“Vamos à vida, que a morte é certa!”



Seria mais correcto - e belo, até - dizer-se que fulano assistiu a 41 voltas da Terra dadas em torno do Sol, em lugar de se dizer que tem 41 anos. Da mesma forma que poderia combinar-se um jantar na semana seguinte para “daqui a 7 voltas da Terra sobre si mesma” - porque o tempo, na realidade, não existe. É uma ilusão universalmente partilhada que se tornou uma verdade quase palpável.

A invenção a que chamamos “tempo” foi criada para medir a velocidade de deslocação da Terra em relação ao Sol. Nós somos energia em movimento num planeta cigano que não pára num só lugar, mas vive em rotação e translacção permanentes, porque é assim a sua natureza - e contrariá-la seria morrer.

No entanto, fazemo-lo tantas vezes a nós mesmos ao longo da vida. Abandonamo-nos a essa espécie de morte durante dias a fio, ou semanas. Meses. Anos, até.

Há pouco tempo, conversei com uma senhora encantadora que estava morta há mais de 40 anos. Contava-me que antigamente é que era feliz. Viajava muito, lia, a vida era mais fácil, as pessoas eram mais chegadas na terra onde morava, gostava do emprego que tinha. Mas tudo foi definhando aos poucos. Vive morta entre os fantasmas das memórias, as fotos antigas vistas e revistas inúmeras vezes, os bibelots lascados, e o olhar vazio suspenso numa partícula de pó que se desloca no ar tão lentamente quanto a sua existência. Os filhos, cada um seguiu a sua vida. Só sai de casa para ir ao médico.

Os ponteiros dos relógios que ainda trabalham, marcam o compasso com indolência, como uma mensagem subtil de que o tempo - esse tal que não existe - continua a avançar, mesmo tendo ela desistido de si mesma; estando morta apesar de continuar viva.

Com todas as diferenças que nos distinguem uns dos outros, todos habitamos o mesmo pedaço de Terra suspenso no cosmos e rodeado de estrelas brilhantes. Partilhamos a deslocação, o movimento e a velocidade desta gigantesca nave espacial, embora sejamos tripulantes distraídos que se esqueceram do seu papel.

Esta semana, o arcano maior O Carro incita-nos a avançar, a mover-nos, a aproveitar as oportunidades que nos são proporcionadas, por vezes, sob a aparência de um desafio difícil de superar e a tomá-lo como um ponto de apoio para a nossa alavanca de Arquimedes, elevando-nos acima da apatia e da inércia, e assumindo o controlo da nossa rota solar.

Assim como o planeta não pára nem por um segundo de rodar, nem mesmo quando acontecem as mais tenebrosas catástrofes, também nós temos o dever de prosseguir o movimento e de lutar por aquilo que nos inspira e realiza, com confiança e coragem para mudar o que já se encontra a definhar dentro de nós. O caminho certo a seguir será sempre aquele que nos faz sentir vivos e pulsantes, fortes no corpo, na mente e no espírito!

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 26 Maio
Foto: Pinterest

Se a vida te dá limões, é porque os plantaste.


A fé na Humanidade caminha em passos vacilantes enquanto “os maus” continuam a ser maus e nada parece acontecer-lhes. Safam-se sempre, os sacanas. Imaginamo-los a envelhecer bronzeados, sem flacidez nas nádegas e cheios de charme com o dinheiro dos nossos impostos à beira da piscina, de cocktail colorido na mão, olhar felino e um sorriso mefistofélico nos lábios.

Ainda não consegui discernir se actualmente a corrupção é maior, ou apenas mais noticiada que no tempo dos dois canais de televisão. Parece que anda meio mundo a enganar outro meio mundo. Na política, nas empresas, nas associações, nas igrejas, nos círculos esotéricos, nas terapias alternativas, nas famílias, entre amigos.

