O fio do tempo - parte II


Fiquei suspensa por um fio como uma aranha de pernas longas, a baloiçar para um lado e para o outro, desde a crónica escrita na edição anterior deste jornal. O fio do tempo tem brincado às escondidas, serpenteando através do mecanismo do relógio de parede, ora espreitando, ora ocultando-se por trás das rodas dentadas. 

Os braços sinuosos que tecem a trama do tempo trabalham com misterioso ardil; cortam o fio de uns e logo de seguida abrem as mãos de dedos draculinos libertando delicados novelos de fio de algodão que descem pelas encostas verdejantes, para deleite dos que aguardam pacientemente ao longo de nove luas.

O ribeiro prateado que desagua pelos olhos brilhantes segue uma inesperada direcção quando o calor de um sorriso o recebe. Não podes parar. O tempo é um príncipe eterno que caminha com um pássaro renascido no peito. O ponteiro dos segundos marca a contagem decrescente para que o novelo de fio alvo e macio esteja pronto a desenrolar-se devagarinho estendido pelo cordão umbilical de um bebé.

Pelas barbas de Zeus, desviai os olhos da barriga desta vossa escriba, que se encontra já fora de prazo-de-validade para tal laçada. O contributo ao mundo está rematado com o meu gaiato travesso e meigo que vai, também ele, percorrendo o fio do tempo com ténis número 38. Se houver algum volume abdominal que dê azo a suspeitas, desfaçam-se já as mesmas: é, por certo, flatulência!, que às vezes sucede quando me esqueço do motivo pelo qual tinha deixado de comer papas-de-aveia. Nada que uma infusão de funcho e hortelã não possa resolver com dignidade.

O bebé que aí vem é da minha amiga Liliana, que me pediu para assistir e acompanhar o nascimento. Esta vossa corajosa escriba, que se desfalece quando alguém corta um dedo numa lata de atum, aceitou tamanha honra grata e prontamente, sem hesitar — a minha amiga que não leia isto, ai senhores, e se ler, que fique tranquila, porque as técnicas de respiração que hão-de servir para uma, servirão para a outra. Força na peruca, estamos juntas nisto. 

Dizia o outro cavalheiro: “Para os amigos, tudo”. Serei amiga, irmã, mãe, confidente, treinadora de basket, malabarista, domadora de leões e tudo o que mais for preciso para ajudar o fio do tempo a nascer triunfante.

Esta semana, o arcano 8 de Paus diz-nos que não há tempo a perder nem fio a desperdiçar. Urge viver. Desatam-se nós, caminha-se para a frente. O milagre do impossível torna-se possível quando menos se espera, mais depressa do que se imagina. Como o choro de um bebé acabado de nascer.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1633
desenho: cortesia de Diogo Ribeiro

O fio do tempo


De braços abertos à largura do horizonte, procuro o equilíbrio apesar das línguas sibilantes de vento que me lambem o corpo, ora amparando, ora levando-me a oscilar. Caminho descalça sobre o fio retesado que une o nascimento à morte.

Os primeiros passos, ansiosos e apressados, frustravam-se pela lentidão com que o fio do tempo se desenrolava à minha frente iludido de eternidade. Quando julguei que tinha chegado a um ponto de segurança, sentei-me no fio e deixei-me ficar como um pássaro pousado nos cabos que unem os postes de electricidade — mas o fio do tempo estagnou e os meus pés arrefeceram.

Retomei a caminhada, passando por labirínticos enleios, nós apertados e laços desfeitos. O ritmo da passada abrandou, contudo, o fio do tempo passou a fugir-me debaixo dos pés como os riscos da auto-estrada. Quanto mais ele me foge, mais devagar caminho — numa vã tentativa de levar a melhor ao tempo.

A urgência e a curiosidade foram superadas pela consciência da tesoura afiada segura por mãos velhas e ossudas que em misteriosa hora cortará a outra ponta do fio sem piedade, tornando insignificantes todos os enleios, todos os laços, todos os nós. Nada disto importa.

Olho em frente para não cair. Os pés tremem, o vento uiva, mas olho em frente, ainda que de olhos embaciados como a escotilha de um navio sovado pelas ondas do mar. Não posso cair. Não posso. Não posso cair, porque se caio, não páro de cair mais fundo do que o chão, mais fundo do que a Terra, mais fundo do que os infernos dantescos até ser engolida por um buraco negro e cessar de existir.

O que se passa é que perdi uma amiga. A implacável tesoura, sem aviso prévio, cortou-lhe o fio da vida, levando-a inesperadamente a empreender a derradeira viagem rumo à imensidão etérea. O meu mundo ficou subitamente mais pobre, mais baço, mais cinzento-tabaco. A rede de segurança que me sustenta ficou com um buraco impossível de remendar. E agora, se eu cair, o que é que me agarra?

Esta semana, o arcano 2 de Copas leva-nos a reflectir sobre as ligações que estabelecemos uns com os outros, onde, como dizia a canção de Rui Veloso, “muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”.

Nem o fio do tempo, nem a gélida tesoura conseguirão apartar-nos daqueles que amamos. Apenas a falta de amor o poderá alguma vez fazer. E que esse nunca nos falhe. Que o consigamos demonstrar a tempo, por palavras e actos, enquanto o fio ainda está inteiro. Até sempre, Ana Paula Boturão (1963-2017). Obrigada por tudo.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1633
Foto: detapo, licença CC0

Crime organizado entre panelas e peúgas


Há ali uma falha na massa entre dois azulejos ao lado do fogão por onde já vi deslizar silenciosamente um tentáculo da Máfia siciliana. A minha cafeteira é uma ladra contrabandista. Coloco-lhe a água em baixo, o café no depósito central, enrosco a parte de cima e acendo o lume. A gangster octogonal colabora sem oferecer resistência, como uma boa e honesta cafeteira acima de qualquer suspeita.

A água ferve e sobe, percorrendo a secção onde se encontra o café, até chegar ao compartimento superior — dizem os vrai connaisseurs que o café é mais saboroso se subir em vez de descer, por algum misterioso motivo. No entanto, mal desligo o lume, ela — a velhaca — chupa o café de volta e fica com ele no andar de baixo.

Não será pela necessidade de beber o meu café-levanta-mortos que a chupista o rouba, mas certamente porque a Cosa Nostra chega a todo o lado. Uma pouca-vergonha pegada com sotaque italiano.

Mais ao fundo da cozinha, insuspeita junto à janela, encontra-se a sua comparsa, a máquina de lavar roupa. Essa é mais imprevisível na metodologia criminosa. Em breve reconstituição do último crime ocorrido, dirigiu-se esta vossa escriba com o alguidar da roupa para lavar na anca direita (toda a gente sabe que as ancas das mulheres servem para encaixar o alguidar), ajoelhou-se junto à máquina de lavar e colocou a roupa lá dentro: um pijama axadrezado, camisolas do gaiato, calças de ganga, dois vestidos, toalhas de banho, todo um arsenal de cuecas pretas e, por fim, as cobiçadas peúgas. Lembro-me perfeitamente de ter colocado para lavar aquele par de meias castanho-escuras com gatinhos que comprei para 'o meu filho' (e que acabaram por ficar para mim).

