O Cu dos Portugueses

Um cu infiltrado nos azulejos da minha cozinha

Os portugueses são o povo que mais expressões possui relacionadas com o cu. Deve ser por uma questão geográfica, afinal estamos no cu da Europa, e o cu torna-se fonte de inspiração, sendo usado para exprimir todo o tipo de emoções e situações.

Anotei a lápis no caderno-onde-escrevo-tudo as expressões sobre o cu de que me lembrei e - feita cagarolas - nunca cheguei a publicá-las. Andei com o texto do cu para cá e para lá, indecisa se publicaria ou não, acanhada (ou acunhada, permitam-me o neologismo) com receio que alguém pudesse ofender-se por ver aqui escrita a palavra c-u. Bem-entendido, qualquer assunto sobre o qual se escreva pode e vai sempre ofender alguém; isso é tão certo como o risco que separa a nádega esquerda da direita.

Em defesa do cu, porque há-de ele ser menos digno que o nariz, os cotovelos ou os dedinhos dos pés? Existe, logo merece que se escreva sobre ele sem lhe chamarmos "rabo", o termo educado que se usa para-não-parecer-mal - e que nos faz subitamente nascer uma cauda.

Ora, devo advertir, caso ninguém tenha
ainda notado, que a palavra cu se vai 
repetir inúmeras vezes ao longo deste post


Aqueles que se escandalizarem com tão pequeno, porém, não menos digno vocábulo é favor colocarem as mãos nas vossas costas e irem descendo devagar, devagarinho. Antes de chegarem às pernas, existe ali uma zona fronteiriça que é geralmente fofinha e exala odores insuportáveis de vez em quando. É o vosso cu! Também conhecido por nádegas, nalgas, bufunfo, traseiro. Agora que descobriram essa terra-de-ninguém, assumam a sua existência. 😃

O cu dos portugueses está na boca de todos, de Norte-a-Sul-e-Ilhas, e tenho a certeza que as expressões com o cu não se ficam por aqui:

De cu alçado.
Preparado para.

Andar de cu tremido.
Ir de carro.

Nascer com o cu virado para a Lua/com a Lua no cu.
Ter sorte.

Querer o cu lavado com água de malvas.
Querer tudo feito sem ter trabalho.

Ser um cu de sono.
Ser dorminhoco.

Cara de cu!
Insulto moderado, usado em tom de brincadeira.

Estar de cu apertado.
Estar preocupado, aflito.

Encher o cu.
Comer muito.

A mesma coisa é pôr dois dedos no cu e cheirar; cheira-se um, cheira-se outro, e é a mesma coisa.
Para explicar quando duas coisas são realmente iguais, e não parecidas.

Ficar com o cu na cama.
Ficar a dormir.

Não levantar o cu para fazer nada.
Ser preguiçoso.

Dar o cu e oito tostões.
Querer muito.

Custou o olho do cu.
Foi caro.

Não valer um cu.
Não ter qualquer valor.

Se não é do cu é das calças.
Se não é disto, é daquilo.

O que é que o cu tem a ver com as calças?
O que tem uma coisa que ver com a outra?

Quem tem cu tem medo.
Todos têm medo.

Roçar o cu pelas paredes.
Não fazer nada.

Cair de cu.
Cair em si.

Com o fogo no cu.
Com pressa.

Parece que saiu do cu do burro.
Tem a roupa amarrotada.

Lambe-cus.
Graxista.

No cu de Judas.
Muito longe.

Mete-o no cu!
Quando, numa zanga, não queremos saber de algo sobre o qual outra pessoa se está a gabar.

Contar com o ovo no cu da galinha.
Ter algo como garantido.

Não há cu que aguente.
Não há paciência.

Não tem cu para as calças.
Pessoa muito magra.

Não lhe cabe um feijão/uma palhinha no cu.
Está muito contente.

Tem pernas até ao cu.
Pessoa muito alta.

Quando mais uma pessoa se agacha, mais o cu se lhe aparece.
Quanto mais uma pessoa permite uma situação injusta, pior ela fica.

Pimenta no cu dos outros é refresco.
Focar-se em si mesmo sem querer saber dos outros.

És mesmo cu aberto.
Pessoa que fala demais.

Andar de cu para o ar à procura de.
Para dar ênfase ao esforço e tempo despendidos a procurar algo.

Cu-cu!
Quando estávamos escondidos e nos revelamos a alguém. A sério: Cu-cu. Só em Portugal. 

Vira cu.
Cambalhota.

Óculos cu de garrafa.
Óculos com lentes muito grossas.

Acordar de cu para o ar/ com o cu de fora.
Acordar mal-disposto.

Deram-lhe água de cu lavado.
Está enfeitiçado.

A cara de um é o cu do outro.
Quando queremos dizer que duas pessoas não são parecidas.

Andar com o cu num guilho.
Estar com medo/assustado.

É o teu cu!
Quando se repele um insulto para quem o proferiu.

O cu está em todo o lado. Mesmo. No outro dia, estava sentada sobre o meu e, quando olhei em volta, vi-me rodeada de cus, cus por todo o lado, cus à volta de toda a minha cozinha. Disfarçados de pêssegos, mas tenho a certeza que são cus (regressem à foto no topo deste post e confirmem!):


Se alguém desejar contribuir com mais expressões sobre o cu, não se acunhe em partilhar.

Sentada sobre o meu,

Hazel

O gay, a mulher do buço e o psicólogo louco


Amílcar (irmão-gémeo de Aníbal) tinha maneirismos adamados e morava na casa azul junto ao cruzamento à entrada no bairro, onde uma estátua de sereia em pedra e vários gnomos coloridos espreitavam por entre gladíolos e estrelícias no quintal. Não tinha pêlos no rosto - nem no corpo, que depilava com cera - e usava sobrancelhas perfeitamente desenhadas, inspiradas no António Calvário. Havia nutrido uma paixão pelo Elias da mercearia, com quem sonhara fugir para o Tenerife, antes dos pais o casarem rápida e convenientemente com Orquídea, que não gostava de flores e tinha um pouco de buço, mas cozinhava divinamente.

Perdia frequentemente o autocarro por preguiça de estender o braço para chamá-lo; esperava que as outras pessoas na paragem o fizessem, o que nem sempre acontecia, pois por vezes os destinos dos outros eram diferentes do seu. Teve uma loja de peúgas de homem que faliu, tornando-se contrabandista durante muitos anos. Dentro da aba do seu casaco, que abria num gesto matreiro, havia um surpreendente mostruário de navalhas ponta-e-mola, relógios suíços, pentes de osso, canetas Parker - e, para clientes de confiança, pequenos revólveres.

Com a idade, a sua Orquídea desmazelou-se (ainda mais): usava collants de lã velhos e cheios de borbotos com os elásticos da cintura relaxados que lhe escorregavam pernas abaixo. Quando pagava as compras no supermercado, depois de percorrê-lo de uma ponta à outra, já os levava pelos joelhos. Ninguém reparava porque usava sempre saias até aos pés. Não tinha amigos, com excepção da vizinha do lado, que regularmente lhe ofertava nacos de porco para os guisados de Domingo, a quem chegou a oferecer uma couve Bordallo Pinheiro.

Filipe, o filho, amigo de criação de Ricardinho que viria a tornar-se autarca, era psicólogo - enveredou pela psicologia porque sempre era uma área pacata, e podia ser que o ajudasse a perceber que lugar ocupava no mundo, pois estava convencido que tinha nascido por acidente do divino e distracção dos pais - coitus interruptus fracassado, decerto.

Vivia atormentado por um inconfessável medo: e se ele não fosse um psicólogo com uma vida comum, mas um doente psiquiátrico internado numa instituição convencido que era um psicólogo? O medo de se perder nos labirintos frágeis-e-traiçoeiros da mente era tanto que se policiava permanentemente para ter a certeza que a sua realidade era mesmo real.

Um dia, resolveu partilhar todos os seus receios com o único confidente que não o julgaria: o caderno de papel. Quando completou a última página, abandonou a profissão e tornou-se um escritor de sucesso. Os seus medos tornaram-se deliciosos enredos de thrillers psicológicos, onde surgiam por vezes referências ao canibalismo.

Filipe quebrou o ciclo de gerações de pessoas incapazes de viver as suas próprias escolhas. Amílcar, por receio de desapontar o irmão-gémeo, nunca assumiu quem era. Orquídea queria ter sido chef, mas resignou-se à vida de dona-de-casa. Ambos abdicaram de fazer escolhas, ensinando o filho pelo exemplo contrário.