Para quê ser certinho, com tantos por aí a roubar, a enganar, a desrespeitar o próximo - e a rirem-se na nossa cara. Vivemos permanentemente com um Darth Vader imaginário a seduzir-nos na sua voz metálica e abafada - porque o lado negro da força parece ser mais poderoso, ter mais sorte e até mais estilo.

No entanto, a decisão é sempre nossa. Queremos que a vida nos dê maçãs doces e reluzentes, cor de rubi, quando aquilo que andámos a plantar foi sementes de limão

O Universo é muito justo, até mesmo no que consideramos injusto. Se o que lançamos à terra é amargura, competitividade, rivalidade, ganância, falta de verdade, escassez, é justamente isso que iremos colher mais tarde. Podemos tentar enganar o mundo inteiro, mas - bem lá no fundo - todos sabemos aquilo que fizemos. A justiça é um fruto que pode demorar bastante tempo a amadurecer, mas acabaremos sempre por ter de colhê-lo. Como se diz, o plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória.

Esta semana, a carta A Justiça recomenda-nos a vigiar as nossas acções, mesmo as mais pequenas, procurando que sejam tão límpidas, honestas e generosas quanto nos for possível. Aqui, neste simpático planeta que partilhamos, não existem santos. Todos já fizemos, numa ou noutra ocasião de fraqueza, um chichi fora do penico.

Que atire o primeiro limão-siciliano aquele que nunca meteu uma mudança abaixo para passar o semáforo laranja, enquanto via se não havia polícia por perto. Somos humanos. Olhemos um pouco mais para nós, e menos para os outros. Afinal, a única pessoa que temos o poder de melhorar somos justamente nós.

Se aquilo que desejamos colher é abundância, alegria, paz, amor, é precisamente isso - sem tirar nem pôr - que temos de dar ao mundo. Não vale desistir à primeira. Afinal, os frutos demoram até nascer. Na minha cozinha, tenho duas sementes de abacate e uma terceira na varanda há mais de duas semanas. Ainda não nasceu nada. Mas eu lá vou regando todos os dias...

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 19 Maio

'Cojones'


A cada passo que damos, estamos a fazer escolhas e a afirmar quem somos. Mesmo que decidíssemos ficar mudos e estáticos como um pisa-papéis sobre uma mesa, continuaria a ser uma escolha nossa. Muitos de nós, por vezes, optamos pelo silêncio e pela ausência de movimento, à espera que tudo passe e que os problemas se resolvam por si mesmos, agarrando-nos ao conceito de resiliência como os limos se agarram às paredes dos aquários.

Mas até a resiliência tem o seu limite, e este reconhece-se quando os ditos limos existem há demasiado tempo e a água começa a ficar turva. A resiliência termina onde começa a auto-negação.

Façamos o que fizermos, sempre haverá quem nos censure, quem se ofenda, quem se melindre, quem se sinta desapontado por não sermos aquilo que se esperava que fôssemos. Sempre haverá quem não acredite que tivemos genuína boa intenção, que fomos honestos, que desejámos e fizemos o bem, não conseguindo ver senão o reflexo da sua própria desconfiança.

Somos presos por ter cão e presos por não o ter. E, por muito que isto nos apoquente, está certo assim. Se todos concordassem sempre connosco, teríamos a determinação de um animal invertebrado; seríamos fracos de carácter, perderíamos a garra, a ambição, o entusiasmo. É preciso que haja atrito, que nos ofereçam resistência, que nos neguem a entrada, para que saibamos o que realmente queremos, até que ponto o desejamos, e qual a dimensão das nossas capacidades. O filme “O Bom, o Mau e o Vilão” seria uma tremenda maçada se fosse apenas “O Bom”.

Nós não somos o que os outros acham que somos. Nem o que esperam que sejamos. Nem, talvez, o que nós próprios acreditamos ser. Não precisamos, sequer, de ter de ser coisa alguma, e apenas a ânsia em querer demonstrá-lo nos impele a tomar decisões que, na verdade, não são as nossas, mas as dos outros.

