Varinha Mágica Tens uma varinha mágica — e não é para moer a sopa. Santinho! Se alguém espirra, não dizes «Santinho!» nem «Jesus!». Seria, no entanto, apropriado dizer «Sagrado Pentagrama!», o que faria as delícias de qualquer pagão constipado. Pentagrama Usas ou usaste um pentag…
A inda parece que a oiço, cítrica e com um travo amargo de laranja seca; profética, com uma intuição que roçava o sobrenatural. Uma autêntica bruxa que, no entanto, desprezava bruxas e as desacreditava. Mas que as havia, havia — sempre haverá. Continuo sem compor pela manhã o delici…
A Reprogramação Emocional é uma técnica avançada de cura com Reiki destinada ao tratamento de traumas , fobias , baixa auto-estima , padrões de comportamento causadores de sofrimento , limitações auto impostas decorrentes de experiências de violência física e psicológica, abusos …
«S e houver alguém que se oponha, fale agora ou cale-se para sempre.» A GAVETA DA COZINHA deslizou para fora e uma mão pesada tacteou por uma faca afiada que emergiu, gélida e reluzente, reflectindo a luz mortiça da lâmpada fluorescente e uns olhos raiados de sangue. A casca do limã…
O Tragédias olhou em frente, mordeu o lábio inferior e contraiu o esfíncter como se isso o fizesse encolher e passar despercebido ao carro da polícia parado no cruzamento com a Rua Artilharia 1. Safou-se, o marialva de cabelo lambido. Por segundos de distracção policial quase era m…
U m novelo de cotão, um pedaço de Chocapic , um papel de rebuçado bola-de-neve amachucado e uma lasca de coração. O meu. Homessa, o que uma pessoa descobre quando muda o sofá de lugar. Reuni o bocado de coração aos outros que se encontravam esparsos como fragmentos de navio naufragad…
«E stá com sorte, ainda há dois lugares livres», grasnou o senhor da bilheteira em voz laringofaríngea, «ficam é ao fundo». Entrei no autocarro já com o estômago embrulhado enquanto levava à boca um comprimido Vomidrine que engoli com um resto de água já tépida. Enfiei as malas no com…
1. N ASCERAM-ME DOIS TOMATES. Que orgulhosa fiquei do reluzente e tentador par que se me insurgiu por entre os arbustos viçosos. Todas as manhãs os contemplava com regalo desejando que crescessem mais, mas os velhacos eram de raça pequena. Acabei por comer um, o outro dei-o ao meu g…
S ENTEI-ME A BEBER UM CAFÉ com os fantasmas. No rádio toca Cyndi Lauper para distrair a melancolia, enquanto o Sol ondula como uma sereia de fogo por trás de um véu de nuvens brancas e vaporosas. Muito antes do meu nascimento, a minha avó herdou da sua prima uma toalha de linho antiga…
L Á VAI A RATINHA toda espevitada. Viram-se cabeças à sua passagem, os prédios meio decrépitos desviam-se. Inclinam-se os degraus da Bica, debruçam-se os candeeiros da rua. Não há quem não se espante ao vê-la, tão viva e airosa. O Elias do talho conhece-a bem, esse magano, assim como…
C ravei a faca de um dos lados e torci-a para a frente e para trás até destruir sem remorsos a caixa de música. A pequena e delicada bailarina que rodopiava como Terpsícore, a musa, caiu para o chão na sua lividez de plástico sem vida, desabitada de alma e de calor. Voltei a enfiar a p…
As sevilhanas de vestidos rodados e cintura estreita ganhavam vida dançando à minha volta num baile hipnótico de pássaros e flores de todas as cores. Debaixo do chapéu-de-palha que me protegia dos quarenta tórridos graus de Sol alentejano , os meus olhos tímidos e curiosos — sob inex…
A morte ergueu-se da terra escura e caminhou implacável por entre a rectidão austera das árvores que aguardaram o fim com dignidade e sacrifício, fornecendo oxigénio até ao derradeiro segundo. Levou tudo à frente como uma besta cega, surda e muda. Famílias, floresta, animais, casas, ca…
Estava aqui a pensar escrever uma história em torno de um preguiçoso convicto e dedicado, verdadeiro profissional no exercício do ócio; uma narrativa lenta, sem ritmo, onde nada aconteceria e o dito preguiçoso estaria inerte desde a primeira à última linha. Um monumental tédio que come…
A MAÇANETA DA PORTA gira devagarinho. Todos dão um passo atrás. Mal respiram, os cretinos. Cheios de medo que o camarada aqui da sala ao lado se tenha levantado do caixão. Afinal era o padre que tinha ido à casa-de-banho contígua, deixando-os à espera enquanto foi enviar para inglóri…
O silêncio , observado por comunidades religiosas no mundo inteiro, tem por finalidade concentrar toda a atenção no acto da alimentação, sem dispersão de energia. Assim, a digestão requer uma menor actividade na área do plexo solar, tendo como resultado uma considerável economia ener…
De braços abertos à largura do horizonte, procuro o equilíbrio apesar das línguas sibilantes de vento que me lambem o corpo, ora amparando, ora levando-me a oscilar. Caminho descalça sobre o fio retesado que une o nascimento à morte. Os primeiros passos, ansiosos e apressados, frustr…
A MINHA CAFETEIRA É UMA LADRA CHUPISTA. Coloco-lhe a água em baixo, o café no depósito central, enrosco a parte de cima e acendo o lume. A gangster- octogonal colabora sem oferecer resistência, como uma boa-e-honesta cafeteira acima de qualquer suspeita. A água ferve e sobe, perco…
Está decidido. Amanhã vou fugir. Já tenho a mala pronta. Caderno e lapiseira para algum rasgo de inspiração que possa surgir desavisadamente, uma muda de roupa para o caso de precisar de dormir fora, lápis preto para os olhos — terão de me perdoar a vaidade —, escova de dentes e desodo…
O s meus olhos fogem-lhe para as cuecas; procuro não olhar, mas é inevitável. Vocês também olhavam se aqui estivessem. Fotografo em palavras, correndo o risco de vos apresentar uma foto tremida: barba esparsamente semeada, cabelo rebelde a bater nos ombros, lábios trocistas. Um Jim Mo…
O NINHO DE RATOS FOI SURGINDO aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, ac…
«Ai filha, é aqui, aqui mesmo ao fundo das costas, ai que dor», gemia a tia Carlota, enquanto esfregava as cruzes com a mão direita cheia de anéis de prata. Era uma mulher estupenda. Grande, forte, de ancas largas e seios fartos que denunciavam um gosto particular pelo erotismo vivido …
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