O arcano Os Enamorados inspira-nos a reflectir sobre as decisões que tomamos e que podem alterar todo o curso da nossa vida. Quando fazemos uma escolha, ou abdicamos dela, para satisfazer as expectativas dos outros, estamos a carimbar o passaporte para uma vida que não é a nossa.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1612
foto: 2001photo.com

A madona das maminhas tristes


Tudo estava a cair à sua volta. O estuque no tecto da casa-de-banho, a roupa pendurada nas costas da cadeira, o copo de água que resvalou da mesa e se estilhaçou no chão, as maminhas que olhavam tristes para os pés quando desapertava o soutien para vestir o pijama-às-riscas.

Lá fora, a chuva batia nas pedras da calçada formando diferentes tons numa melodia fúnebre e descompassada que, de alguma forma inexplicável, batia certo com o ritmo descontrolado do seu coração.

As paredes brancas do corredor dos quartos pareciam duas prensas gigantes que se moviam para esmagá-la, reduzi-la a líquido, a puré. O telefone não parava de tocar. Incapaz de ouvir mais uma palavra, atirou-o contra a parede. Aquele foi o dia em que o mundo - o seu mundo - parou.

Todos tinham morrido. Uns porque faleceram, outros porque, ainda que permanecessem vivos, deixaram que lhes morresse a última gota de amor e só tinham fel para oferecer. Até uma ovelha negra se cansa de tentar explicar que o problema não é ela ser negra e as outras brancas, mas o pasto ser pouco e a estupidez muita.

Despiu-se e encheu a banheira de água quente. Deixou-se escorregar. De olhos fechados, pediu com todas as forças ao seu corpo e a Deus, se esse cretino existisse mesmo, que o coração lhe parasse de bater - porque era demasiado cobarde para se matar.

Na manhã seguinte, acordou com uma valente constipação acompanhada de uma humilhante crise de hemorróidas que saltavam espavoridas quando os acessos de tosse lhe fustigavam todas as cavidades do corpo. O coração continuava a bater, ainda que desordenadamente, como se tivesse leões a correr dentro do peito. Mas a dor da alma parecia já um pouco mais branda.

Dentro daquela casa onde morava a solidão e a loucura, longe do mundo e dos seus habitantes, conseguiu acabar por curar as feridas de um coração despedaçado e atormentado. Durante muito tempo, ninguém soube o seu paradeiro - nem ela própria.

Às vezes, tudo o que nos resta fazer é esperar, e deixar que o planeta continue a girar sobre si mesmo; ver os nasceres e pôres do Sol sucederem-se até acabarmos por perceber o sentido da vida, a grande mensagem cósmica, o mistério dos mistérios: o mundo está-se nas tintas para nós. De tão insignificantes que somos.

Colocou a cafeteira ao lume com água e chá de folhas de verbena para espantar a tristeza, e decidiu que já chegava. Como um longo resfriado que finalmente se consegue curar, também a mágoa ficou sanada. Estava pronta para partir. De malas feitas, alma lavada e maminhas arrebitadas, mudou de casa, de nome e de vida.

Esta semana, o arcano quatro de espadas inspira-nos a abrandar a velocidade e a afastar-nos para observar o mundo à distância, sempre que sentirmos que precisamos de um tempo para nós. Não necessitamos de viajar para Marte; podemos fazê-lo mesmo enquanto cumprimos as nossas responsabilidades, concentrando-nos em manter o silêncio exterior e interior e voltando-nos para dentro - de forma a ouvir a voz dos nossos próprios pensamentos.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1609
foto: Lee Price

Bigodinho retorcido e olhos malandros



Uma gota de água gelada escorria lentamente ao longo do copo alto de vidro. Aníbal, de bigode negro retorcido, ria-se com gosto e semicerrava os olhos de mafarrico com as piadas atrevidas da menina Ivone; baixinha, roliça, de vestido rodado com flores estampadas e cabelo castanho, era a graça em pessoa. Ai menina Ivone, menina Ivone, você tira-me do sério, ronronava Aníbal. Ela ria-se. As velhinhas na mesa ao lado abanavam os leques com indignação ante a pouca-vergonha que se passava ali, aos olhos de todos, espalhando no ar uma nuvem de cheiro a naftalina e a perfume que já passou o prazo de validade.

Os dois cubos de gelo ficaram a dançar em espirais no copo de Ginger Ale, bebido até meio. De mão dada e passo apressado, Aníbal do bigodinho retorcido e a menina Ivone saíram sem olhar para trás, movidos pelo arrebatamento que urge ser saciado. Um dos leques inquisidores caiu ao chão, fazendo o empregado tropeçar quando se aproximou da mesa para conferir se a conta foi paga. As marcas de batom rosa-quente riam-se provocadoras no guardanapo abandonado.

Ai Aníbal. Ai menina Ivone. Os ais sucediam-se à medida que a roupa lhes ia desaparecendo dos corpos e os dois se entrelaçavam no sofá da sala, aconchegados pela colcha de patchwork onde se manteve enroscado o gato Tareco que viu, aos solavancos, tudo o que a natureza tem de mais cru, belo e escandaloso.

O candeeiro no tecto da vizinha de baixo, que era viúva e muito religiosa, dançava de um lado para o outro. Benzeu-se enquanto suspirou de saudades do falecido, que nunca lhe faltou nos deveres matrimoniais, apesar de ter a mania das limpezas e uma obsessão por números ímpares. Sabia a abençoada senhora que era sempre uma vez, três, ou, em dias de festa, cinco vezes.

No andar de cima, o vestido da menina Ivone tinha voado sobre o abat-jour de franjas, as calças de Aníbal jaziam no chão e os dois tinham percorrido todo o glorioso caminho desde a entrada até às catacumbas da existência humana.

- Sai da frente! Olha para este, deve ter a mania que é taxista em Lisboa.
- Com licença, abram alas, se faz favor.
- Olha lá, eu estava primeiro, julgas que és mais esperto que os outros?
- Os cães ladram e a caravana passa!

E foi assim que o espermatozóide mais rápido passou à frente de todos, porque não parou para perder tempo a discutir.

Trinta anos depois, Frederico - Fred para os amigos - o espermatozóide feito homem, estava a dirigir o seu próprio negócio, uma startup hipster na área das telecomunicações. Aníbal deixou de usar bigode, mas mantinha o mesmo olhar malandro. A menina Ivone, agora de cabelo grisalho e curto, passava as tardes a fazer colchas de patchwork que vendia nas feiras de artesanato por bom dinheiro. E todos eles foram um dia o espermatozóide mais veloz, o vitorioso.

Esta semana, o arcano Seis de Paus recorda-nos o segredo para vencer todos os problemas, batalhas e corridas: não perder tempo a discutir ninharias e seguir sempre em frente, sem olhar para trás!

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1608
foto: Nat Farbman

Perna de porco com batatas


À primeira vista, todas as famílias pareciam equilibradas; sem escândalos, tragédias ou histórias que apenas pudessem ser contadas com voz baixa e olhares furtivos. Nesta farsa sem acordo estabelecido, todos eram coniventes, fingindo acreditar no verniz de normalidade que pintava a vida de uns e de outros. Cada qual sabia das suas vergonhas e lamentos; raros eram os que perdiam o controlo do seu teatro de fantoches onde as roupas assentavam sempre bem e os gatinhos dormiam placidamente à janela.

Com esmero de dona-de-casa caprichada, compunha o napperon de renda branca sobre a tampa da arca congeladora e pousava a couve de loiça Bordallo Pinheiro, lascada mas digna, onde guardava os rebuçados da tosse.

Era uma arca com alguns anos, daquelas horizontais, espaçosas. Postas de pescada para fritar, dois frangos criados pela vizinha do lado, pá de porco, língua de vaca, entrecosto, rissóis de camarão, perna de perú e mais de um terço do marido cortado aos pedaços - embalado em sacos de plástico. Há mais de dois anos que o falecido tinha refrescado as ideias para a eternidade, agora aconchegadas por um pacote de ervilhas congeladas.

Tinha sido um homem rude, grosseiro, de poucas falas e nenhum amigo que lhe sentisse a falta. A moldura com a sua fotografia a-preto-e-branco, de sobrolho franzido e o fato dos funerais vestido, continuava na credência da entrada, como se estivesse a observar tudo.