Regulo a máquina para o programa da roupa escura e vou aos meus afazeres. Quando a dissimulada mafiosa termina de lavar, retiro a roupa do seu interior e, com grande espanto, constato que apenas se encontrava uma (1!) das meias dos gatinhos. Rodei o tambor, inspeccionei a roupa toda, mas a infeliz meia desapareceu como se nunca tivesse existido, deixando órfã a irmã gémea. O desaforo não acaba aqui: apareceram, não uma, nem duas, mas três outras meias pretas que não coloquei para lavar.

É do demo: roubou-me uma meia e deu-me outras três que tinha furtado noutras lavagens em troca, como quem permuta reféns menos valiosos por outros que interessam mais.

Estou profundamente indignada com a patifaria que se está a passar na minha cozinha. Tanto a cafeteira quanto a máquina de lavar são membros executantes da Máfia, essas filhas-da-mãe que não têm outro nome — bem, ter, têm, mas vou abster-me por decoro.

Esta semana, o arcano 5 de Espadas surge-nos bruscamente como um gangster sem coração para nos levar as meias, o café e o bom-senso, numa batalha perdida onde ninguém é genuinamente vencedor.

Por vezes, o melhor é agir com distanciamento e não dar confiança à malandragem. Como vou fazendo com os atrevimentos dos mafiosos da cozinha: ignorar, evitar conflitos e conferir a roupa suja que se lava.

Hazel
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Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1632
Foto: andreas160578, licença CC0

Pista: 38.693449,-9.309771


Está decidido. Amanhã vou fugir. Já tenho a mala pronta. Caderno e lapiseira para algum rasgo de inspiração que possa surgir desavisadamente, uma muda de roupa para o caso de precisar de dormir fora, lápis preto para os olhos — terão de me perdoar a vaidade —, escova de dentes e desodorizante (pretendo ser uma fugitiva digna e asseadinha), e um telemóvel desligado. Acreditem em mim, vou fazê-lo. Dixit. Ninguém sabe; nem às paredes que me rodeiam confidenciei tão inusitado plano.
É segredo absoluto.

Não fujo à polícia. Tenho as contas em dia, actividade profissional legalizada, e apenas uma multa de estacionamento à espera de perdão divino, bem como o cartão de cidadão fora de prazo por casmurrice minha — porém, nada que justifique uma busca policial pela singela pessoa que vos escreve. Também não fujo de algum desgosto ou tristeza. Todos sabemos que a tristeza, quando quer apanhar alguém, agarra-o pelos artelhos e já nem à casa-de-banho o desgraçado consegue ir condignamente.

É do tempo que fujo, esse grande garganeiro. A mim não engana ele. Então, ainda há meia dúzia de dias nasci, até me lembro de estarem todos à espera que acabasse a “Gabriela, Cravo e Canela”, que estreava em Portugal, para fazerem o meu parto e agora, sem mais nem menos, diz que amanhã se completam quarenta anos que aqui estou? A areia da ampulheta gigante que mede a passagem do tempo anda certamente a ser desviada lá para as praias de São Pedro de Moel.

Chegados a este parágrafo, credes, amáveis leitores, que esta seja talvez uma crónica como as outras e que tudo isto é uma inocente metáfora. Contudo, sabem aqueles que me conhecem de perto que não gosto de fazer anos, é uma data que me causa sempre uma ansiedade irracional que me leva a desligar o telemóvel e a esconder-me em casa como quem se prepara para uma catástrofe nuclear. Por algum motivo, fico sempre assim no dia do meu aniversário, e esforço-me por fingir que estou contente para não ser uma bota-de-elástico desmancha-prazeres.

Amanhã vou estar mais velha, mais flácida, mais sábia e ajuizada (pelos vistos, nem ao menos isso!) e um ano mais perto da morte. Uhu, que emoção. Assim, este ano, porque a idade é um estatuto e só se faz quarenta anos uma vez, decidi celebrar o meu aniversário de forma a que nunca mais esqueça, mesmo que um dia o Alzheimer me apanhe desprevenida, e fazer algo que realmente me divirta: uma charada.

O meu bilhete de fuga é, justamente, esta crónica e a primeira pista para alguém me encontrar é a sequência de números que está no título. Quando encontrarem o local, terão de responder a um enigma (o enigma será entregue apenas directamente no local, e não por telefone). Quem responder correctamente, terá outra pista onde poderá ser dada a minha localização. Os corajosos que conseguirem encontrar-me, receberão de presente uma leitura de Tarot. Boa sorte! 😃

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1631

A cereja no topo

Os meus olhos fogem-lhe para as cuecas; procuro não olhar, mas é inevitável. Vocês também olhavam se aqui estivessem. Fotografo em palavras, correndo o risco de vos apresentar uma foto tremida: barba esparsamente semeada, cabelo rebelde a bater nos ombros, lábios trocistas. Um Jim Morrison do século XXI, de pernas longas e magras, calças justas quase a cortar a circulação sanguínea, negligentemente caídas como se acabasse de sair da casa-de-banho e se tivesse esquecido de puxá-las para cima (a minha avó também andava assim por vezes, como estes mancebos de agora, mas devido à demência e não à moda).

‘Senha R65’, pisca o monitor pendurado junto ao tecto, para onde todas as cabeças se viram como cágados a espreitar de fora da água cada vez que o sinal sonoro dispara. Levanta-se o jovem Morrison, caminhando com atitude felina, apesar dos passos de estreita amplitude, presos pelo gancho das calças ao nível dos joelhos. Todos os olhos entediados pela espera se lhe repousam nas nádegas sem que isso lhe cause qualquer beliscão. Seguro e confiante, exibe com desfaçatez o arredondado nalgal contornado pelas cuecas de elástico puído, com padrão de xadrez azul-turquesa-toalha-de-cozinha-mediterrânica.

Assina aqui, rabisca ali, molha o dedo na tinta, carimba este papel, depois aquele, compõe o cabelo para a foto. Vamos medir a altura, diz a senhora do Registo Civil na voz monocórdica e computorizada de quem repete as mesmas frases há mais de vinte anos. Algo muda subitamente nele. Há ali um torpor, uma emoção renovada.

Encosta-se à parede onde está a régua e apercebo-me dos espantosos ténis de sola de porta-aviões. Estica-se o máximo que pode levantando discretamente os calcanhares do chão, como quem não quer a coisa, enquanto sorri com a satisfação matreira de quem acaba de enganar o sistema em bicos-de-pés e cuecas de fora — debaixo das barbas de todos. Bem somado, deve ter ganho mais uns sete centímetros de altura. Para ele, um metro e oitenta não devia ser suficiente.