O arcano Os Enamorados incita-nos a escolher sabiamente, de acordo com aquilo que está em harmonia com quem somos no momento presente. Não existe uma decisão mais franca e honesta que esta, a de honrar a nossa verdade. Digam o que disserem. Pensem o que pensarem. Façam o que fizerem. Nada pode ser mais libertador que assumir a inevitabilidade da verdade.

O abismo está mesmo à nossa frente. Podemos ficar a vida inteira sentados sobre a almofada do medo à espera que apareça uma ponte por artes mágicas. Podemos distrair-nos com o que os outros dizem e fazem, arriscando-nos a ser empurrados. Ou podemos abrir os braços e lançar-nos de vez.

A escolha é sempre nossa, mas só aqueles que tiverem a audácia de abrir os braços e saltar poderão descobrir que talvez o abismo seja do tamanho de um degrau, e toda a profundidade vertiginosa era a dimensão do medo e da resistência a pensarem por si próprios.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 28 Abril

No Mundo da Lua


Os velhos rituais pagãos têm viajado em sussurros expirados por lábios femininos ao longo de mais séculos que a memória consegue alcançar, transmitidos de mães para filhas. Perde-se na bruma dos tempos a origem destes saberes subtis, que oscilam como um pêndulo de relógio antigo entre a superstição e a fé em algo maior que nós. 

Embora quase esquecidas, ainda sobrevivem algumas destas práticas, alimentadas pela força do amor. Após esperarem as nove lunações que determinam a data aproximada do nascimento de uma criança, os bebés eram “oferecidos” à Lua pelas suas mães, para que crescessem sob a sua protecção mágica

A Lua sempre deteve um papel misterioso e soberano, orientando os homens que se faziam ao mar, pescadores que acompanhavam as suas fases para saber quando existe mais ou menos peixe, agricultores que esperavam a fase lunar mais propícia para fazer as sementeiras e as colheitas, poetas aluados, trovadores apaixonados, bruxas, videntes e feiticeiras, o ciclo menstrual das mulheres… e os nascimentos.

As mães pegavam no seu bebé e quando o manto prateado da Lua Cheia se estendesse sobre o seu rosto, diziam: “Lua, Lua Luar. Aqui tens o(a) meu(minha) menino(a). Ajuda-mo(a) a criar. Eu sou mãe. E tu és ama. Cria-o tu. E eu dou-lhe mama.” - fielmente transcrito do original, que me foi transmitido pela minha mãe antes da Lua Anciã lhe ter ceifado a vida, pela mãe dela, e estendendo-se por toda a linhagem de mães que as antecederam. Só a Lua sabe quando tudo isto começou.

Já poucas mães o fazem actualmente, embora a Lua se mantenha majestosa no seu reinado cíclico de nascimentos, vida e morte. Contudo, há apenas uma geração atrás, poder-se-ia arriscar dizer que era uma prática quase comum, sempre feita debaixo do pano, longe até do olhar do próprio pai. Eram tempos em que se acreditava no Diabo e nas suas tropelias, sentindo-se a necessidade de proteger as crianças, recorrendo a tudo. Hoje, já ninguém acredita nesta personagem com cascos de bode e tridente, embora se vivam tempos infernais.

Tantos de nós que, sem o sabermos, somos afilhados da Lua. Ainda que não acreditemos nestas crendices populares que atravessaram séculos de fé sustentada pelo amor das mães e, por isso, adquiriram força, a Lua prevalece sempre, assim como a sua influência sobre a Humanidade.

Esta semana, a carta A Lua recorda-nos da nossa ligação com o lado mais subtil da vida. Se andarmos com a cabeça da Lua - aluados, portanto - lembremo-nos dos astronautas que flutuam no espaço, distantes das pequenezas da Terra e, certamente, com uma maior noção do quão insignificantes são os conflitos humanos. Estejamos atentos à nossa intuição e à forma como o Universo comunica connosco.