Em casa, longe dos olhares da vizinhança, costumava descarregar a dor abafada de uma infância desprovida de calor humano na Dona Idalina, que andava sempre de meias até aos joelhos e manga comprida para esconder as marcas. Num desacato que foi longe demais, uma frigideira de ferro voou com a força de muitos anos de revolta silenciada. Parecia obra do Diabo.

Chegou, por macabro engano, a dar um pedaço da coxa do marido à vizinha do lado, como retribuição pelos frangos que de vez em quando lhe oferecia. Esta fez um inolvidável guisado para o almoço de Domingo que toda a família lambeu em menos de nada. Enquanto ensopavam o pão no molho, comentavam: “Há anos que não vejo o Júlio, uma besta daquelas nem merece a mulher que tem.”

Amiga dos gatos abandonados que alimentou toda a vida, frequentadora assídua das missas semanais - quiçá com secretamente culpada devoção - sempre com um conselho de culinária a partilhar com as vizinhas na mercearia, a boa senhora esteve sempre acima de qualquer suspeita. Nunca foi descoberta. A arca congeladora sobreviveu-lhe, assim como a prova do seu crime com que pacientemente conviveu durante mais de vinte anos.

O segredo foi desvendado após o seu falecimento, por idade avançada, pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se quando os gritos de horror ressoaram pela casa. Ainda assim, a Dona Idalina foi sempre recordada com saudade e amizade, não só pelos vizinhos, como pelos gatos da rua que durante anos foram alimentados com deliciosas papinhas de carne picada.

Esta semana, o arcano A Sacerdotisa incita-nos a apurar a sensibilidade intuitiva e procurar ver para além das aparências. Por detrás da capa da normalidade, por vezes escondem-se os mais inesperados segredos. E todos os temos.


Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1607
foto: Anne Taintor

O cabelo na sopa


O menino Ricardinho foi ensinado a não comer de boca aberta. Filho de família de classe média, representava a promessa num futuro cheio de conquistas que os pais falharam em atingir. Compenetrado, sentava-se à mesa de costas rectas como um esparguete e manuseava os talheres com destreza cirúrgica, para inchado orgulho da avó que todas as semanas o levava pela mão a passear nas roupas domingueiras cheia de vaidade, de peito inchado como um perú, para que as outras avós vissem que o seu neto era a mais fina flor, de esmerada educação, fino trato e uma palidez mais alva que o branco-pérola das meias até aos joelhos.

Todas as atenções recaíam no menino que nem o guardanapo deixava cair ao chão. Pelo canto do olho, via o avô palitar os poucos dentes que ainda conservava, enquanto saía um arroto sem pudor nem cerimónia, e voltava a concentrar-se no seu prato, porque no seu universo de água-de-colónia com cheiro a talco e roupa de marca impecavelmente engomada, não havia espaço para a rudeza humana.

O Ricardinho foi crescendo sem abandonar o porte frio e aristocrático até se tornar adulto e acumular títulos académicos conseguidos à custa de muita cábula e copianço. O que importava era o resultado, não os meios para lá chegar - e chegou, ora se chegou. O menino dos papás veio mesmo a representar um cargo autárquico, para deleite dos progenitores, que entretanto ficaram demasiado importantes e cheios de si para cumprimentar os vizinhos.

Nos grandes encontros gastronómicos, o Ricardinho mantinha o mesmo esmero e elegância no manuseio dos talheres, que cortavam pedaços de vitela barrosã com a mesma precisão e argúcia com que cortava o orçamento de acordo com os interesses que melhor o serviam. Todos sabiam que o menino Ricardinho era travesso, mas poucos se atreviam a referir as suas marotices, com excepção de um jornal onde trabalhavam pessoas levadas da breca, honestas e de olho vivo que, ao contrário do menino, não viam o que lhes convinha, mas a verdade nua e sem artifícios.

Para grande embaraço do Ricardinho, certa vez, ao comer uma sopa da pedra, encontrou um cabelo. Discretamente, puxou-o da boca, mas o cabelo era enorme e nunca mais acabava. Quanto mais puxava, mais o cabelo parecia crescer, tornando-se impossível fingir que ele não existia. O vexame foi inevitável. O menino Ricardinho queria abafar o caso, mas ainda assim, a verdade já estava nas bocas do mundo.

Esta semana, o arcano Rainha de Espadas ensina-nos que nem sempre a verdade é devidamente recompensada e raros são os que preservam a ética, mesmo longe dos olhares alheios. Ainda assim, sempre haverá um denunciador cabelo na sopa, onde quer que se coma.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1606
foto: "Portrait of a boy", Kurt Günther

A bofetada que nos falta


Boa tarde, então, como vai isso?, perguntava a mulher de avental debotado, lábios frios e secos que não eram beijados com lascívia há mais de vinte anos e cabelo curto. Na alcofa, trazia o pão ainda quente e um pacote de farinha para as pescadinhas-de-rabo-na-boca que ia fazer para o almoço.

Olhe, vai-se andando, cada um com a sua cruz, respondia a vizinha, carregada pelo preto das roupas que cheiravam a mofo, de cabelo impecavelmente apanhado num carrapito e um saquinho da farmácia com remédios para os nervos.

Todos os dias era igual. Vivia-se a preto e branco - na televisão e fora dela. Aguentava-se com discrição os açoites, abusos, insultos e toda a crueza da vida, não esperando que esta pudesse alguma vez vir a ser mais do que isso. A gratidão era um dever moral inquestionável.

Podia-se ser espezinhado no emprego pelo chefe, mas estava-se grato pelo ordenado ao fim do mês e pelo bacalhau que este oferecia pelo Natal. Podia-se ser uma criada sem ordenado a vida toda, trabalhando de Sol a Sol para manter a casa limpa, a roupa lavada, os miúdos educados e as refeições na mesa a horas certas, enquanto o homem ia para a taberna beber copos-de-três até chegar a casa a arrastar os pés. Mas estava-se grata por ter uma casa e um marido.

Cada um aguentava à sua maneira, calava e engolia sapos do tamanho de paquidermes. Ninguém gosta de admitir, mas a verdade é que, de um modo geral, somos uma cambada de frouxos.

Acomodamo-nos às circunstâncias mais frustrantes e pouco dignificantes que alguma vez pudéramos imaginar. Por esse motivo, prevalecem casamentos de décadas onde já nada existe senão ressentimento, rotina, obrigações e uma imagem a manter; empregos onde se faz o mesmo de sempre, mecanicamente, com a mesma expressão azeda e lívida emoldurada por olheiras escuras. Somos campeões em aguentar. Precisamos de ser severamente esbofeteados para que o sangue nos suba às faces e volte a circular livremente, trazendo vida a este corpo meio inerte pelo hábito continuado e anestésico.

Esta semana, o arcano O Julgamento mostra-nos que os momentos de crise e de tensão podem ser, justamente, a oportunidade que precisávamos para nos libertarmos dos ciclos viciosos onde nos deixámos capturar.

Um dia, o homem dos copos-de-três disse que ia comprar tabaco e nunca mais voltou. Deixou o emprego, assumiu a homossexualidade e foi viver com um taxista de bigode farfalhudo. Passou a conduzir o táxi e não voltou a beber.

A mulher do avental debotado teve um caso amoroso com o homem da peixaria, deixou crescer o cabelo, passou a usar batom vermelho e nunca mais cozinhou. A do carrapito e roupa preta recebeu ordem de despejo da senhoria e deixou os fantasmas para trás, indo viver com a filha para o país dos cangurus, onde passou a usar roupas com padrões garridos depois de conhecer um viúvo numa festa local.

Quando a vida nos dá uma bofetada, digo, uma segunda oportunidade para sermos felizes, temos pavor dela como um pássaro que passou a vida toda em cativeiro receia voar fora da gaiola. Podemos abrir a porta da clausura e devorar a liberdade. Ou deixamo-nos ficar como estamos, arrumadinhos como um par de sapatos velhos que já não dançam no baile.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1605
foto: Anne Taintor

Pequenos rituais para fazer em Samhain


A caixa de correio da Casa Claridade está a transbordar de mensagens a pedir sugestões de rituais simples para fazer durante a noite de 31 de Outubro. Ora, para quem deseja celebrar:

Queima de pedidos
Acendem-se duas velas, uma branca e uma preta, e coloca-se cada uma dentro de um caldeirão (ou noutro recipiente qualquer, caso não tenha caldeirões). Cada pessoa recebe dois papéis. Num, escreve o que deseja conquistar ao longo do próximo ciclo. No outro, escreve aquilo que deseja deixar para trás. Dobram-se e queima-se na vela branca o papel onde se escreveu o que se deseja conquistar, e na vela preta o que se deseja abandonar.