‘Senha R66’, fecha-se um jornal e levanta-se um homem baixo e compenetrado. Os mesmos procedimentos, assina, molha o dedo, fotografa, mede. A régua desce a pique até cerca de metade da altura para apurar a altura do senhor, que levava sapatos rasos e tinha os calcanhares pacificamente assentes.

O arcano 9 de Copas leva-nos a reflectir sobre a necessidade de estar grato e de valorizar o que temos. Querer sempre mais é estar desfasado do aqui e do agora, com a atenção focada um passo à frente do espaço que realmente ocupamos, num estado de carência e de gulodice insaciável; mesmo que nos oferecessem aquele pedaço de bolo que julgamos precisar, seria uma grande frustração se não houvesse uma cereja no topo — embora saibamos que um bolo não deixa de ser um bolo ainda que não tenha a cereja vermelha.

‘R67’, chegou a minha vez. Capricho na assinatura. Um metro e sessenta e nove (sem intenções maliciosas, garanto-vos por tudo o que há de mais sagrado). As sandálias rasas também não se afastam um milímetro do chão.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1630
imagem vectorial, licença CC0

Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Bem-viver


«Ai filha, é aqui, aqui mesmo ao fundo das costas, ai que dor», gemia a tia Carlota, enquanto esfregava as cruzes com a mão direita cheia de anéis de prata. Era uma mulher estupenda. Grande, forte, de ancas largas e seios fartos que denunciavam um gosto particular pelo erotismo vivido secretamente nos seus tempos de viço.

«Instalaram-me uma antena ‘paroloca’ no quintal, diz que é para apanhar mais canais, mas eu tenho lá tempo para ver televisão, filha». Padecia de todas as maleitas conhecidas e mais algumas ainda-por-inventar — mas jamais de desânimo, abençoada —, que desapareciam como gelo em dia de Sol mal subia os degraus do autocarro, de mala de viagem pela mão.

Nunca se sabia por onde andava. Viajava com a sofreguidão de um fugitivo que leva a foice da morte atrás de si. Poucas vezes privei com a inquietante senhora; via-a quase sempre nos funerais e, até mesmo em tão circunspectas ocasiões, a sua presença era um vendaval quente e colorido, abundante de beijos lambuzados e repenicados que distribuía sem poupar saliva, enquanto relatava, a uma conveniente distância do finado e dos que o choravam, as novidades da última excursão a Benidorm, a Paris, a Fátima, a Ceuta, a Marrocos.

De tez bronzeada, como se tivesse condensado dentro de si o Sol do deserto do Saara, a sua alegria vibrante fazia-me acreditar que só pela sua chegada tinha começado uma festa. As suas roupas tinham padrões que nunca combinavam entre si, como pessoas de diferentes nacionalidades a falar ao mesmo tempo em diversas línguas. Nela, fazia sentido.

Esta semana, o arcano Rainha de Ouros inspira-nos a temperar a vida com especiarias, a rodopiar com o seu perfume extasiante e a deliciar-nos com todos os pequeninos prazeres que conseguirmos alcançar, nutrindo o corpo e a alma. Urge devorar a vida com volúpia. Aqui, agora. Já. Pela nossa felicidade e pela dos outros.

Imagine o que seria se cada leitor decidisse hoje fazer algo simples, prazeroso e diferente. Mesmo que esteja a ter um dia difícil. Melhor: não imagine, faça. Prove a si próprio que consegue sair da norma e permitir-se um momento de prazer, tenha a idade que tiver: recorte esta crónica, faça um avião de papel com ela, escreva com um marcador “Abrir em caso de tédio”, e atire-o pela janela!

Que esse avião de papel represente para si um pequeno prazer que dará início a muitos outros (com pontuação a dobrar se alguém abrir o avião para ler). Desafio-o.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1626
Foto: Wetmount, licença CC0

Ou fumam todos, ou não fuma nenhum


Portugal está dividido em dois. De um lado, espetam-se dedos indicadores manchados de amarelo-nicotina, ferozmente indignados com a possibilidade da proibição de fumar nas praias. Reclamam, entre baforadas desesperadas de fumo cinzento, que é uma forma de ditadura, um ridículo atentado à sua liberdade, que não tem jeito nenhum, que não cabe na cabeça de ninguém.

Do outro lado, encontram-se, em estado zen, os saudáveizinhos para quem o cinzeiro do carro serve só para pôr as moedas. Satisfeitos e aliviados por finalmente poderem inspirar o perfume da maresia na época balnear, sem o indesejável fumo egoicamente exalado — pelos outros —, desejam que a abençoada lei seja aprovada o mais depressa possível.

Ora, depois da proibição de fumar em espaços fechados, voltamos a aborrecer-nos uns com os outros por causa dos espaços abertos; quando ainda mal tivemos tempo de superar o choque da prepotência de Miguel Sousa Tavares: quando questionado, na época, sobre a questão das crianças respirarem o fumo do tabaco nos restaurantes, sugeriu que os pais se abstivessem de as levar a lugares públicos, até porque o barulho delas era mais incomodativo que o fumo. Por aqui se vê os malefícios do excesso do tabaco. Ainda assim, teve que se submeter à nova lei, tal como os demais indivíduos-inaladores-e-exaladores de fumo.

Concordo que não se deve condicionar a liberdade dos outros. É um direito absolutamente inquestionável. Querem fumar, fumem. Que inalem todo o fumo que lhes aprouver (como dizia o outro, quando morrerem, vão de costas). O que não podem é exalá-lo junto de quem não partilha o seu vício. Explicando o óbvio: é tão inaceitável como qualquer outro toxicodependente andar a injectar as drogas que toma no corpo dos outros. Só não parece tão mau. Mas é.

Inalem isto de uma vez por todas: a questão que se trata aqui não é a de privar alguém da liberdade de fumar. Trata-se, sim, do exercício da liberdade de escolha para os outros, os que não querem ser fumadores passivos.

Esta semana, o arcano Roda da Fortuna recorda-nos que nada pode ser tomado por garantido e permanente. Nem as leis, nem os costumes, nem a vida. Vêm aí novos tempos, de ar limpo e oxigenado. Talvez doa um bocadinho ajustarem-se, especialmente no ego. Mas, se isto vos serve de consolo, leitores fumadores-furibundos: em Nova Iorque, onde desde 2011 foi aprovada a proibição de fumar em parques e praias, os resultados foram de uma melhoria na saúde geral da população, com menos registos de enfartes do miocárdio e idas às urgências. E esta, hein?

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1625
foto: Hans, licença CC0

Por vossa conta e risco


Sou uma ladra de molas da roupa. Assumo este pequeno e desavergonhado prazer que sinto de surripiar as molas caídas no chão junto aos prédios. Nem é pelo valor (quanto custa um pacote de molas, um euro, dois?), mas pelo mesmo tipo de satisfação que leva os safardanas dos meus gatos a abocanhar um filete de pescada deixado na bancada da cozinha quando vou atender o telefone; ou que, aos dez anos, tocava as campainhas todas da rua quando vinha da natação — até um dia uma vizinha fazer-me uma espera, escondida de cócoras atrás de um arbusto de erva-das-pampas, e ameaçar agarrar-me “p’las gadelhas qu’até andas de lado” se voltasse a repetir a façanha (foi remédio santo).