Tenhamos a noção de que tudo passa. Tudo mesmo. Os bons momentos e os maus. 

As paixões e os temperamentos destemperados. A alegria e a tristeza. Assim como a Lua tem as suas fases, também nós temos de as vivenciar e nelas procurar encontrar o equilíbrio quando o chão nos foge debaixo dos pés e a realidade se desfaz em estilhaços de ilusões desfeitas. Porque às vezes não queremos ver com os olhos do corpo aquilo que a alma sempre soube.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 21 Abril

Nu em frente ao Espelho

A cor dos olhos pode diferir de indivíduo para indivíduo, mas as pupilas são sempre pretas, em todos os seres humanos.

Se nos aproximarmos o suficiente, conseguimos ver o nosso reflexo nas pupilas de alguém, exactamente como se estas fossem um pedaço de espelho de obsidiana.

A obsidiana é um mineralóide resultante da lava vitrificada dos vulcões. São-lhe atribuídas propriedades mágicas em todo o mundo, desde tempos imemoriais, por se dizer que revela aquilo que está escondido.

Da mesma forma que a lava brota das profundezas da terra, acreditava-se que também os segredos e as respostas guardadas nos locais mais obscuros e recônditos da alma poderiam emergir na superfície brilhante de um espelho negro de obsidiana. Os sacerdotes Aztecas, por exemplo, utilizavam-na para prever o futuro, curar feridas, mitigar a dor e espantar demónios.

Se olharmos para um espelho mágico de obsidiana, a única imagem que conseguimos ver reflectida… somos nós. Esta é uma das mais belas metáforas da história da magia. Todas as respostas estão em nós, e não neste enigmático objecto que apenas devolve a nossa imagem, como outro espelho qualquer.

Não é a obsidiana, em si, que tem o poder de curar as feridas ou de responder às nossas inquietações, mas o acto da auto-observação num espelho negro, tão negro quanto a contraparte luminosa que todos possuímos. Como uma pupila gigante que nos vê por dentro, à lupa.

Assim, desmistificando as propriedades mágicas do espelho negro acima referidas...

Como se podem curar feridas? Tendo a coragem de olhá-las com os nossos próprios olhos, com amor e compaixão; parando de tentar varrê-las para baixo do tapete, fingindo que não existem.

Como se pode prever o futuro? Avaliando o presente, todas as nossas escolhas até ao momento actual, e dando espaço para uma larga margem de erro - porque, às vezes, o Universo tem outros planos para nós.

Como se pode mitigar a dor? Olhando-a de frente. Assumindo-a sem cobardia, devorando-a, digerindo-a e tornando-a parte de nós como uma cicatriz que conta uma parte da nossa história.

Como se espantam demónios? Então, mas os demónios existem? Se existem...
Moram todos dentro de nós. Chamam-se medo, ganância, arrogância, auto-sabotagem, inveja, ciúme, ira, e mais uma série interminável de nomes que não são estranhos a ninguém. A única forma de espantá-los é assumindo a sua existência e domesticando-os, compreendendo que são um leão feroz que nem sempre fica sossegado como um gatinho numa cesta com uma manta macia.

O arcano A Força surge-nos reveladora como um espelho negro de obsidiana. Observemo-nos pelos olhos dos outros, nas suas pupilas negras, e vejamos o melhor e o pior de nós. As fraquezas, as vaidades, os orgulhos, os medos, as fúrias.

Podemos prever e até mesmo mudar o futuro, como um autêntico sacerdote Azteca, se tivermos a ousadia de observar com sinceridade e lucidez o nosso comportamento actual e devolvermos flores quando a vida nos oferece pedras. É neste detalhe que mora a magia; “Gentileza gera gentileza”, já dizia o profeta brasileiro José Datrino, aquele que se dizia "amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”.