Honrar os ancestrais
Nesta época em que a ligação com os mundos subtis se encontra mais estreita, é da tradição colocar na mesa de jantar um lugar a mais e servir um prato para os ancestrais.

Acender velas à janela
Com o devido cuidado para não incendiar as cortinas, podem acender-se velas e colocar no parapeito da janela ou na varanda para iluminar o caminho das almas que partiram e para oferecer essa mesma luz aos nossos ancestrais que viajaram para o outro lado do véu.

Fazer uma trança da bruxa
A trança da bruxa faz-se com 3 cordas ou fitas nas cores que representem o desejo que se pretende formular. Enquanto se entrançam as fitas (ou cordas) podem entoar-se mantras, palavras de poder, verbalizar o desejo baixo, cantar, ou simplesmente guardar silêncio e concentração absoluta no pedido. A trança, uma vez finalizada, pode ser pendurada na cozinha ou noutro lugar mais reservado da casa.

Consultas de oráculos
Aproveitando a existência de uma comunicação mais clara com os planos subtis, que aguça as capacidades intuitivas e propicia as respostas vindas de muito longe, fazem-se leituras de Tarot onde se recebem orientações para o ciclo que se inicia.

Cozinhados mágicos
Cozinhar como um ritual mágico, dizendo baixinho encantamentos enquanto se mexem e adicionam os ingredientes. Nesta época, são da tradição o vinho quente com flores, frutas e especiarias, bolinhos e sopa de abóbora, cidra de maçã, hidromel, tarte de maçã, maçã assada.


A todos os que acompanham a Casa Claridade, os meus desejos de maravilhosas celebrações.

Hazel
foto: Kristina Paukshtite, licença CC0

O raio que os parta


Os relâmpagos desenhavam-se com assombro por uma mão imponente, invisível e absoluta, como raízes de luz e patas de aranha que rasgavam o veludo negro do céu nocturno. Em frente à janela de vidros embaciados onde o seu dedo tinha estado a contornar bonecas em vestidos compridos, Isabel sustinha a respiração.

Antigamente, abria-se sempre uma janela quando trovejava, murmurava a avó com a gravidade de quem recorda a aparição de um fantasma cujo reflexo nunca desapareceu dos seus olhos, como se tudo ainda estivesse a acontecer naquele preciso momento, corroborado pelo uivo do vento frio que se esgueirava através das frinchas das janelas de caixilharia velha.

Dentro da sua cabeça, que produzia zumbidos nos ouvidos, catástrofes naturais, vozes conspiradoras e doenças que não existiam, o bom-senso não tinha permissão para entrar e traçar limites. Todo o cosmos morava nos seus pensamentos.

Quando as lendas são mais antigas que todas as pessoas no mundo, assumem proporções bíblicas. Acredita-se nelas quando se é criança, e perduram ao longo de toda a idade adulta, porque os que viveram antes de nós também acreditaram. Alguns poderiam mesmo jurar tê-las vivido, de tão entranhadas sob a epiderme da memória colectiva.

Isabel sentia alívio pela existência de um pára-raios na vizinhança que dispensava a necessidade de abrir uma janela por onde um hipotético relâmpago pudesse sair, sem, contudo, reparar que alguém que não confiava na tecnologia moderna tinha discretamente entreaberto a porta de alumínio nas traseiras da casa.

Contava a velha lenda que numa noite de trovoada um raio entrou pela chaminé de uma casa, foi percorrendo todas as divisões, fazendo ricochete nas paredes como um demónio à solta e, como não encontrou uma janela aberta por onde pudesse sair, acabou por destruir a casa e matar toda a família. Naquele tempo, as lendas, relatadas por vozes idosas e trémulas, tinham tanto de assustador quanto de fatalista.

Nem sempre as paredes das casas se conseguem manter unidas, quando não existem alicerces suficientemente sólidos para sustentá-las. Isabel levou uma vida inteira até perceber, quando os cabelos brancos lhe começaram a despontar como relâmpagos na sua cabeleira cor de azeviche, e chegou a sua vez de passar o legado de deslumbres e assombros aos que observavam as noites de trovoada de olhos arregalados, que a janela aberta para o raio poder sair era uma metáfora para a possibilidade que não devemos negar a nós mesmos de recomeçar sempre que as nossas crenças e objectivos caem por terra.

O arcano A Torre irrompe através do nevoeiro como um clarão inesperado que revela as fraquezas para que possamos enfrentá-las em vez de ignorá-las. As vicissitudes podem ser exactamente a oportunidade que precisávamos para abandonar conceitos ultrapassados e ter a possibilidade de evoluir para um novo paradigma. Basta que tenhamos a coragem de abrir uma janela no momento certo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1604
Foto: Pat Brennan

As palavras-cruzadas fazem-se até ao fim


Junto ao lago, o dia amanhecia em tons de azul-aguarela pincelados aqui e ali a dourado pela copa das árvores que começavam a perder as folhas. O cheiro a café invadia a casa sem pedir licença e o rádio tocava baixinho para não se sobrepôr às boas-novas trazidas pelos pássaros.

Na mesa de madeira velha, o jornal ficava aberto na página das palavras-cruzadas, que eram preenchidas com silenciosa satisfação pela filha mais nova depois de todos terem lido os crimes, as falcatruas, o horóscopo e as últimas do desporto. Um aroma antiquado a after shave de lavanda impregnava subtilmente as páginas recém-folheadas pelo homem de olhos amendoados e tristes, camisa xadrez e um pedaço de papel higiénico colado no queixo para estancar o corte da barba feita à pressa.

Cada um cumpria a sua rotina sem reparar nela, perdido dentro de si próprio e desligado dos outros à sua volta. Abílio sonhava com um milagre, uma lotaria que lhe permitisse não ter mais de trabalhar, para a qual nunca comprava bilhete, por achar um desperdício de dinheiro. Anotava contas mirabolantes num caderno seboso, onde destinava a meia dúzia de pessoas de quem gostava uma parte da fortuna imaginária, e escondia-o com vergonha no fundo da gaveta das peúgas e camisolas interiores.

Um dia, Josefa, a mulher, à procura de meias gastas para passajar com um ovo de madeira e muita paciência, encontrou o caderno. Não percebendo os apontamentos codificados e receosa de admitir que os tinha lido às escondidas, atafulhou as meias na gaveta e disparou aflita para casa da irmã, pensando que o marido tinha contraído uma grande dívida e a andava a enganar.

A irmã, que sempre fora distante e ciumenta, comprazeu-se intimamente da sua dor e deixou-a sentada sozinha, lavada em lágrimas que jorravam em torrentes como se o próprio lago escoasse através dos seus olhos.

O lago espelhado acabou por desaparecer com a construção de uma auto-estrada que viria a ser o começo do fim. Abílio deixou de comprar o jornal. O mundo lá fora cessou de existir quando a reforma antecipada chegou como um presente envenenado enquanto cuidava de Josefa, que ficou doente e se preparava para a derradeira viagem.

A auto-estrada, que servia para facilitar as deslocações, tornou-as demasiado rápidas para o bem de todos e, aos poucos, cada um se foi embora para nunca mais voltar à casa do lago, que tinha passado a ser uma casa vazia e assombrada. O jornal ficou para sempre aberto sobre a mesa do pequeno-almoço na página das palavras-cruzadas. Faltava apenas uma palavra para completar o quadro. Linha dez, horizontal. Quatro letras. Sinónimo de sentimento, começava por A, acabava em R. Nunca foi preenchido.

Tinham sido, ainda que inconscientemente, quase felizes, à sua maneira remendada e remediada. Incapazes de preencher o vazio que lhes atormentava silenciosamente a alma, viviam com meio coração apenas, e aquilo que deram uns aos outros foi a metade vazia, quando poderiam ter dado a metade boa.

O arcano Nove de Copas surge como um velho conselheiro que, numa voz paciente e sábia, pergunta se alguma vez estaremos realmente satisfeitos. Ele não espera resposta. Vira-nos as costas e caminha rumo ao pôr do Sol, deixando-nos entregues ao nosso poço sem fundo de onde brotam os desejos que nos atropelam a saciedade. Queremos tanto ver este poço transbordar, que desvalorizamos os copos de água que ele nos traz - porque achamos que é pouco. E a sede nunca passa.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1603
foto: Matti Decaux

Plano de fuga da loiça por lavar


Quando me distraio, perco-me dentro de mim. A última vez que tal aconteceu, foi enquanto lavava a loiça. Abençoada distracção, que me salvou dos restos de molho de tomate ressequido colado no fundo do tacho. Enquanto as minhas mãos, lá longe, esfregavam com o lado verde da esponja em movimentos circulares que corriam contra o sentido dos ponteiros do relógio, o resto de mim caminhava de pés nus por um longo corredor cheio de portas dos dois lados.