E digo mais: tenciono fazer perdurar o travesso delito até que um dia algum queixoso me aponte uma mola acusadora e ameace entalar-me a ponta do nariz com ela. Ou outra parte do corpo, deuses me protejam as carninhas tenras. A vida de larápio tem os seus riscos. Não me desculpo por isso, que as desculpas pressupõem arrependimento e eu não tenho pinga de remorso (nem de vergonha). Também não fico apoquentada quando são os outros a apanhar as molas que deixo cair. É a lei da selva, no universo dos estendais; quem chega primeiro, caça as molas.

Creio que só adquiri molas da roupa uma vez, lá para os idos de 2010, da forma tradicional — compradas no supermercado. Não teve encanto: estacionei a viatura, paguei o parquímetro e senti-me logo gamada. De seguida, tive de gratificar o arrumador por serviço algum senão o de evitar que este causasse estragos intencionais no meu nobre corcel. Andava por lá um agente da polícia, mas distraído, muito distraído.

Já dentro do supermercado, comprei yogurte grego, fabricado em Espanha; carne nacional, importada da América do Sul, e três pacotes de molas da roupa numa daquelas promoções leve-três-pague-dois, embora o valor, se fizéssemos as contas, fosse dar ao mesmo.

O arcano sete de espadas surge-nos esta semana pela calada da noite, ardiloso e tentador, a desafiar-nos a pular a cerca para ver o que há do outro lado. Tenho cá para mim, eu que só apanho as molas caídas junto à cerca, que do lado de lá existe uma daquelas marquises de apartamento tipicamente portuguesas, onde se encafuam as máquinas de lavar roupa.
É que cheira sempre a limpinho quando leio as notícias no jornal, com tanta referência a lavagem de dinheiro, ou branqueamento de capitais para quem prefere um programa de lixívia, com detergente offshore.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1624
foto: do meu estendal de meias

O Breviário do Homem: tudo o que se espera de um macho man


Se és homem, vais emocionar-te por finalmente alguém do sexo oposto reconhecer as exigências que se esperam de ti desde que o biberão deu lugar à garrafa de cerveja. Porém, não verterás uma lágrima. Porque acreditaste quando alguém te disse que "os homens não choram".

Em casa
Tens de sacrificar espaço no roupeiro. Quando digo espaço, refiro-me a muito espaço. O ideal é que coloques as tuas camisas todas num só cabide e cedas todo o resto do roupeiro. 
Quando aparecem baratas, aranhas, centopeias ou cobras-cascavel em casa, és tu que resolves. E, porque és homem, não podes ter medo — medo, que é lá isso? 
És tu que tratas das tarefas domésticas nojentas, como desentupir o sifão da cozinha (ou a sanita, abençoado). Além disso, também tens de saber reparar torneiras que pingam, trocar o silicone bolorento da banheira e fazer puxadas de electricidade.

Carros
Consegues estacionar à primeira em lugares impossíveis. Com uma mão no volante.
Não necessitas de GPS; tu és o GPS. Sabes sempre o caminho e nunca te perdes nem precisas de parar para pedir direcções. Espera-se também, sempre que necessário, que saibas mudar e calibrar pneus, verificar o óleo e percebas de mecânica — no mínimo. 

Com as mulheres
Tens de defender a honra da tua mulher (mesmo que ela tenha uns bíceps iguais aos do Salgueiro), estando sempre pronto para andar à porrada, independentemente do outro tipo — o prevaricador — ser um latagão de dois metros e tu não chegares ao metro e sessenta. 
Abdicas sem pestanejar do teu casaco se ela estiver com frio, mesmo que tenha 3 camisolas polares, e tu fiques com uma pneumonia a seguir. Homem que é homem, não tem frio. Arrr!
Tens de ceder passagem às mulheres todas, feministas incluídas (aguenta).

Personalidade
Não podes chorar. Tens de ser corajoso, seguro de ti, independente, protector e forte como o Tarzan Taborda. És tu que carregas as compras, a bilha do gás e tudo o que for pesado; além de abrires frascos. Tens de saber fazer fogueiras. E perceber de futebol. E de tudo em geral.
É também sensato que desenvolvas capacidades telepáticas; vai facilitar muito na relação com o sexo oposto. Por exemplo:

— O que tens, minha biscoitinha linda? — tu para ela.
— Nada — responde ela, secamente, com a cara número vinte sete. Tu aí sabes que "nada" é tudo. E tens de te safar a ler pensamentos.

Arriscar a vida
Atiras-te de peito para a frente, sempre pronto para arriscar a vida. Se houver um barulho esquisito a meio da noite, és tu quem se levanta. Se houver uma guerra, vais tu primeiro. Animais ferozes, metes-te à frente para proteger a tua mulher. Catástrofes naturais — calma!, onde é que vais com tanta pressa? Nesse caso, vão as mulheres, as crianças e os idosos à frente. Tu és o último a ser resgatado. Desculpa aí, macho man. 😃

[Escrito para me redimir desta crónica sobre os homens. Embora, se calhar fiz pior!]

Às voltas com a tampa de um frasco,

Hazel

“Ponha esse coração a funcionar”


Cabelo preto curtinho e fino como pêlos de pincel-de-aguarelas, a previsível nuvem de perfume antigo e os envelopes dos exames médicos debaixo das mãos trémulas e enrugadas. Os seus olhos acinzentados e pequeninos de rato observavam-me com agudeza perscrutando o que levaria uma sirigaita da minha idade, coradinha, bem-disposta e luzidia, sem estar grávida, ao centro de saúde tirar o lugar a quem precisa.

Baixei a cabeça para o meu livro, que tinha levado de casa para evitar as revistas cor-de-rosa que costuma haver na sala-de-espera. A senhora do cabelo de pincel-de-aguarelas manteve o olhar na mesma direcção, mas sem nada ver, como se o tempo — o seu tempo — tivesse feito uma breve pausa para retemperar forças.

Oiço finalmente o meu nome ser chamado numa voz clínica e fria como o metal da agulha de uma seringa (porque será que as enfermeiras têm sempre aquele tom incisivo que nos faz antecipar algo doloroso?).

Levanto-me atabalhoadamente, deixando cair a carteira para o chão. Espalham-se os cartões do supermercado, da biblioteca, do combustível, e talões nem-sei-de-quê, que recolho à pressa para não fazer esperar o Senhor-Doutor. Todos os segundos contam. Apresso o passo, entro educadamente no consultório, fecho a porta atrás de mim e cumprimento o médico com um aperto de mão onde as minhas falanges são comprimidas com vigor. O meu médico tem sempre aquela atitude salutar e vitaminada, de quem foi criado a tomar óleo de fígado de bacalhau todas as manhãs.

