T ento esconder o ramo que se assoma de dentro da manga do casaco, empurrando-o de forma desajeitada antes que alguém veja. Espero que ninguém tenha reparado. Um restolhar igual ao que se escuta quando caminhamos pelos bosques no Outono persegue-me enquanto fujo do café, trapalho…
"V ai ficar com medo de sofrer para o resto da vida? Então, mas não é o medo de sofrer também uma forma de sofrimento?" Nisto, o condutor do táxi Mercedes interrompeu-se e guinou para a direita desviando-se do carro cinzento-tédio que apareceu inesperadamente pela esquerda…
R OUBEI UMA COLHER de sopa. Está escondida debaixo do meu colchão. Quando vêm mudar os lençóis, coloco-a atrás da sanita. Esta colher que tenho há duas semanas é o meu passaporte para a liberdade. Na parede junto à cama existe uma zona de fragilidade que todos os dias escavo mais um …
D o caos, a limpidez. Da limpidez, a luz. Da luz, a verdade. Da verdade, o amor. Do vento nas asas, o vôo planado. Do vôo planado, a liberdade. Da liberdade, a vida. Da vida, a morte. Da morte, a eternidade. Da eternidade, o divino. Do divino, o amor. Do a…
S erão dois. Um, com a compilação das crónicas e de outros textos inéditos que nunca saíram do meu caderno. O tal que vos devo há muitos anos. Mas é sobre o outro que penso hoje. Aquele com que espero horrorizar-vos. Quinhentas páginas em branco. Na última folha, uma singela frase: …
N O ÚLTIMO DIA de Fevereiro, celebra-se a tradição de origem grega chamada Martis (ou Martiá ), de onde deriva o nome do mês de Março. Fazem-se pulseiras para celebrar e dar as boas-vindas à chegada da Primavera. As pulseiras, chamadas kroki na Grécia, são feitas com fios d…
Hoje a Casa Claridade celebra onze anos de vida. Como já é tradição, neste aniversário desvendo onze factos aleatórios: 1. Escrevo quase sempre primeiro em papel, num caderno velho com marcas de maçãs acabadas de comer. Só depois transcrevo para o computador; 2. Tenho sempre ess…
Jovem! Se te estás a sentir um desgraçadinho, um miserável encalhado, um cachorrinho abandonado, isto é para ti. V EM AÍ O DIA DOS NAMORADOS e o mundo está dividido num Tratado de Tordesilhas Valentiniano que separa casais românticos-docinhos-e-indutores-de-diabetes, apaixonados, amanti…
R odei a chave na fechadura, pousei a mochila do ginásio e descalço os ténis sem desatar os atacadores, como faço sempre. O silêncio da casa é interrompido por um ruído subtil vindo do meu quarto. Como conseguiste entrar? , penso com um sorriso. Nem deste tempo para me desp…
S E ESTÁS A PLANEAR MORRER um dia, cria já o teu próprio «Projecto Faz-te à Vida»! O jogo é simples: tens de riscar pelo menos 90 (noventa!) itens antes de morrer . Não há pressa em acabar a lista... Aqui está o meu: 👉 PROJECTO FAZ-TE À VIDA – HAZEL 1. Ver a Aurora Boreal ......…
Foi lançada hoje a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” - Volume X, da Chiado Books, onde consta este meu poema: Fantasma Liquefaz-se o vestido em ondas Água doce, limos verdes Escorrem em regato Pelos degraus do Cais. Elevo-me nua Magra c…
A pós retiro prolongado , a (im)paciente da cama cinco agradece as visitas, as mensagens, as flores, os bolos doces sem açúcar, o envio de borboletas, os presentes, os convites e todo o afecto — que, sem dúvida, foi a mais regeneradora das panaceias. Doutor Passarinho deixou-a ter al…
A CABEI DE INVENTAR ESTE NOME. Quem está doente do corpo vai para o hospital “comum”, quem está doente da cabeça vai para o hospital psiquiátrico e quem está doente do coração vai para o Hospital de Corações. É um edifício semelhante aos outros por fora, mas com pessoas mais simpátic…
F ugiram-me duas velas de casa. Tinha-as em cima da mesa de jantar, cada qual no seu castiçal, e desapareceram sem deixar pingo de cera nem de remorso. Corri atrás delas rua fora, mas no primeiro cruzamento virou uma para cada lado. As danadas. Voltei para casa de mãos a abanar. Colo…
A LOUCA DA CAMISA-DE-DORMIR faz todos os dias o mesmo percurso, que se cruza com o meu, ora de manhã, ora pela tardinha. Contemplo a visão onírica da senhora de meia-idade que atravessa a estrada sem pressa, a chinelar nas suas chanatas de quarto com borlas emplumadas em seda rosa-pét…
A respeito do cartaz “Não matem os velhinhos”, lembrei-me de uma gaiata que conheci, bem mai’nova e desempoeirada que a sirigaita da frase. Sorridente e surpreendente no seu batom vermelho-malagueta e óculos-escuros- femme-fatale , assentia com a cabeça enquanto escutava a sua história…
S ER PORTUGUÊS É sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário que apenas é usado quando vêm visitas, e outro, já velho-gasto-e-possivelmente-lascado, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos, toalhas de mesa ou as almofadas do sofá, que se viram ao contrário para…
A campainha está a tocar, vou ali abrir a porta: são os senhores que vêm instalar um contador bi-horário. Façam favor de entrar, é por aqui. Diz que é raro terem pedidos destes, que os últimos contadores do género foram instalados há muitos anos num mosteiro perdido no nevoeiro lá par…
E STA DOR QUE ME TEM APOQUENTADO a zona fronteiriça entre o fundo das costas e o começo das nádegas concebe previsões meteorológicas com maior exactidão que o ido Anthímio de Azevedo. Amanhã vai estar fresco, algumas nuvens e o Sol vai andar acabrunhado, diz-me. Tenho conversado com …
F OI NA PRIMAVERA TENSA de mil-nove-e-noventa-e-nove que uma malfadada espinha de carapau me escorregou através da glote e se espetou bem lá no fundo da garganta. (Se é sensível a descrições de teor visceral, não leia mais. Vá-se embora . ) Tentei tossir, mas não saiu. Comi pedaços d…
E ntrou pela janela ao fim da tarde, lançada por uma rabanada de vento que derrubou o porta-retratos. Os olhos do gato, que acordou assarapantado, seguiram a queda lenta até aos meus pés de uma folha que se enrolou sobre si como as rosas-de-Jericó quando rolam pelas areias quentes do d…
O ponto de exclamação no título é como uma palmadinha de consolação no meu próprio ombro. Quarenta ainda vá, mas quarenta — e! — um. Valham-me os Deuses. Este foi um ano de morte, de renascimento e de um grande salto de fé. Apaixonei-me, casei, mudei de nome, continuei a escrever…
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