Todas entreabertas, à espera que eu escolhesse uma para entrar. Talvez noutra ocasião.
O corredor parecia estender-se infinitamente à minha frente. Uma passadeira de cor verde-seco crescia e serpenteava como uma língua de musgo fofo, abafando o som dos meus passos.

Subiam trepadeiras como braços que ondulavam e beijavam em silêncio as paredes antigas.
O ar quase se liquefazia, fresco, húmido e doce como a manhã a nascer junto de uma fonte de água corrente. Suspensos no tecto, os candelabros cintilavam como silfos luminosos.

Não queria que aquele corredor acabasse e, ao mesmo tempo, ansiava por descobrir que deslumbres encontraria no fim. Sobre a minha cabeça voavam passarinhos pequenos e coloridos, que me acompanhavam em bando e uma coruja branca, que pousou no meu ombro e falou:
- Então, não fechas a torneira?
- Então, não fechas a torneira?
- Então, não fechas a torneira?

Surpreendida com a inesperada pergunta, virei o rosto, e era o meu filho com o pano da loiça aos quadradinhos à espera que eu acabasse de passar o tacho por água.

Hazel
foto: Peter Oswald, licença CC0

Jardinar como um verdadeiro jardineiro


Observar um jardineiro a trabalhar é um verdadeiro tranquilizante natural, uma panaceia para os sobressaltos que nos chocalham a paz de espírito. Nos jardins municipais, eles são quase invisíveis, vestidos de farda verde como se fossem uma discreta e respeitosa extensão da natureza circundante - e são-no, deveras. 

Espelhada no seu rosto, a doce e serena ausência de quem viaja ao sabor do vento em pensamentos enquanto as mãos se fazem dotar de vida própria cortando folhas secas e atando os ramos verdes-claro, ainda tenros, às estacas que lhes guiam e orientam o crescimento - como um paciente mas firme professor que ensina o caminho ao aluno. 

É apaziguador contemplar a forma como os jardineiros aconchegam a terra húmida à volta das raízes da alfazema replantada no fim da Primavera, como quem prepara a cama de um bebé e lhe compõe os cobertores para que não apanhe frio nas costas. Raramente os vejo correr no cumprimento das suas funções. Um dente-de-leão não tem pressa de ser arrancado. Pode ser agora ou daqui a duas horas; não vai fazer diferença. E está certo assim. O imediato é inútil e irrelevante no crescimento de um jardim. Que o diga a hera, constante, lânguida e sinuosa.

Eles, os cuidadores do verde, sabem que tudo leva o seu tempo e, mesmo assim, esse tempo pode até nunca chegar. Afinal, uma planta pode acabar por nem medrar. De nada adianta tentar pressioná-la para que brote mais depressa e para que dê frutos. Semeia-se com a fé na mão esquerda e o desapego na direita. Sabe-se colocar a semente na profundidade certa e na exposição solar mais favorável. Rega-se, aduba-se, cuida-se. Faz-se o melhor que é possível fazer e depois o resto é com a Natureza. É ela, senhora soberana do compreensível e do inatingível, que dá o veredicto final.

Saber esperar é uma virtude rara e imensamente admirável que os jardineiros, possuidores de sabedoria forte e telúrica como raízes de cedro, dominam com mestria. Tudo se deve fazer no momento certo para ser feito. E depois espera-se enquanto se cuida, e cuida-se enquanto se espera, sem que se dê pela espera a decorrer.

Esta semana, a carta Valete de Ouros inspira-nos a colocar as mãos na terra e a sermos jardineiros da nossa própria vida. Sem ceder a pressões. Sem dar um passo maior do que a perna. Sem necessitar que alguém nos motive. Trabalhando em harmonia com o todo, para um propósito concreto, mesmo que não saibamos se esse objectivo alguma vez será atingido.

Como um jardineiro, temos de semear, cuidar, nutrir, aprender a arte da paciência, e esperar pelo melhor. Se tudo correr bem, colheremos os frutos um dia, quando o tempo certo chegar. Senão, livramo-nos dos ramos secos, e voltamos a plantar - quando regressar a Primavera.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1602
foto: Foundry, licença CC0

O que querem as mulheres?


Ao longo de séculos, as mulheres lutaram ferozmente para ter o direito de usar calças, fumar, tomar a pílula anticoncepcional, trabalhar fora de casa, ser promovidas nas empresas, votar, entrar no mundo da política, ter poder de decisão.

Queimaram soutiens, andaram à tareia, insultaram e foram insultadas.
E conseguiram - nos países considerados civilizados, bem-entendido.

As mulheres quiseram poder fazer tudo o que os homens fazem e, de preferência, de forma mais criativa e arrojada. Quiseram mostrar-se mais capacitadas, melhores que os homens em todos os aspectos, num compreensível exercício eufórico de liberdade com retroactivos, para compensar séculos de opressão patriarcal.

Ainda que haja aprimoramentos a fazer, a igualdade foi conquistada.
O rótulo do sexo fraco foi arrancado com revolta e despedaçado.

Excepto quando uma porta se abre. Nesse caso, os homens continuam a ceder passagem às mulheres para que estas entrem primeiro. Somos iguais, mas vocês, os portadores penianos, entram a seguir. Tomem.

Ou, se houver poucos lugares sentados, são os homens que continuam a ter de prescindir do conforto em prol das mulheres, mesmo que estas não sejam idosas, grávidas ou tragam uma criança de colo. Também em caso de catástrofe, são as mulheres as primeiras a ser resgatadas.


Os homens já não sabem o que fazer connosco. Estão confusos.
Afinal, o que queremos nós?


Não posso responder pelas outras. Falando apenas em meu nome, quero poder usar calças, votar, ter poder de decisão, trabalhar fora de casa, ser promovida.

Continuo a usar soutien em declarado e empinado protesto contra a lei da gravidade.
Quero também ser salva primeiro em caso de catástrofe. E entrar à frente nos edifícios, especialmente se for para ir às Finanças, que está sempre uma grande fila para tirar senha.

Se ninguém se importar nem levar a mal, eu quero tudo.

Desculpem, homens!

Hazel

Procura-se aranha viajante


CENTRO DE EMPREGO DAS ARANHAS
Anúncio afixado na Delegação da Sala - Canto da Parede Junto à Janela

Procuro:
Aranha aventureira e leal, com total disponibilidade para viajar curtas distâncias.

Ofereço:
Estadia no espelho lateral esquerdo do meu carro, música de boa qualidade (tenho sempre um duplo álbum dos The Doors no porta-luvas e, ocasionalmente, também lá canta o Bryan Ferry) e alimentação diversificada consoante o tipo de fauna que esvoaça nas localidades onde nos iremos deslocar.

Funções:
Deverá conhecer todos os meus caminhos, desvios e atalhos; saber guiar-me nas encruzilhadas e antever engarrafamentos. São valorizadas capacidades de orientação a estacionar em lugares apertados. Terá de suportar com heróica bravura ouvir-me cantar quando viajarmos sozinhas (os ouvidos humanos não possuem, lamentavelmente, imunidade para a minha voz).

Desafios da profissão:
Não poderá enjoar nas viagens de automóvel, nem ter propensão a ficar com a garganta inflamada devido às correntes de ar (é permitido usar cachecol, mas não muito comprido - vd. o caso da bailarina irlandesa Isadora Duncan).

Terá de ser resistente e musculada, com uma capacidade de sobrevivência superior à da sua antecessora, a minha saudosa companheira que era um autêntico sidecar aracnídeo, mas, infelizmente, não sobreviveu na última ida à lavagem automática (o risco é moderado, pois apenas lavo o carro uma, ou, no máximo, duas vezes por ano - e este ano já foi lavado).

Lidará diplomaticamente com comentários desmotivadores ocasionais, de pessoas que não compreendem os perigos, a emoção e o valor da profissão de aranha-viajante, que poderão por vezes viajar comigo e exclamar algo como: "Que nojo, já viste a teia-de-aranha que tens aí no espelho? Tens de limpar isso, dá mau aspecto."

Compreenderá sem ressentimentos que seremos amigas íntimas, porém, sem qualquer contacto físico. Viveremos uma relação platónica, embora de grande fidelidade.