Porque aquilo que damos, recebemos.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 14 Abril

O Cão de Loiça



Todas as casas têm em algum canto discreto, fundo de gaveta, ou entalado entre os livros, um bibelot feio e deprimente que não fica bem em lado algum e ninguém sabe o que lhe fazer. 

Vai-se empurrando para longe da vista, na inconsciente e vã esperança de vir a ser engolido pelo triângulo das Bermudas que habita debaixo do mesmo tapete para onde varremos todos os nossos assuntos mal resolvidos - até ao dia em que recebemos a visita de alguém que, com olhos de lince e sem papas na língua, exclama:
- Macacos me mordam, de onde é que desencantaste essa fancaria?

E eis que a realidade se exibe sem pudores, desnuda e desafiadora perante o constrangimento dos nossos olhos. 

Às vezes, sentimo-nos como esse bibelot, desprovido de valor e de serventia, nem mesmo a de enfeitar os móveis, vítima dos tempos que estão sempre a mudar e a exigir que se mude com eles. 

Se resistimos à mudança, ou mudamos de forma desleal em relação a quem realmente somos, apenas podemos esperar mais insatisfação no futuro - são as regras do jogo.

Que resta, encolher-nos? Desculpar-nos, desfazer-nos em lamentos, tentar dissimular a feiúra (que nada mais é senão a falta de amor e de respeito por nós mesmos)?

Se foi isso que sempre fizemos - baixar-nos para não dar nas vistas, calar para não incomodar os outros - então, aceitámos desempenhar o papel de vítima, do indesejado cão de loiça dos olhos tristes, desprezado e esquecido no fundo de uma gaveta com cheiro a naftalina.

Até ao instante em que se faz luz e, num rasgo de auto-libertação, deixamos de curvar as costas para endireitá-las com a mesma fibra e tenacidade de um girassol que, durante a sua vida inteira, todos os dias se recusa a murchar e se vira em direcção ao Sol. 


É então que assumimos todos os nossos pontos brilhantes assim como os baços, tomamo-los como nossos - porque o são - e não mais os escondemos. 

Damos um passo em frente e deixamos de andar a marcar passo, ou a seguir os passos dos outros. 

O arcano Julgamento, que se repete após ter saído na edição de 25 de Fevereiro, volta a confrontar-nos com aquilo que ainda está desarrumado na nossa vida, para que o arrumemos de vez e possamos finalmente afirmar, altivos e seguros: 

- Sou um cão de loiça, e tenho muito orgulho nisso!

Coloquemos o recém reconciliado bibelot em cima da televisão, numa assumida ode ao mau gosto feliz, genuíno e livre, por oposição ao bom gosto impessoal, submisso e sem voz própria. Ou deitemo-lo fora de uma vez por todas. Mudar é bom, quando mudamos para aquilo que sempre quisemos ser.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 10 Março

O Elefante no Canto da Sala


Está um elefante enorme ali no canto da sala. Mesmo junto aos delicados cortinados de tule. Todos se esforçam por fingir que ele não existe, mantendo a aparência de que está tudo sob controlo. O animal, entretanto, atirou com um candelabro de cristal para o chão e espetou um chifre na televisão. Ainda assim, ninguém viu ou ouviu um som. 

O chá é bebido com ritual e elegância, dedos mindinhos espetados, lábios discretamente pintados que se esticam com languidez e encostam na loiça branca, olhares afectados, conversas vazias. É então que o paquiderme caminha pesadamente entre sofás de veludo e mesinhas repletas de peças de bricabraque, derrubando tudo à sua passagem. Dirige-se exactamente para a mesa de jantar, onde se senta, estilhaçando todo o serviço de chá, que havia sido uma herança valiosíssima. Até que enfim - acabou.

O chá era horrendo, as cadeiras demasiado rectas e desconfortáveis, já não se aguentava mais. Uns, choram o prejuízo material. Outros, recuperam a compostura e vertem mais um pouco de chá para a única chávena sobrevivente, insistindo na negação das evidências. Outros ainda, têm a coragem de enfrentar a realidade e procuram discernir o motivo e o propósito de todo aquele despropósito. Estes últimos, são os que montam o elefante e batem em retirada, libertando-se de todo o enfado de uma vida de fingimentos, obrigações e insatisfação.

