda-desenhada, com a literatura médica de alguma caixa de comprimidos que se encontrasse por perto — no fundo, tudo o que estivesse no perímetro de um braço estendido em torno do trono.

Hoje levam o telemóvel, a partir de onde enviam emails, sms, partilham fotografias, não perdem pitada das polémicas do dia nas redes sociais —, como quem depende de um fio invisível que o agarre ao mundo cá fora.

Sempre houve a necessidade de ter alguma âncora onde se possa prender a atenção — e que salve a Humanidade, apavorada com a perspectiva do vazio, de se deparar com ele. Assim, olhamos para fora — e nunca para dentro.

Ora bem, já está instalado o contador bi-horário. Só uma assinatura aqui em baixo, menina Hazel, se faz favor. Obrigado e um bom dia.

Fecho a porta satisfeita com o contador bi-horário novinho em folha instalado mesmo em cima da minha cabeça. Tudo para poupar, que o valor da energia anda pela hora da morte.

Planeio usufruir de uma hora de tarifa de vazio uma vez por semana. Sessenta minutos de telemóvel e computador desligados (não referi televisão porque não tenho) e, sem gente a atazanar-me o juízo, pretendo sentar-me e ficar dignamente a olhar no vazio.

Uma hora que, conto, será muito produtiva, pois, em vez de despender energia em tudo e todos, estarei a recarregá-la (sem perigo de electrocussão caso me distraia e entre em sobredosagem se deixar passar mais um quarto-de-hora ou pedaço de tempo que me valha).

Perscrutar o vazio em absoluta ausência de emoções pode parecer o equivalente a contemplar o abismo vertiginoso ou um poço sem fundo, mas há pouco espreitei para lá e pareceu-me seguro e arejado.

Confrontá-lo não me fez sentir vazia, mas preenchida, centrada. Capaz de reclamar todos os pedaços de mim que perdi por aí em angústias e preocupações, em mágoas e excessos de paixão, em dar mais do que recebi, em esperar e desesperar, em imaginar e desimaginar.

Reclamo-os e reintegro-os no meu vazio, no silêncio e na solidão, na paz absoluta.
Só então voltarei à tarifa de fora de vazio.

O arcano O Eremita envia notícias para o mundo através de um pombo-correio que pousou na minha janela. Trazia na pata uma mensagem que desenrolei com cuidado. Estava vazia.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1683

Sabes que estás a ficar velho quando


Esta dor que hoje me tem apoquentado a zona fronteiriça entre o fundo das costas e o começo das nádegas concebe previsões meteorológicas com maior exactidão que o ido Anthímio de Azevedo (amanhã vai estar fresco, algumas nuvens e o Sol vai andar acabrunhado, diz-me).

Tenho conversado com ela; todas as dores vêm para ensinar e quanto mais depressa aprender a lição, mais asinha a mestra parte em busca de novo pupilo. É uma dor velha, muito idosa, que veio visitar-me por um dia — amanhã diz que já se vai embora.

Ofereceu-se para me ensinar a fazer crochet, renda-de-bilros e bordado em ponto-cruz. Declinei cordialmente o obséquio, não fosse ela tornar-se hóspede permanente.

Vencida e de malas aviadas para partir pela calada da noite, enquanto durmo o sono dos justos de pijama-às-riscas e cabelo entrançado, a velha dor deixou-me de presente a sabedoria dos ditados populares, essas verdades-indiscutíveis-e-cientificamente-provadas que tenho dado por mim a dizer aos mais novos.

Foi neste momento que me descobri velha como uma relíquia empoeirada de museu, uma hortaliça murcha, um par de botas fedorentas que já palmilharam meio mundo e sabem todos os atalhos, caminhos e azinhagas.

Como sou uma boa velhaca, descobri que este mal é contagioso: começa-se a memorizar provérbios e depois passamo-los aos outros sem apelo nem agravo. Como a maleita proverbial tem andado em recessão (quem é que os cita hoje em dia?), resolvi disseminá-la em grande escala. Ora tomem disto:

- Depois do Natal, dá o dia um saltinho de pardal.

- Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.

- No mês de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.

- Janeiro fora, cresce o dia uma hora.

- Fevereiro engana a velha ao soalheiro.

- Em Fevereiro, salto de carneiro.

- Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

- Março, marçagão, de manhã é Inverno e à tarde Verão.

- Em Março sobe ao outeiro, se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires nevar, põe-te a cantar.