De olhos franzidos postos no computador e óculos na ponta do nariz, consulta eficaz e rapidamente o meu histórico. Entrego-lhe os resultados dos exames que me tinha mandado fazer e aguardo o veredicto com dramatismo, como se toda a minha vida dependesse daquele momento. O Senhor-Doutor empurra os óculos para o topo da cana do nariz e afasta os papéis para ver melhor ao longe:

— Ponha esse coração a funcionar — disse o meu médico na sua voz de médico, clara e firme, enquanto pousava o electrocardiograma.

Por segundos, a romântica idiota em mim ficou embevecida a pensar que ele queria dizer que tenho de amar mais. Ah que lindo. Ainda esbocei um sorriso pateta, que logo procurei disfarçar quando realizei que, afinal, o que se pretende é que eu faça mais exercício.

Saí do consultório com asas nos pés, tamanha a satisfação. Ainda não é desta que se livram de mim. E ri-me sozinha pela minha interpretação idealista do conselho médico. A senhora dos olhinhos de rato apanhou-me em flagrante a rir sozinha pelo corredor. Sinto que, depois disso, achou que o meu problema seria de ordem mental, o que ainda me fez rir mais. É uma injustiça que o riso só seja socialmente aceite se estivermos acompanhados e que sejamos olhados com descrédito quando nos apanham a rir sozinhos.

Esta semana, o arcano seis de Copas inspira-nos a reencontrar a leveza e a capacidade de manter o sentido de humor em todas as circunstâncias. Para quê tanta seriedade. O riso cura. 
Se não curar, alivia. E, se não aliviar, tomem óleo de fígado de bacalhau.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1623
foto: voltamax, licença CC0

Advertência: crónica imprópria para aracnofóbicos convictos


Tenho uma aranha na sala. Não sei bem onde, mas anda por lá, umas vezes encolhida e introspectiva no canto entre o tecto e a parede do sofá, outras feita lambisgóia atrevida suspensa sobre a porta de entrada, como quem se prepara para pregar um susto aos que entram desprevenidos.

É meio cigana; anda sempre para cá e para acolá sem endereço fixo. A Dona Urraca — é assim que lhe chamo — não faz teia-de-aranha. Com muita pena minha, que aprecio a impecável engenharia de fios de seda entrelaçados com exactidão matemática e individualmente afinados como cordas de violino. Esta é uma aranha afoita, de nariz empinado se o tivesse, que não troca a liberdade pela segurança e nunca há-de assentar. É uma filósofa, uma aventureira, das que caçam para se alimentar em vez de ficar pacientemente sentada sobre as oito patas na teia à espera que o almoço lhe caia por distracção mosquitídea.

Já a do espelho lateral do meu carro — paz à sua alma, que se finou na última ida à lavagem automática — fazia belíssimas teias-de-aranha que resistiam à chuva, ao vento e à velocidade. Mais do que uma companheira de viagem, era um valoroso sidecar aracnídeo que conhecia todos os meus caminhos, atalhos e desvios; possuía as capacidades místicas de um oráculo animal na antevisão de engarrafamentos; para além de fazer com despudorada habilidade aquele gesto com duas patas aos automobilistas que se impacientavam comigo nas raras ocasiões que me atrevi a conduzir em Lisboa. Só comia fast-food, consoante a fauna voadora dos locais por onde viajámos se ia escarrapachando velozmente contra a teia. É certo que fiquei com o veículo mais digno e limpo, sem teias-de-aranha no espelho, porém passei a perder-me mais vezes.

Talvez a aranha de casa fosse mais feliz a viajar no carro, e a do carro tivesse encontrado maior conforto sossegadinha na sua teia sem ninguém que a apoquentasse ali no cantinho da sala junto ao sofá. Explicou-me a Dona Urraca, que me viu acabrunhada neste desvario existencialista, tragicamente a transpor para mim a analogia —, que a nossa casa é dentro de nós. A Dona Urraca é uma aranha batida; já viajou muito na vida, desde a parede do sofá até à porta de entrada da sala. Logo deduzi que até no meio dos meus livros essa saltimbanca andou, pois era o Mário Quintana que dizia “eu moro em mim mesmo”. Sorrio constatando que as minhas aranhas sabem mais que eu.

Esta semana, o arcano Dez de Ouros incentiva-nos a observar o local onde vivemos sob diferentes perspectivas e a ordená-lo, afiná-lo com delicadeza aracnídea, encontrando o lugar para cada coisa - e um sentido para tudo.

Dentro de casa e, como diz a Dona Urraca, que gosta de Mário Quintana — dentro de nós.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1622
foto: bernswaelz, licença CC0

As gordas e as magras


Com excepção daquelas sacanas d'um raio que não são magras nem gordas, todas as mulheres vão compreender:

Barriga
Se és gorda e tens barriga, ficam na dúvida se é por seres gorda ou se estás grávida.
Se és magra e tens barriga, têm a certeza que estás grávida, mesmo que seja de uma feijoada.

Críticas
Se és gorda, criticam-te porque és gorda.
Se és magra, criticam-te porque és magra.

Roupas que não te servem
Se és gorda, vais ter sempre aquelas roupas que te ficam justas e por isso se fazem sentir desconfortável, que guardas na esperança de vir a emagrecer um dia.

Se és magra, vais ter sempre aquelas roupas que te ficam largas e por isso se fazem sentir desconfortável, que guardas na esperança de vir a engordar um dia.

As de tamanho diferente
Se és gorda, achas que as magras não te compreendem verdadeiramente.
Se és magra, achas que as gordas não te compreendem verdadeiramente.

Sonhos
Se és gorda, gostavas de ser mais magra. Mais do que ter uma casa com piscina.
Se és magra, gostavas de ser mais gorda. Mais do que ter uma casa com piscina.

Pijama
Se és gorda, achas que ficas mal de pijama.
Se és magra, achas que ficas mal de pijama.

Mas quem é que alguma vez fica bem de pijama, com excepção, talvez, das sacanas d'um raio que não são magras nem gordas?

Como se referem a ti
Se és gorda, estás habituada que se refiram a ti como aquela que é forte. Ou mesmo a gorda
E acham sempre que és mais velha do que és.

Se és magra, estás habituada que se refiram a ti como aquela magrinha. Ou a magricelas
E acham sempre que és mais nova do que és (não, nem sempre isso é uma vantagem).

Os olhares das outras
Se és gorda e uma magra olha para ti, julgas que te está a criticar.
Se és magra e uma gorda olha para ti, julgas que te está a criticar.

Às vezes não está. Só está a olhar para ti porque estás ali. Porque existes.

Novamente, as roupas
Se és gorda, tentas sempre escolher roupas que te façam parecer mais magra.
Se és magra, tentas sempre escolher roupas que te façam parecer mais gorda.