Regalias:
Comprometo-me a não danificar as instalações aracnídeas, vulgo, teia-de-aranha.

É permitido constituir família, desde que as crias se mantenham na teia e não andem a fazer sapateado no interior do carro.

Será autorizada a dizer adeus às outras aranhas que viajam nos espelhos dos outros carros, conversar com elas quando pararmos na fila de trânsito e ter uma vida social preenchedora.

O meu carro é um carro onde se canta. Assim, a aranha que me acompanhar terá permissão para cantar os clássicos das viagens de autocarro, como "Aguarrás, aguarrás..." e outros êxitos semelhantes.

O vernáculo é permitido, aliás, dentro do meu veículo é considerado 'terminologia técnica' à qual se recorre, seja para fazer referência à condução alheia, seja para fins terapêuticos de alívio da tensão emocional.

Perfil:
A aranha que viajar comigo será mais que um mero co-piloto. Será uma companheira de aventuras, uma amiga, uma conselheira, um oráculo animal, e terá da minha parte toda a consideração e reverência dignos do mais nobre e fino corcel.

Poderão enviar por email os vossos curricula com nome, cartas de referência provenientes de outras aranhas mais experientes e indicação dos três últimos espelhos de carro onde viajaram.

Expectante das vossas respostas,
Uma viajante solitária,

Hazel
Foto: Efraimstochter, licença CC0

Tudo sob perfeito (des)controlo


Somos inocente e deliciosamente chatos e previsíveis. Faz-se planos para o futuro. Decide-se o que vai ser o jantar de logo à noite, que se põe dentro de uma travessa no lava-loiças para ir descongelando à temperatura ambiente. Planeia-se e reserva-se as férias do Verão com uma antecedência quase deprimente, porque ficam francamente mais baratas.

Escolhe-se a roupa para vestir na manhã seguinte com uma capacidade infalível de previsão meteorológica, digna do Anthímio de Azevedo. Sonha-se com o dia em que finalmente se consegue demonstrar aos sacanas que nos deitaram abaixo quando mais precisámos deles que, afinal, até conseguimos fazer alguma coisa de jeito da vida. Planeiam-se até os dias sem planos. Temos tudo controlado até ao momento em que percebemos que tudo isto está sustentado por fita-cola, cuspo e um clip.

O tapete é-nos puxado debaixo dos pés quando menos esperamos. Mas qual jantar, quais férias, qual dia seguinte, quais sacanas. Que cegueira é esta em que nos encontramos, sempre a planear o futuro, sempre a viver mais à frente, sempre a querer estar um passo adiante do espaço que ocupamos, desfazados do tempo, de nós mesmos e dos outros. Para quê a pressa, se, no fim, façamos o que fizermos, acabamos por ir todos parar ao mesmo lugar - e, no entanto, ninguém para lá quer ir.

Assassinámos a espontaneidade a sangue-frio, e tenho cá para mim que os contratempos inesperados, que nos surgem quando menos jeito dão, são o fantasma da dita que nos puxa o pé no momento em que vamos subir para a cama, para ajustar contas connosco.

Esta semana, a carta Cavaleiro de Espadas surge-nos repentinamente como um vendaval gelado num dia que se vislumbrava cálido e estival. Ninguém estava preparado para ele, todos são apanhados de surpresa, e é bem feita para aprenderem a viver o presente e para perceberem de uma vez por todas que ninguém controla nada. Há quem lhe chame lei de Murphy. Poderíamos também chamar-lhe “abre-olhos”, por nos enraizar e devolver a humildade que havíamos perdido nos atropelos do ego.

É um tormento a incerteza de não saber o dia de amanhã. Por outro lado, sabê-lo amolece-nos a capacidade de estar alerta, de debater-nos pelos nossos ideais.

Se a ignorância nos incita a estender as asas e a aguçar os sentidos para encontrar alimento para o corpo e para a alma, o conhecimento antecipado oferece-nos o conforto flácido - e frígido - de um sofá que se afunda quando nos sentamos, como se nos engolisse. Quanto mais nos enterramos nele, mais camaleonicamente iguais a ele nos tornamos -  até sermos salvos pelo fantasma da espontaneidade, mascarado com a capa dos imprevistos que nos trocam as voltas, que nos toca à campainha de casa para despertar-nos deste sonho em que nos imaginamos seguros e arrumados - como um par de sapatos velhos.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1601
Foto: Sandro Giordano

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Amar o Amor


Calem-se os violinos sensíveis e agudos acariciados por longos dedos magros, hábeis e draculinos que tangem sonhadores os deslumbres do romantismo. Poupe-se a beleza perfumada das rosas vermelhas ao sacrifício acutilante do amor que, de tesoura em riste, se sobrepõe egoisticamente aos desígnios da Natureza.

Repouse placidamente a caneta de aparo do poeta sôfrego sobre as folhas de papel branco, virgens de tinta, imaculadas de palavras vãs. Arrumem-se os sapatos de dança de camurça azul, roçados uns nos outros em promessas, insinuações, avanços e recuos de arrojo libertino.

Creio que o amor está gasto. Tudo o que houvesse a ser escrito sobre o amor, já foi amplamente redigido em prosa, poesia, hieróglifos, sinais de fumo, emojis e corações entalhados a navalha nos troncos das árvores. Já se fizeram todas as demonstrações insensatas, insanas e até mesmo ilegais de tão grande sentimento que nem já o mundo tem espaço que chegue para albergá-lo; estendendo-se para além da estratosfera, inundando miríades de estrelas salpicadas no céu - as mesmas para onde lançamos desejos secretos nas noites quentes de Verão.

Já se arriscaram e exploraram todas as definições do amor para explicá-lo àqueles cuja euforia apaixonada deseja elucidar, entretecendo palavras, ideias, fantasias e desvarios. Nada mais há a dizer, a demonstrar, a provar, a classificar. O amor está dito. E feito. Catalogado, esquadrinhado, analisado micro e macroscopicamente. Tudo o mais é-nos redundante e indutor de náusea por excesso de sacarose.

Esta semana, das brumas misteriosas do acaso, surge a carta Ás de Copas, trazendo a ambiciosa missão de inspirar-nos a encontrar novas formas de amar e de viver o amor. Pelos mamilos de Afrodite!, exclamei, justificadamente, ao vê-la.

Perguntei ao amor que poderia eu, uma comum mortal que não descende de Fernando Pessoa, nem tão-pouco de poeta algum, escrever que pudesse inspirar os bons olhos que lêem estas palavras a amar mais e melhor. Estupefacta pela assertividade da resposta, ei-la: o amor manda dizer que está cansado de andar nas bocas do mundo - e longe dos corações.

Que se ame e mais nada. Sem um poema polvilhado de açúcar pilé, sem uma flor arrancada e embrulhada em papel celofane cor-de-rosa com um laçarote pomposo, sem uma melodia gulosa e sedutora a acompanhar, sem a lascívia de um passo de dança a insinuar volúpias por desvelar.
Simplesmente, ame-se. Pois o amor é a estrada que se percorre e não o veículo que se conduz.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1600
Foto: Pixabay Free Images, licença CC0

A-das-três-mamas


Os meus olhos curiosos esgueiravam-se sorrateiramente como um gato vadio pelo muro caiado do seu quintal. Às vezes, via-a de relance. Bruta, carrancuda, zangada com o mundo e todos os seus habitantes - em particular, os que moravam perto de si. A língua da vizinhança era viperina. Cochichavam as alcoviteiras à boca pequena que a antipática mulher tinha três mamas.

Ninguém gostava dela. No percurso desde a escola até casa, era-me inevitável desviar o olhar, ainda não domado pela hipocrisia dissimulada das conveniências sociais. A volumosa e rotunda senhora de buço escuro e sobrolho carregado ignorava-me sempre. O nome da rua onde morava fora esquecido por todos, ainda que permanecesse legível na placa de mármore encardida pela passagem do tempo. Para aquela gente, era “a rua da-das-três-mamas”.

Estariam em fila? Será que colocava a terceira arrumada junto com a da direita no soutien, ou com a da esquerda? Ou iria alternando? Seriam todas do mesmo tamanho? A minha curiosidade era desprovida de leviandade, mas crua e sincera.

A boa mulher criava galinhas e vendia ovos, mas as vizinhas deixaram de lhos comprar, porque, enfim, ela tinha três mamas e ninguém gostava disso. Talvez tivessem medo que a mama extra fosse contagiosa e se pudesse pegar através dos ovos. Nesse ano, falecia o António Variações de uma doença então desconhecida, e as pessoas andavam acometidas por medos medievais.