- Páscoa em Março, ou fome ou mortaço.

- Março, marçagão, de manhã cara de gato, à tarde cara de cão.

- Abril, águas mil, coadas por um mandil.

- Em Março tanto durmo como faço.

- Abril frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.

- Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

- Em Maio, cereja ao borralho.

- Água de Maio, pão para todo o ano.

- Em Maio, canta o gaio.

- Maio claro e ventoso, faz o ano rendoso.

- O que Janeiro deixa nado, Maio deixa espigado.

- Agosto, mês de desgosto.

- Não há Sábado sem sol, Domingo sem missa nem Segunda sem preguiça.

- A velha que bem governou, o melhor tição para Maio o deixou.

- Em Agosto todo o fruto tem o seu gosto.

- Uma andorinha não faz o Verão.

- Em Agosto frio no rosto.

- Em Dezembro descansar para em Janeiro trabalhar.

O arcano A Sacerdotisa inspira-nos a virar as páginas do tempo, a fazer uso da sabedoria que adquirimos e a nutri-la discreta e incessantemente, numa gestação silenciosa. Sabemos sempre a resposta que precisamos, mesmo quando achamos que não. Basta escutar o que as nossas dores têm para ensinar.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1682
Foto: geralt, licença CC0

"Segure-me aqui a Língua desta Menina."


Foi na Primavera tensa de mil-nove-e-noventa-e-nove que uma malfadada espinha de carapau me escorregou através da glote e se espetou bem lá no fundo da garganta.

(Se é sensível a descrições de teor visceral, não leia mais. Embora haja piores.)

Tentei tossir, mas não saiu. Comi pedaços de pão inteiro, na esperança de empurrá-la pelo aparelho digestivo abaixo, e-depois-logo-se-via (tentando desviar a memória daquela tia-avó que um dia foi parar ao Hospital com uma espinha de bacalhau atravessada no reto). — Nada.

Deitei-me desejando que a espinha demoníaca desaparecesse milagrosamente e tudo não tivesse passado de um sonho menos bom quando acordasse. A manhã chegou e, com ela — a facínora. Tomei duche com a espinha. Vesti-me com a espinha. Fui trabalhar com a espinha. Ao fim do dia, dei-me por vencida. Fui ao Hospital.

A funcionária da entrada parecia farejar algo embaraçoso no motivo da minha ida às Urgências, a avaliar pelo meu aspecto saudável e ao mesmo tempo inegavelmente acanhado. Não, não tinha objectos entalados nas cavidades vaginal nem anal (apre!).

Tenho uma espinha espetada na garganta — sussurrei.
Tem o quê? — rosnava a redonda senhora com olhos maliciosos, de dentro do guichet. A fina arte da velhacaria consiste em fazerem-nos repetir em bom som, numa sala cheia de pessoas atentas (ou assim a nossa timidez faz parecer), o motivo do nosso embaraço.

TENHO UMA ESPINHA ESPETADA NA GARGANTA — respondi, agora alto, para deleite da curiosidade mórbida que me rodeava.

Fui atendida pelo Otorrinolaringologista, um sujeito de bigode fininho, calma anestésica e paciência infinita, que espreitou cá para dentro decidindo mentalmente que instrumentos (de tortura) iria utilizar. Chamou o enfermeiro:

— Segure-me aqui a língua desta menina.

O jovem enfermeiro arrepanhou-me a língua enquanto o médico segurava uma pinça suficientemente grande para agarrar a parte mais larga da tromba de um elefante.

Conforme a pinça zoológica abria caminho goela abaixo, constatei no quão parecidos os humanos podem ser com os gatos em espasmos pré-vómito. Julguei que fosse vomitar na cara do enfermeiro que me continuava a esticar a língua como se fosse a passadeira vermelha dos Óscares.

Foram várias as investidas para chegar à espinha. As lágrimas escorriam-me pelos cantos dos olhos, enquanto tentava encontrar algum lado positivo naquilo, “vai que tinha ficado espetada à saída”.

Por fim, a super-mega-pinça caçou a diaba. Depois de tanto tempo enterrada nas minhas carnes tenrinhas e indefesas, esperava uma espinha gigante. Tinha menos de um centímetro. Muito pequenina. Mas velhaca, bem velhaca, a danada.