Abençoadas sejam as frustrações por que passamos, que nos fazem duvidar de nós mesmos, das escolhas que fizemos e das que não conseguimos fazer porque nos acobardámos. Abençoadas as arreliações que nos desgastam, fazem cabelos brancos, fervilham o ácido no estômago e descompassam o coração. 

Somos feitos de luz, mas também somos feitos de toda esta matéria densa e corrosiva. E, em certos momentos-chave, não nos resta senão permitir que as sombras se elevem à superfície e encontrem a luz, a feiúra e a beleza fundidas numa só, as entranhas que nos saem pelos olhos e escorrem em lágrimas de tensão liberta. É então que tomamos consciência que nos bastamos a nós mesmos e estamos preparados para arriscar o que quer que seja que virá depois.

Esta semana, a carta O Julgamento inspira-nos a sentir gratidão por todas as experiências negativas por que já passámos, pois foram justamente essas que nos desafiaram a querer mais, e nos salvaram de um dia virmos a tornar-nos alguém que já não espera mais da vida. 

Estejamos atentos e sejamos bondosos para com os elefantes nos cantos das salas onde nos sentamos, pois são eles que transportam a segunda oportunidade que precisamos para nos agarrarmos a quem somos... e libertarmo-nos daquilo que não queremos ser.


Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 25 Fevereiro

A Lenda e a Simbologia da Dança dos 7 Véus


A origem da enigmática e fascinante "Dança dos Sete Véus" é tão difusa e volúvel quanto o é todo o Mistério Feminino. Ainda que exista uma ideia (errada) de que é uma espécie de striptease, tal não poderia estar mais longe da verdade.

A Dança dos Sete Véus é uma forma de arte riquíssima em simbologia mágica onde se faz uma teatralização do processo iniciático.

A lenda da descida aos Submundos pela Deusa Babilónica Ishtar (Senhora do Amor, da Fertilidade e da Guerra), poderá estar na origem desta dança:


Ishtar viajou através do reino dos mortos para resgatar o seu amado Tammuz. Teve de atravessar 7 portais, cada um guardado por 7 demónios.

Para poder passar cada portal, foi-lhe exigido que deixasse ficar um dos seus pertences que representava um atributo de que ia prescindindo: beleza, fertilidade, amor, saúde, magia, poder e o domínio sobre as estações do ano.

Todas as jóias e véus que levava iam ficando para trás ao longo da descida. Quando passou o último portal, estava completamente nua.

O cair dos véus representa o revelar dos mistérios outrora ocultos, a abertura da visão, o despertar da consciência.

Simboliza também a troca inevitável imposta pelo eterno girar da Roda da Fortuna: é preciso deixar ir, abdicar do que nos é precioso, desapegando-nos da ilusão de posse, para conquistar algo grandioso.

Seja no mundo dos homens, seja no dos Deuses, não existem espaços vazios; há que pagar um preço por cada degrau evolutivo da longa escadaria da ascensão espiritual. Para andar para a frente, tem que se deixar algo para trás.


A ascensão faz-se para baixo e não para cima - é no mergulho nos submundos que nos despimos das máscaras sociais e encaramos o nu visceral da Verdade, regressando, assim, à Essência. Como uma semente que precisa das profundezas da terra para poder germinar, e só assim consegue romper a superfície do solo em direcção ao Sol.

Abreviando a lenda, que é extensa, Ishtar revela a sua verdadeira essência e une-se a Tammuz, tornando-se a guardiã das chaves dos portais, que abrem apenas para os Iniciados.

É-me inevitável olhar para esta representação da Deusa Ishtar sem associá-la à carta de Tarot "O Mundo".