Ainda gaiata demais para ter tido tempo de aprender a palavra preconceito, mas já uma observadora silenciosa, interiormente sentia que era errado o azedume das pessoas. Creio que gostava da intrigante senhora porque era solitária e forte, uma espécie de heroína em terra de vilões que, em vez de capa e espada, tinha uma mama extra.

Compreendia, ainda que de forma inconsciente, a sua atitude defensiva, e não tive dificuldade em discernir que o mundo pode ser um lugar cruel sem razão plausível - alguma vez a haverá? - e que as pessoas se podem tornar velhacas umas para as outras, não porque as outras o mereçam, mas porque precisam de alguém vulnerável em quem aliviar os seus amargores.

Recordo-a por oposição às mulheres actuais que vêem o mundo sob um longo e insinuante toldo de extensão de pestanas, agarram a vida com unhas de gel e sentem o vento através do cabelo alisado a ferro quente sem que este se despenteie, permanecendo impecavelmente alinhado. Espartilhadas dentro de cintas adelgaçantes como bonecas saídas de uma linha de montagem concebida para lhes remover a identidade. Perfeitas, idênticas, sem poesia.

Esta semana, a carta Cinco de Paus leva-nos a observar a celeridade com que nos revoltamos com os outros quando são desagradáveis connosco, sem fazer um esforço para perceber os seus motivos. É certo que ninguém tem o direito de maltratar outros porque a vida lhe foi ingrata, contudo, se devolvemos bílis a quem no-la oferece, acabamos por tornar-nos iguais ou mesmo piores que o alvo da nossa censura, alimentando um ciclo destrutivo que nunca mais termina.

Recordo a-das-três-mamas com respeito e nostalgia. Sinto-me humilde perante uma mulher que aguentou com dignidade a crueza de uma vida inteira de marginalização. A fealdade não existe quando é amada. Torna-se um poema triste, doce e belo. Ainda que escrito em prosa.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1599
Foto de Miguel Pires da Rosa, licença CC2.0

Manual do Terapeuta New Age


Se és terapeuta, não podes beber  imperiais, panachés, vinho carrascão e ainda menos shots.
Bebes sumos detox com folhas de couve, de cor verde-vómito. Ou leite de amêndoas.

Comes muito pouco. Essencialmente, alimentas-te de prana, quinoa, bagas goji, tofu e sementes de periquito. És vegan, intolerante à lactose, ao glúten, ao açúcar e a todos os que não comem o mesmo que tu.

Não cobras um preço pelo teu trabalho, mas pedes uma "troca de energia", que é opcional - porque vives de esmolas e não podes tocar em dinheiro. O que significa que pagas a renda de casa, água, electricidade e gás com amor. E o teu senhorio aceita, claro. Assim como a EDP, companhia do gás e da água. Eles compreendem.

Não usas anéis de ouro, mas um anel Atlante. Tens um candeeiro de sal dos Himalaias na tua sala, onde também existe um pano pendurado com uma mandala indiana.

Vives num estado de permanente felicidade, desapego e luz. Nunca te zangas. No caso de seres mulher, não tens TPM e não usas pensos higiénicos nem tampões, mas copos menstruais de cores fofinhas. E todos têm de saber. Achas que todos os devem usar, até os homens - eles que arranjem maneira de os enfiar em algum lado.

Não ouves Marilyn Manson, AC/DC ou Metallica. Ouves Enya, Snatam Kaur e cânticos tibetanos.
Não fazes headbanging. Fazes danças devocionais. E tens uma tatuagem do infinito no pulso, no tornozelo ou na parte de trás do pescoço.

Saúdas aquele outro terapeuta que assume trabalhar em troca de dinheiro com "Namasté", mas no fundo achas que ele é um filho-da-puta garganeiro.

Não podes ter relações sexuais sem que estas sejam uma experiência tântrica, sagrada, higiénica e profundamente religiosa com visões de deusas indianas de oito braços (que se multiplicam em milhões de possibilidades eróticas).

Um terapeuta new age não diz palavrões. Entoa mantras.
Não faz manguitos nem piretes. Faz mudras.
Não tem dores de cabeça. Tem os chakras bloqueados.
Não deseja mal a ninguém. Só invoca a lei do retorno tríplice e deseja "muita luz".
Não tem vida pessoal. Existe apenas para servir os outros.
São os teus mandamentos.

Conduzes um carro emprestado - porque não podes ter bens materiais - que tem um autocolante a dizer "Free Tibet" ou com o símbolo do OM.

Sabes sempre quando Mercúrio está em movimento retrógrado e culpa-lo pelas chatices que arranjas por seres um desbocado que fala mais do que deve.

Tens um nome espiritual diferente do nome civil. Como Shiva, Angel, Brunhild, Nefele, Rainbowsoul, Epona, Ronan, Hazel, Shakti, Ariadne, Freya, Selene, Ísis, Innuit e outros.
Dizes que fazes "canalização", mas não sabes mudar a borracha de uma torneira que pinga.

Não passas uma tarde refastelado no sofá. Passa-la sentado em posição de lótus no zafu que compraste online a meditar sobre as origens do Universo e os seres interdimensionais.
Não vês filmes de acção. Vês documentários sobre como descalcificar a glândula pineal.

Ficaste danado comigo pela caricatura que fiz de ti (de nós), mas no fim acabas por ter de me perdoar. Porque um terapeuta new age perdoa sempre. Ahah!

OOOMMMM,

Hazel

A senda da cenoura


Quem é que vai ganhar com o esforço que fazes todos os dias para chegar exactamente às nove em ponto ao trabalho, e não às nove e cinco? Não podes falhar. Dá o teu melhor. Chega a horas. Não basta fazer, tens de mostrar que fizeste. Diz bom dia aos vizinhos. E aos colegas. Paga a renda de casa a horas. Muda a correia de distribuição ao carro, olha que já passaste o limite.

Vê o noticiário, tens de saber o que se passa no mundo. Veste a camisola de malha vermelha na consoada. Põe menos açúcar no café. Bebe mais um, vais precisar da cafeína. 
Corre, corre! Tu és um cavalo de corrida!, já diziam os UHF. Todos esperam tudo de ti, e tu viras-te do avesso para mostrar que consegues.

Nem por um segundo páras para te questionar porquê, para quê. Foi assim que foste programado desde que nasceste, para ter um emprego bem sucedido, morar na melhor casa possível, ter uma arvorezinha ambientadora de aroma a pinho pendurada no espelho retrovisor do carro, e uma mulher que te faz um jantar isento de glúten, porque agora todos passaram a ser intolerantes e tu não te podes ficar atrás.

Vives como um burro de pescoço esticado para a frente, deixando um rasto de bosta atrás de ti que não vês - nem cheiras - porque estás muito concentrado em alcançar a cenoura à tua frente. Levas em cima do lombo o peso da vaidade de todos os bens materiais que acumulas, reconhecimentos e honrarias. Pelo caminho cruzas-te com outros burros, uns com uma carga menor que a tua, outros com carga maior. Cada um atrás da sua cenoura.

Julgas que vais viver para sempre; estás convencido que ias ser o burro, digo, o homem mais velho do mundo e destronar o indiano com três metros de cabelo enfiados num turbante, que tem mais de cento e trinta anos e passou os últimos dez na mesma asana

Mas quando tudo se vira de pernas para o ar e a tua hora chega, já só vês as vezes em que não amaste, os abraços que podias ter dado se não tivesses sido orgulhoso, a paz de que abdicaste porque preferiste degladiar-te para provar aos outros que tinhas razão, e nem assim os conseguiste convencer. Percebes que a tão desejada cenoura era uma ilusão, assim como a razão, a casa, o carro, o emprego, e tudo o resto.

Seria um castigo divino deliciosamente irónico se o paraíso fosse uma planície a perder de vista cheia de ervinhas verdes e milhões de ramagens de cenouras - biológicas, obviamente - que bastaria puxar da terra. Mais nada nem ninguém, a não ser a tão desejada cenoura. 
Ah, betacaroteno. Ad nauseam.