Os nomes que já te chamaram
Se és gorda, já te chamaram nomes que ainda hoje magoam quando te lembras.
Se és magra, já te chamaram nomes que ainda hoje magoam quando te lembras.

Planos nunca concretizados
Se és gorda, já ouviste milhões de vezes - sem contar com aquelas que foste tu a dizê-lo a ti mesma - "tens que emagrecer".

Se és magra, já ouviste milhões de vezes - sem contar com aquelas que foste tu a dizê-lo a ti mesma - "tens que engordar".

Elogios
Se és gorda, já ganhaste o dia quando alguém comenta: "Estás mais magra!" 
Até pode estar tudo a correr mal, mas tu estás mais magra. Viva!

Se és magra, já ganhaste o dia quando alguém comenta: "Estás mais gorda!" 
Até pode estar tudo a correr mal, mas tu estás mais gorda. Viva!


Escrito por uma mulher magra que espera que um dia todas as mulheres se amem, respeitem e aceitem a si próprias e umas às outras exactamente como são. 

Porque as gordas são iguais às magras. E as magras às gordas. 
E gordas e magras são iguais às sacanas d'um raio que não são gordas nem magras.

Com amor, para todas as mulheres,

Hazel

De raízes bem assentes no chão


Não me atrevo a reproduzir nestas respeitáveis páginas o palavrão que me invadiu os pensamentos quando li a notícia sobre a oliveira milenar de Mouriscas - mas afianço-vos que era um exemplar vernacular escandaloso e com pêlos púbicos. Tão depressa li a notícia publicada n’O Ribatejo, logo a partilhei na minha página pessoal de facebook - deixando de fora o genital vocábulo -, sem conter toda a indignação que me assolou. Como um rastilho aceso, a revolta propagou-se imediatamente por centenas de pessoas de Norte a Sul de Portugal, Reino Unido e até mesmo no Brasil.

Guilherme Falcão Rosa, vereador de Lambeth, Londres, pretendia arrancar uma oliveira da freguesia de Mouriscas, Ribatejo, para replantá-la numa praça londrina, em comemoração da aliança luso-britânica. Esclareceu o equívoco de se tratar da oliveira mais antiga de Portugal, com 3350 anos, convicto que já seria ‘aceitável’ transplantar um outro exemplar, que fosse, no mínimo, mais antigo que o tratado de Windsor, assinado em 1386 (para quem teve preguiça de fazer as contas, foi há 631 anos).

Está tudo errado. Primeiro, uma árvore não é um objecto de que se possa dispor - em particular, uma árvore secular, que deveria ser intocável, sagrada. Não é o mesmo que ir ali ao mercado de Santarém comprar uma árvore num vasinho de plástico para plantar no quintal.

Segundo, uma oliveira dificilmente sobreviveria no clima londrino. Iria acabar por morrer, se não pela violência do transplante, pela diferença climatérica. Guilherme Rosa, focado no protagonismo imediato, preferiu ignorar esses ‘detalhes’, considerando-os má vontade das pessoas, que não o queriam deixar trabalhar.

“Guilherme, deixa-te de parvoíces!”, exclama um dos seus amigos na sua página pública, sucedido por largas dezenas de outros protestos. Houve mesmo quem manifestasse o desejo de oferecer o próprio Vereador GFR como presente, em lugar da oliveira, desculpando-se como as tias idosas quando oferecem cuecas pelo Natal: “É fraquinho, mas é de boa-vontade”.

Guilherme Rosa marchou como um soldado teimoso descompassado de todo o pelotão de protestos, clamando que ele é que estava certo, numa atitude caprichosa e obstinada.

Em poucas horas, já circulava uma petição que se opunha à inusitada ideia, que rapidamente contou com mais de um milhar de assinaturas. A petição, assim como as pressões exercidas pelas redes sociais e pelo PAN, levaram o executivo de Lambeth a abandonar a ideia.

GFR considerou, em declarações prestadas à comunicação social, a campanha contra o seu projecto “vil e pérfida”. Contudo, aconteceu, justamente, o oposto. A oliveira foi salva graças à bondade de milhares de pessoas que se juntaram por um bem superior, demonstrando que o amor pela Natureza está vivo e de boa saúde.

Esta semana, o arcano O Mago inspira-nos a levar avante aquilo em que acreditamos. Se conjugarmos, nas medidas certas, mente e coração, acção e sensatez, tudo pode acontecer. 
Até mesmo unir milhares de pessoas para mudar o destino de uma árvore.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1621
foto: Julie-Kolibrie, licença CC0

O Ladrão de Estrelas


Esta tarde de Domingo, um ladrão de estrelas esgueirou-se silenciosamente pelas escadas do meu prédio, matreiro e rasteirinho ao chão como um gato vadio quando avista a presa, e roubou a estrela que esteve durante muitos meses pendurada na minha porta de entrada.

Oh Senhor Ladrão de Estrelas, porque fez isso? 

A minha porta, que é uma porta sensível, está inconsolável, despida, solitária. Era apenas uma simples estrela, como as que se penduram nas árvores de Natal; não era valiosa - mas era nossa.
Para consolo da minha porta que chora lágrimas de orvalho, assegurei-lhe que irei fazer uma nova estrela para ser sua amiga e confidente.

Cuide com amor a estrela que levou sem pedir permissão. Que ela o guie no caminho para a felicidade (entendo que não seja feliz, caso contrário, porque necessitaria de surripiar uma estrela indefesa, alheia?).

Quando - e se - encontrar a sua própria luz, por favor, devolva a nossa estrela.

Um pouco triste,

Hazel

P.S. - Seja antes um Ladrão de Beijos. 
Deve ser mais emocionante roubar beijos que estrelas. 

Cileide, Sarah e Liam


"Minha mãe vai se aposentar e ela gostaria de morar em Portugal. Ela te acompanha no seu blog há muito tempo. Você pode mandar um abraço para ela?"

A maior recompensa por escrever e partilhar nas páginas desta casa-livro virtual nove anos da minha existência é a amizade que foi surgindo com pessoas maravilhosas que, de outra forma, dificilmente teria tido oportunidade de conhecer, por estarem longe, seja noutras cidades de Portugal, seja do outro lado do oceano - no Brasil.

Fiz um vídeo em resposta à mensagem da família Cileide, Sarah & bebé Liam, que pediram o meu endereço, para onde enviaram uma caixa com presentes embrulhados em papel, alegria e carinho. Um raio de Sol brasileiro para aquecer o Inverno português.

Porque será que todos os brasileiros têm uma caligrafia leve, bonita e feliz, como se as letras dançassem? Amor em cada letra. Adoro!

Muitas graças pelos vossos generosos presentes e pela vossa amada presença.