A minha zanga com os carapaus durou anos. Olhava-os com um desprezo que mais ninguém entendia, a não ser a minha glote, que ainda guarda memórias funestas. Raramente comi carapau depois disso, até esta semana. Assados no forno. Tenho que admitir: estavam deliciosos.

O arcano Cavaleiro de Paus recorda-nos que nada é definitivo. Em particular, quando se trata de algo que sabemos não pertencer onde está. É sempre melhor moderar os impulsos e degustar os prazeres da vida com algum cuidado.

Tudo o que não se encontra na sua devida natureza, mais tarde ou mais cedo acabará por partir. Restam as experiências vividas, a aprendizagem e o desapego.

A sentir-me um autêntico carapau-de-corrida,

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1681

A página cento e oito


Entrou pela janela ao fim da tarde, lançada por uma rabanada de vento que derrubou o porta-retratos. Os olhos do gato, que acordou assarapantado, seguiram a queda lenta até aos meus pés de uma folha que se enrolou sobre si como as rosas-de-Jericó quando rolam pelas areias quentes do deserto.

Tentei atirá-la pela janela, mas os zéfiros sopraram-na de volta, contra o meu peito. Está bem, fico contigo. Deixei-a cair com displicência sobre a mesa de onde vos escrevo, entre o dicionário de português forrado a tecido cor de poeira e o candeeiro antiquado de quebra-luz verde-duende.

Fui dar com ela no chão, indiferente à doçura do crepúsculo matutino, amuada como donzela desprezada. O orvalho nos seus veios escorreu até ser gota e espelhou o meu olhar, como se um olho sem vida me observasse. Estava amarfanhada, claramente contrariada. Perguntei se preferia ser esticada e colocada como marcador de livros.

Como se pressentisse o ultraje, a folha rodopiou para fora das minhas mãos numa valsa exaltada e dramática. Baixei-me para a agarrar e voltou a escapulir-se como um pardal, fazendo-me persegui-la, ora acocorada, ora de pé.

Anda cá, se te apanho vais parar dentro de uma moldura de vidro 
e ficas para sempre esparramada num quadro para o qual ninguém vai olhar.

A folha-donzela voou com ímpeto suicida pela janela, mas foi salva pelo bailado fantasmagórico das cortinas brancas. Aconcheguei-a entre as mãos como um passarinho assustado e coloquei-a respeitosamente sobre os livros, na estante da sala, para que tivesse tempo de se recompor — antevendo que acabaria por reaparecer noutro lugar como obra de alguma assombração.

Passei essa noite a sonhar com o rangido das florestas, árvores que se abraçavam umas às outras de ramos estendidos e vozes de velhas cansadas que falavam através dos vendavais.

Acordei com a roupa da cama caída no chão, sentindo-me nua e observada. Era ela.
A folha. Na minha mesa-de-cabeceira. Tive a clara percepção que os sonhos que sonhei não eram meus, mas dela, memórias da floresta. Desfazendo-me das teias oníricas, disse-lhe bom dia e saí para trabalhar.

Quando regressei, já não se encontrava ali. Procurei-a por toda a casa sem sucesso. Senti um vazio pela sua ausência, uma tristeza difícil de explicar, a que acabei por me acostumar com o tempo — como um tempero que impede a alegria em excesso de se tornar ofensiva e imoral.

Mal me lembrava da folha até regressar a Primavera, quando reorganizei os livros nas estantes para espantar as energias invernosas. Eis então que a encontrei: enamorada da página cento e oito de “Amor de Perdição”, o papel já tatuado pelos seus veios. Camilo Castelo Branco teria compreendido tamanha devoção.

O arcano Cavaleiro de Copas sussurra-nos levemente ao ouvido, inspirando-nos a nunca deixar de procurar o caminho do amor.

Fechei o livro com delicadeza, sem retirar a folha e arrumei-o entre “A Relíquia” e “A Correspondência de Fradique Mendes” (para que o fino humor queirosiano aligeire a trágica perdição camiliana).

Jamais suspeitaria que ela fora uma mulher — que, de tanto chorar por um desgosto de amor, ficou seca, mirrada — transformada numa folha. Ficaria de coração partido se alguém me dissesse que as misteriosas e inexplicáveis gotas de orvalho eram reservas de lágrimas esquecidas dentro dos seus veios. Não importa.
Agora sorri, perdida de amores pela página cento e oito. Moram uma na outra.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1680
foto:  kellepics, licença CC0

Bilhete de ida


Está decidido. Já anotei nos alfarrábios estrelares quanto tempo vou querer viver. Que alívio isso me trouxe, por Láquesis!