A carta Roda da Fortuna recorda-nos que num instante tudo pode mudar. Ninguém está seguro. Na incerteza do futuro, a única garantia que existe é de que tudo e todos estão connosco por empréstimo. E por tempo limitado. Podemos reformular a qualquer momento as nossas prioridades, fazer escolhas diferentes, regressar ao nosso centro, focar-nos no que verdadeiramente importa. Ou passar a vida inteira atrás das cenouras.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1598

Saber as linhas com que se cose


As mulheres que costumam coser roupa são mais corajosas que as outras. Pelas suas mãos, nascem caminhos, rectas, curvas e contracurvas feitos de linhas de várias cores e espessuras, ora a direito, ora em ziguezague, ora em ponto caseado. Fazem e desfazem, cortam, cosem, descosem, medem e alinhavam. Voltam a coser, mas ainda não está bem. Às vezes, desmanchar leva mais tempo que fazer. 

Os pensamentos voam soltos ao compasso da máquina de costura, deixando um rasto feito de pontos que mergulham e emergem no tecido como um nadador olímpico que nunca mais chega ao outro lado da piscina. Cada ponto guarda a memória de um pensamento que não foi dito por palavras, mas por linhas. Cada bainha retém um suspiro de cansaço.

Creio que ninguém conhece tão bem o sabor da frustração e a enfrenta com tamanha perseverança quanto as costureiras. Desistir é extremamente amargo. Atormenta-nos a ideia de ter de abandonar um caminho para onde nos dirigíamos a passos largos achando que se estava na direcção certa. E, no entanto, as costureiras fazem-no repetidamente, com uma paciência heróica que apenas elas possuem.

Nunca fiz uma peça de roupa para mim; não quis aprender a coser a sério porque sempre soube que isso implicaria errar e desfazer mais vezes do que aquelas que nasci preparada para aceitar fazer. Como o destino é matreiro e travesso, acabei por me ver a coser, não com linhas, mas com palavras que serpenteiam a carvão ao longo das folhas branco-amareladas dos meus cadernos velhos, como alinhavos antes de uma costura, que depois transcrevo para o computador. Apago mais frases do que aquelas que ficam escritas. Parece que nunca encontro a medida certa, o tom e a direcção que mais me satisfaz. Em cada sílaba, um ponto rematado no tecido da vida. Escrevo, apago e torno a escrever até me parecer melhor. Mas nunca chego lá. Por isso, continuo a escrever, como uma colcha de Penélope que nunca é terminada.

A carta Oito de Copas mostra-nos que desistir nem sempre é andar para trás; porque também o retrocesso, que enfrentamos virados do avesso com as costuras e cicatrizes expostas, faz parte dos planos. Afinal, de que vale insistir na confecção de uma peça de roupa que nunca nos irá servir? 

Desistir não é fracassar, e está reservado a quem possui a coragem de desmanchar para aprimorar. Fracassar seria recusar-nos a mudar de direcção quando temos uma parede e não uma porta à nossa frente; quando tentamos enfiar uma camisola do tamanho M, sabendo que a nossa medida é L.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1597
foto: cortesia de Zélia Évora

Espírito de aldeia num prédio


Pedi um raminho de louro, a minha árvore preferida, para temperar os cozinhados e para, de vez em quando, queimar como incenso délfico. Quis a generosidade, ainda existente entre seres humanos, que me fosse ofertado um ramo do tamanho de uma árvore.

Poderíamos ficar com louro para o resto da vida, mas sinto-me ainda mais satisfeita por ter louro só por uns bons tempos, e sentir o prazer de distribuí-lo por mais casas. Um gesto de bondade torna-se maior quando o fazemos crescer, e não o guardamos só para nós. Se há em abundância, o natural é partilhar.

Assim, hoje o L. e eu estivemos a fazer cones de cartolina verde, enchêmo-los de folhinhas de louro e, às escondidas, pendurámo-los nos puxadores das portas dos vizinhos do prédio com um bilhete nosso. Foi uma bela marotice!

Quem sabe se esta surpresa não irá animar alguém que se sinta triste ou sozinho, ou que se esquece sempre de comprar louro quando vai ao supermercado.


A pendurar coisas à socapa nas portas dos vizinhos,

Hazel


Mil decibéis de silêncio


Intrigam-me as pessoas caladas. Há um inegável respeito que impõem no seu jeito silencioso de existir e no olhar observador com que seguem as conversas acenando educadamente com a cabeça, mas guardando as suas opiniões para si, seja por timidez, precaução, ou pela irrelevância que possam atribuir às palavras. Se a paz de espírito pertencer a alguém, nunca poderá ser de um tagarela, mas de um introvertido. 

Folheando mentalmente as pessoas a quem sou mais chegada, reconheço uma amiga assim. Todas as semanas fazemos uma caminhada juntas, há mais de um ano. A Patrícia, é assim o seu nome, nunca fala de assuntos inúteis ou desnecessários. Escolhe sempre cuidadosamente as palavras antes de libertá-las de dentro de si. De bom grado troca um “sim” por um simples inclinar de cabeça com um sorriso - é suficiente. 

E eu, que tantas vezes me arrependo por colher maçãs antes de me certificar que estão maduras, falando por impulso sem antes medir as palavras, admiro quem dá primazia aos pensamentos em relação ao verbo. Afinal, o mundo já tem palavras demais à solta, palavras que por vezes se descontrolam e geram zangas, mal entendidos, conflitos, ressentimentos, guerras. 

Já o silêncio é tão raro e valioso que não sabemos como comportar-nos quando desavisadamente nos encontramos a partilhá-lo com alguém durante mais de cinco minutos. 
De certa forma, sentimo-nos nus, pretendendo simular naturalidade, mas sem saber o que fazer com as mãos que procuramos desajeitadamente enfiar nos bolsos que não temos e, por isso, socorremo-nos de uma manta que nos cubra a aflição da vulnerabilidade - a palavra. Cometemos, assim, a grosseria de invadir a perfeição silenciosa do universo da outra pessoa com uma qualquer observação banal e cretina sobre o tempo ou sobre como correu a semana. 

As pessoas caladas têm um universo mais vasto que as outras, com mais continentes, oceanos, ilhas, estações espaciais, estrelas e nebulosas. É interessante observar o contraste dos que falam sem parar, como se da sua boca saltassem milhares de massinhas da sopa de letras entrecortadas por breves segundos de pausa para ganhar fôlego; por oposição à serenidade dos que observam o mundo sem sentir necessidade de lhe acrescentar uma sílaba.

O silêncio é uma arte que apenas podemos apreciar emoldurada pelos barulhos do mundo. 
Não podemos - nem devemos - querer silenciar os ruídos à nossa volta. É o nosso silêncio interior que se deve sobrepor aos barulhos exteriores. Só então dominaremos essa arte e estaremos aptos a ter longas conversas com um simples aceno de cabeça. Como a Patrícia.

Esta semana, a carta O Eremita inspira-nos a privilegiar o silêncio e desafia-nos a encontrá-lo dentro de nós. Mergulhemos nas suas profundezas, escutemos as suas respostas e troquemos o ruído dos nossos passos apressados pelo deslizar harmonioso de uma existência quase não-existente, tamanha a sua harmonia com o pulsar da Terra.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1596
crédito foto: pap.az

Porque o céu é mais largo no Alentejo



Não existe onde encontre tanta paz quanto no Alentejo. Não é pelo calor que amolece a determinação. Nem pela maresia na zona costeira que nos viaja em espiral desde as narinas até ao cérebro, fazendo crescer água na boca e esperança nos olhos.

Nem tão pouco pelo uso do gerúndio, a forma mais pacata e sem pressa de fazer uso dos verbos, levando-os até a perder a definição de tempos verbais para passarem a ser apenas um tempo nominal do verbo devido à falta de flexão de tempo. Ali o tempo é diferente do tempo nos outros lugares do mundo, e até os verbos se conjugam de outras maneiras.

Eu vou ao Alentejo para ver o céu. Sobre a planície, nas zonas rurais alentejanas, as casas e as árvores semeiam-se escassas e esparsas, deixando que o céu beije toda a superfície à nossa volta. Como o céu é largo ali.

Vemo-lo descer mesmo até ao chão, sobre nós, imenso, eterno, vivo como um Deus feito de azul e de oxigénio. Sentimo-nos aplacados pelo seu tamanho onde se entornaram latas de tinta em tons ciano durante o dia; e, à noite, embalados pelo canto hipnótico dos grilos, somos cobertos pelo manto negro salpicado de estrelas.

Ali encontro a minha pequenez, aconchegada por braços celestes que não têm fim.
Ah, Alentejo.

Falando e escrevendo usando o gerúndio,

Hazel

[Escrito a lápis de carvão no meu caderno, com a Ilha do Pessegueiro ao fundo e o horizonte aberto à minha volta.]