Hazel

Em busca do tesouro esquecido


O olhar insinuante e furtivo de Ofélia é, reflectido em mim, apanhado de flagrante pelos olhos matreiros do cavalheiro sentado na mesa atrás e, de imediato, ela fecha-me e atira-me para o fundo da bolsa, de onde retira um leque perfumado, que abana com petulância. O seu peito de pomba, empoeirado com pó-de-arroz, palpita como se o espartilho lhe empurrasse o coração para perto da boca.

Concede-me a honra desta dança?, arrulha o indivíduo ao seu ouvido. O vestido rodado parecia flutuar pelo salão, roçando nos outros vestidos de cores pastel, que deslizavam entre notas musicais, rendilhados e sussurros.

Saí do compartimento da bolsa bordada sempre em grandes ocasiões: lábios retocados com discrição em bailes onde se decidiam destinos apenas com a cumplicidade de um olhar; lágrimas comovidas em casamentos, que eram educadamente secas com lenços monogramados; o tule preto que se puxava com circunspecção do chapéu num ou noutro funeral.

No quarto de Ofélia, as paredes rosa-escândalo não raras vezes me viram abandonar em suspiros aos Nocturnos de Chopin entre as fiadas de colares de pérolas perfumadas com eau de toilette e a escova de prata com cerdas de crina de cavalo branco, sobre a penteadeira de madeira marchetada.

Quando fazia um passeio pelo campo acompanhada do cavalheiro dos olhos matreiros, Ofélia deixou-me cair para o chão sem que desse conta. Passei o Outono e o Inverno entreaberto debaixo das folhas castanho-dourado dos plátanos. Conheci a doçura do orvalho que escorria por mim todas as madrugadas, o cheiro da terra molhada e o despertar dos pássaros -, a mais bela sinfonia.

Um caracol fez de mim abrigo e, durante muitos dias, partilhámos a solidão e o silêncio. Ofélia, os bailes e os colares de pérolas pareciam-me agora tão distantes e pequeninos em comparação com a grande alegria que foi para mim conhecer este outro pedaço do mundo.

Ao romper da Primavera, uma mulher com um chapéu de abas largas caminhava à sombra dos plátanos sem quase fazer barulho, tendo como única companhia duas borboletas de asas brancas. Estendeu as mãos, que me descobriram por entre as ervinhas verdes. Os seus olhos sorridentes, reflectidos em mim, tinham sulcos que pareciam bigodes de gato. Eram sinceros, bondosos.

Observou-me e deixou-me ficar. Não precisava de tesouros. Nos seus olhos, o Sol brilhava a partir de dentro. Um baile de flores que dançavam com a brisa morna cobriu-me totalmente. Nunca me senti tão feliz.

O arcano Nove de Ouros inspira-nos a olhar para dentro e descobrir tesouros perdidos, esquecidos ou mesmo abandonados. Já temos tudo o que precisamos, aqui, agora. Dentro de nós. Quem duvidar, que procure bem.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1620
foto: imediacreatives.it

9 anos a escrever sem parar

Tive outrora um vizinho, um senhor já com muita idade que morava numa casa estreita e espantosamente alta; parecia um ponto de exclamação ao fundo da rua. Ao longo da vida, foi sempre acrescentando e construindo, conforme as economias lho permitiam. A peculiaridade da sua casa surpreendia quem passava. Achava-se que ele era meio louco, porque podia parar, não precisava de continuar a esticar mais a casa, mas ele fazia-o quase como uma obsessão. Já não sabia viver de outra maneira.

Um dia, deixei de ouvir as batidas das ferramentas nas paredes. O silêncio instalou-se. O senhor construiu até ao último sopro de vida. A casa continua de pé, habitada pelo vento que se esgueira pelas frestas, os ecos das pancadas nas paredes e a hera que não pede licença para serpentear ao longo dos muros. Penso que o compreendo. Também não sei para que escrevo - senão dar sentido à minha existência.

Há nove anos, nasceu este blog. De alguma inexplicável forma, dá-me serenidade pensar que, por muitas voltas e reviravoltas que o mundo dê, uma parte de mim mora sempre aqui, nesta Casa Claridade, onde os alicerces e as paredes são feitos de frases, e os tijolos, que fui pacientemente colocando, um por um, são as palavras que escrevo.

Consultei as estatísticas há uns dias, e senti-me grata por saber que esta casa teimosa e exclamativa foi visitada mais de quatro milhões de vezes desde que nasceu. Agradeço-vos por terem a paciência de lerem o que escrevo e pela proximidade que se cria entre nós. Escuso-me por alguma vírgula mal colocada, como quem pede desculpas pela desarrumação às visitas.
Mas o sofá é confortável e o chá foi feito com amor.

Muitas graças a todos.

Hazel

Festival de Balonismo em Coruche


O 1º Festival Internacional de Balonismo irá realizar-se de 28 de Março a 2 de Abril em Coruche, a cerca de 45 minutos de Lisboa, e contará com mais de trinta balões de ar quente vindos de vários países do mundo, alguns com formas especiais, como o pelicano que virá do Brasil, ou a coruja de Las Vegas, EUA. 

Durante seis dias, os visitantes deste festival de entrada gratuita poderão observar a vila ribatejana a partir do céu, assistir ao Night Glow, um espectáculo de luz e som onde os balões irão sincronizar os seus queimadores com o ritmo da música; haverá artesanato e actividades para toda a família e a presença de restaurantes tradicionais da vila e street food, à volta da Praça de Touros.

Este evento, onde a sustentabilidade é um factor de relevância, irá contribuir para a plantação de árvores de espécies autóctones na Herdade dos Concelhos, no município, que serão colocadas na terra durante o mês de Outubro. Quem comprar uma árvore terá acesso a uma viagem de vôo livre em balão de ar quente. Parte do valor das vendas reverterá a favor da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.

A segurança e a qualidade dos vôos são uma prioridade para a Windpassenger, empresa com mais de 30 anos de experiência na prática de balonismo, que possui todos os certificados, seguros e licenças da EASA (European Aviation Safety Agency), sob a direcção de operações do piloto responsável pelos vôos, Guido Van Der Velden dos Santos. Este evento é patrocinado pela Rubis Gás, Câmara Municipal de Coruche e Paladin.

O custo de cada árvore/viagem de vôo livre será 159€. Os vôos estáticos serão gratuitos.
As reservas podem ser feitas através do site do Festival Internacional de Balonismo.

 De olhos postos no céu, Guido Van Der Velden dos Santos, o piloto responsável pelos vôos.




NOTA DE AGRADECIMENTO:
As fotos que não contêm a marca d'água da Casa Claridade são da autoria de Joana Batista - Viajar em Família, a quem agradeço por ter registado a maravilhosa experiência de voar de balão!

Com a cabeça no ar,

Hazel

"Aos homens nada parece mal"


Uma mulher às vezes tem que se calar, mesmo quando tem razão - aconselhava a minha mãe no tom pragmático de quem cresceu no tempo da ditadura antes da Revolução dos Cravos e aprendeu a evitar chatices. Poucos conselhos segui, como compete a uma ovelha ronhosa.
Fui uma gaiata travessa, que respondia mal, que questionava, quase sempre de trombas - e levava nelas algumas vezes também. Nasci e cresci danada com o mundo.