De-agora-em-diante (quase escrevia ‘doravante’, mas encontrei a palavra cheia de pó por falta de uso, assim engavetei-a embaraçadamente neste parêntesis), não darei um passo sem que a terra se sinta beijada com sacralidade pelos meus pés.

As janelas de cada olhar serão diariamente abertas com cortinas diáfanas de contemplação. Cada gesto será desenhado com graça e musicalidade. Cada abraço uma torrente de amor no envelope de dois peitos que se colam.

Nada poderá ser em vão. Não pode haver desperdício. Sem talento algum particular que me seja fecundo, seja eu arte. Que seja pelo amor, pela sabedoria, pelo prazer.
No mínimo, pela beleza.

É certo que o incerto pode intrometer-se pelo meio e abrir um atalho mais cedo que o esperado. Não há quem seja imune às tropelias do acaso. Porém, tal não me detém nem distrai — pelo contrário — apenas me impele na viagem.

Afinal, ninguém está a salvo de lhe cair um piano em cima ao sair de casa. Ou de um elefante obstinado e fatídico se sentar sobre si recusando-se terminantemente a levantar. Se acontecer, logo-se-vê.

Para todos os efeitos, está tudo planeado. Tenho o bilhete comprado, as malas feitas e embarco no comboio. Não há tempo a perder.

Procuro no bolso do casaco um lenço branco com alguns macaquitos do nariz que ninguém repara visto de longe para vos acenar em despedida. Os que me querem bem, não lamentem a minha partida.

Aqueles com quem de alguma forma falhei, aceitem as minhas sinceras desculpas. Se não quiserem aceitar, desculpem não poder ficar a desculpar-me para sempre, mas tenho um comboio para apanhar. Os que pensam mal de mim, regozijem-se por me verem pelas costas e não reclamem mais. Está tudo bem, está tudo certo. Estão todos perdoados. Agora vou.

O arcano Valete de Paus desafia-nos a ousar o extraordinário e a fazer planos impossíveis de garantir. Não é, afinal, toda a existência um plano impossível?

A natureza de tudo é a impermanência, a inexistência de garantia, o risco contínuo — e a paixão por acreditar na eternidade, ainda assim. Já nascemos com um bilhete para não-sei-onde e depois logo-se-vê. Eu apenas estou a usar o meu.

Muitas graças por tudo. O tchuque-tchuque do comboio anuncia a partida.
Vou-me embora, embora continue cá.

Contudo, acreditem, creiam-me: ainda que me vejam, que me escutem (id est, leiam) e que me toquem — já não estou mais aqui. Fui.

Até à vista!

Hazel
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Contacto: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1679
Foto: xunseru, licença CC0

A revolução dos cravos


“Se quiser, tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”, respondeu Celeste Caeiro, 40 anos, ao soldado que lhe pediu um cigarro. Não tinha mais nada para oferecer senão os braços cheios de cravos vermelhos e brancos.

O restaurante onde trabalhava, em Lisboa, celebrava nesse preciso dia um ano de abertura, e tinham comprado uma quantidade considerável de cravos para oferecer às senhoras que lá entrassem.

As notícias sobre a ocorrência do golpe de estado levaram a que o gerente tomasse a decisão de não abrir o estabelecimento. Celeste foi, como os restantes colegas, mandada para casa devido aos acontecimentos iminentes. Os cravos foram distribuídos pelos funcionários, para que os levassem consigo.

Curiosa e inquieta, quis ir ver a revolução que estava para acontecer com os seus próprios olhos. Após sair do metro, encontrou os tanques que se dirigiam para o Quartel do Carmo. Indagou os militares sobre o que estava a passar.

“Nós vamos para o Carmo para deter o Marcello Caetano. Isto é uma revolução!"
O soldado recebeu o cravo que Celeste lhe estendeu e enfiou-o no cano da G3. Celeste dos Cravos, como ficou depois conhecida, distribuiu as restantes flores que transportava pelos outros militares, que replicaram o gesto do camarada.

A revolução dos cravos trouxe a promessa da liberdade, que ainda falta cumprir.
O 25 de Abril ainda não acabou. Continua no dia 26, no 27, no 28 e por aí em diante — enquanto houver alguém com medo de sofrer retaliações por dizer aquilo que pensa. Enquanto houver alguém a abafar ou a deturpar a verdade. Enquanto houver desrespeito pelo livre arbítrio do outro.