Na carta XXI (21 = 3 ciclos de 7), "O Mundo", vemos uma mulher (os Mistérios e o atravessar dos portais são assuntos eternamente ligados ao sexo feminino; as mulheres são, em si, o portal da vida e da morte), nua (porque está na sua essência e, portanto, dispensa artifícios), e que segura as duas varinhas (detém as chaves do Conhecimento).

O véu que serpenteia o corpo nu, uma alusão ao Conhecimento desvendado. Tal como Ishtar, acompanhada pelos 4 guardiões. A derradeira representação da Iniciação.

Diz-se que os sete véus correspondem às sete cores do arco-íris, as sete notas musicais, as sete virtudes os sete vícios, os sete planetas, os sete chakras: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-claro, violeta (ou azul-índigo) e branco.

O número 7 é considerado o número da perfeição, por ser a soma do 3 (Céu/Espírito) com o 4 (Terra/Matéria); ou seja, a fusão dos mundos. A Totalidade.

Idealmente, as cores dos véus são as dos sete chakras principais, e a retirada de cada véu é acompanhada de movimentos corporais com ondulações e/ou marcações na zona do corpo que é revelada e que corresponde ao chackra que é "descoberto".

Respondendo à pergunta que paira na mente dos mais púdicos, a verdadeira nudez é um conceito mais profundo que um corpo sem roupa. Não existe nudez física na Dança dos Sete Véus. Os véus vão caindo, mas a roupa permanece vestida. Porque é a alma que se desnuda, e não o corpo.

 

No limiar dos portais,

Hazel

Lições da Roda da Fortuna: olhar para o próprio umbigo


A carta de Tarot "Roda da Fortuna" ensina-nos que a vida é como um moinho de água. Para que haja movimento, ou seja, para que a vida ande para a frente, é preciso que haja momentos em que temos de desapegar-nos, de deixar ir, esvaziar. Sem oferecer resistência.

E no vazio que surgiu, criou-se espaço para viver novas experiências e aprendizagens, para a nossa evolução - se aceitarmos aprender as lições que o girar da roda nos trouxe. Caso contrário, se nos recusamos a aprender e focamo-nos no que já não conseguimos manter, apenas sentimos sofrimento, perda e medo.

Lutar contra o movimento da roda, impedi-la de girar, seria o mesmo que impedir a vida de prosseguir. Seria morrer, continuando vivo. Que doloroso.

A grande lição da roda é que o Equilíbrio sempre existe. Sempre que está cheia de água de um lado, está vazia do outro. E vice-versa. Não vou dizer para olhar só para o lado que está cheio quando o outro esvazia. Isso tornar-nos-ia dependentes dos outros para estarmos bem. O conceito de "copo meio-cheio, copo meio-vazio" é uma falácia.

Então, para onde olhar? Como lidar com a perda? Ou com o medo da perda, quando estamos bem lá no alto da roda, transbordantes de água fresca a reluzir ao Sol?

Sabendo que não somos aquilo que temos à nossa volta. É tudo uma ilusão. Não somos o nosso emprego, as relações, os objectos, os cursos, as emoções, as preocupações. Nós - a nossa essência - somos o eixo da roda. Aquilo que está no centro.

É para lá que devemos olhar, com consciência. Às vezes, olho para o meu próprio umbigo, para me recordar disso. Eu sou o eixo. O que está dentro, e não o que está fora. E a paz restabelece-se.

Isto quer dizer que, afinal, nada importa? O nosso emprego, relações, objectos, cursos, emoções? Claro que importa. Tudo deve ser vivido intensamente. Não há tempo a perder com relações fúteis, conversas negativas, sentimentos menores, tentar corresponder às expectativas dos outros. Porque o tempo é limitado e, antes que a roda dê uma nova volta, temos de aproveitar e devorar a vida — sem nos perdermos do eixo.

Isto aplica-se a todos, sem excepção. Quer acreditem ou não no Tarot. :)



No centro da roda,

Hazel