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Rosa dos Ventos

Desço o ribeiro a baloiçar até ao mar na canoa do teu abraço. Beijos ébrios de maresia. A madressilva dos teus olhos. Abres estrelas do mar das tuas mãos frias no corpo de nevoeiro perdido na bruma. Enrolados em tentáculos de vontade Navega-me em ondas de lençóis brancos …

Os Malmequeres que nos Querem Bem

A I O QUE EU GOSTO DE MALMEQUERES. Reconfortantes e malcheirosos, aparecem todos os anos quando ninguém espera por eles, no momento em que se perdeu a esperança de que o Inverno vá alguma vez terminar e nos rendemos quebrados pela chuva mole, teimosa e eterna, um regozijo para o bolor …

A Vendedora de Ovos

R OLIÇA E DE PERNAS CURTAS, encontro-a sentada em doce pacatez sobre um banquinho que desaparece debaixo das saias, dando a ideia de estar a chocar os ovos que tem para venda. U sa sempre o mesmo kispo cor-de- papas-de-aveia , a condizer com o tom das asas das suas galinhas.  As cai…

O Último Dia

« O bservo sem emoção o burburinho de gente desinteressante que se arrasta com pachorra de réptil anafado sob o Sol vespertino, esquecendo-me da minha própria existência. Como um fantasma. Ninguém nota a minha presença. Nem eu. Tudo é temporário. Sei que um dia voltarei a encontrar-m…

Monstros Debaixo da Cama

N ÃO ACREDITO EM DEUS. Mas sei que Deus existe; disso não duvido, benza-me Deus. Existe para aqueles que acreditam n’Ele. Quem diz Deus, diz o Diabo . A crença numa ideia torna-a real, verdadeira. Qualquer ideia. Os monstros debaixo da cama são palpáveis para os que neles creem, e vêm…

A Origem do Dia dos Namorados

O DIA 14 DE FEVEREIRO, conhecido actualmente como "Dia dos Namorados", é uma celebração pagã associada ao início da época de acasalamento na Natureza.  Na Roma antiga, dava pelo nome de Lupercalia , a festa em honra de Lupercus, o Fauno (Pã, na Grécia), divindade regente das…

Diário de Bordo do Navegante Solitário

P EDE-SE À LOUCURA  que jamais se faça anunciar. Caso me encontre, que tome conta de mim sem que eu o saiba, e ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados, descompassados e destrambelhados –, e a mim sã.  Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciênci…

A Dama do Pechiché

O s frasquinhos de perfumes pecaminosos ocupavam quase todo o pechiché, reluzentes, tentadores. Uma serpente filiforme de odor amadeirado esgueirava-se sinuosa de uma tampa mal encaixada e evolava pelo ar, penetrando as narinas; incitando a destapar e cheirar o conteúdo de todos os vidr…

Mortinho por Viver

E STA VOSSA ESCRIBA encontrou um defunto a viver no seu roupeiro. Guardara-o há tanto tempo que me esqueci dele. Lá estava, bem direitinho como compete aos defuntos, com o expectável saco de plástico preto a envolvê-lo. Tal não poderia continuar, não senhor. Urgia ressuscitá-lo. Com efe…

Borboletário

A s curvas do meu corpo macio insinuam-se numa dança ondulante e silenciosa à medida que me movo com languidez, inconspícua por entre a folhagem que emoldura a paisagem límpida e orvalhada da manhã. Ocasionalmente, uma folha ou outra roçam-me a pele nua. Alimento incessantemente o …