A liberdade será conquistada quando todos aprendermos e integrarmos genuinamente os valores éticos; a honestidade absoluta, a confiança e a bondade desinteressada. Só então se poderá verdadeiramente chegar à Liberdade. Temos de merecê-la primeiro.

Até lá, continuamos todos os anos a comprar cravos vermelhos para celebrar a liberdade sem ter noção que o fazemos a partir de dentro da clausura em que nos encontramos, prisioneiros da ditadura da desonestidade, da corrupção, do desrespeito, da manipulação, da mentira e da falta de transparência, até mesmo por parte de quem trabalha em prol dela.

Nas pequenas e nas grandes esferas, a Liberdade ainda se encontra longínqua. Tanto quanto a verdade.

Avante, que a revolução ainda mal começou. O arcano Nove de Paus incita-nos a manter-nos lúcidos e alerta, a pensar por nós mesmos, a questionar tudo — e a não abandonar o barco. Se não formos nós, quem por nós?

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1678
foto: Leonardo Negrão - Global Imagens

Ai Jeremias


Não há remédio que te cure essa urticária, Jeremias. Enfiou-se-te no intervalo dos dedos das mãos e dos pés (não vamos contar aos senhores sobre as zonas pudibundas onde ela também comicha, fica descansado, Jeremias), mas, em compensação, esses tiques de dedilhado de cordas de guitarra imaginária a vinte dedos para apaziguar o prurido salvam-te de futuras possíveis artroses, homem. Disso estás safo, hã.

Todo tu comichas em formigas-de-asas peludas e invisíveis que te alfinetam a cútis e o ânimo. Não te mexes, empastelado como um pastel-de-bacalhau frito há uma semana na tasca no Javardo. Esperas que alguém te apresente garantias para arriscar — e fazer algo da tua vida.

Ninguém o vai fazer, inocente pastel. As pessoas não querem saber. Estás por tua conta desde que nasceste. Mesmo que algum bom samaritano quisesse garantir o que quer que fosse, ninguém o poderia, em boa verdade, fazer.

Oh bom Jeremias, a única garantia que temos na vida é a morte (e os impostos, esses também são certos). E, Jeremias, não é já a morte, por si, garantia suficiente para te agarrares à vida com as mesmas ganas com que te agarras à testiculária quando a urticária assanha?

Não, dizes tu, os dedos dos pés
 a mexer freneticamente como se tocassem piano.

A morte passou de fantasia de capa preta em noite-de-bruxas a realidade bruta quando a viste no rosto lívido daqueles a quem já disseste adeus, mas nem assim aprendeste. Quando a memória metálica e fria da foice sinistra se dissipou do coração, voltaste ao de sempre: que a ossuda só leva os outros e se vai esquecer de ti. Lá no fundo, ninguém acredita nela, com excepção dos que receberam más notícias do médico, dos poetas e dos desesperados.

Aconchegado no sofá que já tem o molde do teu corpo pesado e indolente, ficas a olhar para a porta da rua à espera de ouvir bater:

«Abre, por favor!, Sou a Vida e aqui trago as garantias que precisas, ilustre Jeremias, para que possas apostar em mim com segurança. A meu lado, vêm a Fada-dos-Dentes, o Pai Natal e o Coelho-da-Páscoa, como minhas testemunhas. Trago também uma bacia de água-de-malvas. 
Para o prurido.»

Só que não. Enquanto estiveres vivo, estás a jogo e podes sempre reformular as tuas escolhas. Que esperas? A vida não te vai bater à porta, porque ela já vive na tua casa. Além de que as portas são propriedade da morte. E as janelas, da vida.

Esta semana, o arcano Sete de Copas aparece como uma urticária inesperada em zonas indecentemente impróprias, atiçando-nos a agir, a tomar decisões e a fazer escolhas.

A ver se, quando chegar a hora de atravessar a porta de saída, os anjos (que andam, segundo fontes que preferiram manter anonimato, a tomar Rivotril) não se deprimem mais por ver a costumeira expressão (desa)finada — de lamento, por morrer sem ter vivido; de quem permaneceu na espera eterna da divina garantia de que viver não seria arriscado demais. Acorda e abre as cortinas, Jeremias. Ai Jeremias, Jeremias.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1677
Foto: StockSnap, licença CC0