Contrariada, tenho de admitir que ela estava correcta quando afirmava que aos homens nada parece mal: podem ter pêlos nas pernas, a floresta amazónica a enfeitar as virilhas, o peito e as costas, um matagal debaixo de cada braço e até podem ter uma única e longa sobrancelha como o Becas da Rua Sésamo. Podem ter barriga e afagar com orgulho a sua eterna gravidez alimentar. Se estiverem aflitos, há sempre um canto numa rua onde não parece muito mal que um homem alivie a urgência da micção. Em casa, podem fazer chichi de pé e salpicar a tampa da sanita, que alguma mulher há-de limpar a seguir.

Ó estreeela, queres co’meta? - podem meter-se com as mulheres que passam, mudar de companheira quantas vezes quiserem, e usar cuecas feias, com os elásticos relaxados, que deixam caídas no chão junto com as meias e o resto. Se andarem desmazelados, a culpa é das mulheres (que “são” umas desmazeladas).

Podem não saber cozinhar, nem gostar, nem querer aprender, porque não é preciso. Contar anedotas ordinárias, dizer palavrões, gabar-se à boca-cheia das mulheres com quem estiveram e até daquelas com quem não estiveram - mas gostavam de ter estado. Sentar-se de pernas abertas, assim como coçar e escarafunchar a genitália em público (vá lá uma mulher atrever-se a fazer o mesmo). Mostrar as mamas na rua, na internet, na praia, na piscina, ou no quintal enquanto conversam com o vizinho do lado. Ninguém liga.

Podem ter caspa, calvície e até carrapatos atrás das orelhas. Não há escândalo, porque são homens. Safam-se sempre; eles sabem-na toda. Contudo, em caso de catástrofe natural, são as mulheres as primeiras a ser salvas.

Bem sei que este retrato é um exagero, uma hipérbole, um descabimento - mas só por conta dos carrapatos. O resto é-como-é por responsabilidade das mulheres, porque todo o homem é filho de uma. O meu filho é filho de uma mãe (que engraçado seria se a frase acabasse assim) que não se quis calar. Perdoem-me.

Esta semana, o arcano Rei de Espadas inspira-nos a questionar as regras do universo que nos rodeia e a não aceitar que nos imponham uma verdade que não é a nossa. Porque é que uns podem tudo e os outros não podem nada? Isto, para quem é do sexo feminino. Já os leitores portadores do cromossoma xy, olhem, escondam este jornal e não o mostrem às vossas mulheres.

Hazel
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Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1619
foto: madairainitaly, licença CC0

5 formas naturais de aliviar o stress


São tantas as obrigações da vida atual, as informações chegam a uma velocidade sem precedentes, não nos permitindo o devido tempo para digeri-las. Somos drenados no corre-corre de deveres e metas - seja por pressão social, familiar, do trabalho, ou aquelas que nós mesmos impomos - pelo receio de ser atropelado na escalada rumo ao sucesso e satisfação pessoal, em que qualquer passo em falso pode fazer-nos escorregar uns quantos metros.

Com tantos estímulos, não é surpresa que as nossas emoções fiquem à flor da pele, e o balanço do nosso organismo se revele muito mais instável. Apesar do desenvolvimento tecnológico, das aplicações e ferramentas supostamente criadas para facilitar as nossas vidas, os níveis mundiais de stress têm aumentado.

Entre tantos afazeres e atribulações, acabamos por negligenciar o cuidado com a mente e o interior, culminando em sintomas mentais e físicos diagnosticados sob o nome de stress: ansiedade, depressão, agitação, palpitações, mal-estar, ganho ou perda de peso, dores de cabeça, insónia, hipertensão, aumento do risco de doenças do coração, entre outras consequências do stress, como o envelhecimento precoce.

Para amenizar esses males, é muito comum as pessoas recorrerem a saídas fáceis e práticas, como fumar, tomar remédios e recorrer a alimentos ou bebidas reconfortantes - ou ambos - especialmente, doces, fast food, alimentos gordurosos, álcool e café em excesso, para os que precisam de se manter acordados e alerta. Por vezes, actividades que precisam de foco extremo acabam fazendo com que o profissional caia numa armadilha. Por exemplo; André Coimbra, jogador profissional de póquer, relatou que usava de modo intenso a cafeína para se manter focado em torneios da modalidade. E que, a partir do momento que percebeu que isso lhe tirava o sono, acabou por tentar evitar o uso excessivo de café.

A conexão entre comer/beber e a sensação de conforto é feita rapidamente e, uma vez instituída, difícil de quebrar. É por isso que nos momentos de tensão deve-se resistir às tentações e investir em alternativas mais saudáveis, para não se criar mais maus hábitos e desenvolver novos vícios, caindo assim num ciclo vicioso de mais stress.

Respirar corretamente
Em momentos em que o corpo experimenta a sensação de nervosismo, tendemos a respirar de forma irregular e superficial. Por isso, devemos concentrar-nos na respiração, de forma a retomar o fluxo energético e apaziguar o ânimo. Páre um minuto e controle os seus movimentos de inspiração e expiração, tente focar a respiração na barriga, na altura do umbigo, como os bebés fazem, até ela ficar leve e profunda.

Investir em exercícios de respiração faz com que o corpo retorne ao estado de relaxamento, e o impulso extra de oxigénio contribui para a activação do sistema nervoso parassimpático, estimulando acções relacionadas com a sensação de calma no organismo.

Exercício físico
Pode achar que não tem tempo para juntar mais uma actividade à sua já conturbada lista de afazeres, mas é possível encaixar na agenda meia ou uma hora por dia, pelo menos três vezes por semana. Aos poucos, a actividade física deixa de ser uma obrigação, já que gera uma sensação comprovada de prazer: a prática regular dos exercícios liberta endorfinas, substâncias que agem no sistema nervoso e funcionam como um calmante natural, propiciando uma sensação de bem-estar; também produz serotonina, responsável pela redução do stress.

Algumas actividades favorecem a interacção social, o que contribui para a confiança e autoestima, enquanto outras trabalham a concentração e foco, desviando a mente dos problemas e desanuviando as tensões. Procure uma que lhe seja prazerosa, seja dança, luta, corrida, escalada, yoga, desportos…

Meditação
A meditação permite retomar a harmonia espiritual e regenera as energiascontribuindo para o alívio do stress e proporcionando maior serenidade. Com esta prática, é possível atingir níveis profundos de consciência e melhorar a autopercepção, alcançando um estado de atenção às próprias sensações, pensamentos e emoções. É necessário alguma persistência por parte daqueles mais impacientes, o começo pode ser incómodo, dando alguma sensação de pressa e desconforto por ficar na mesma posição, por isso é essencial saber os limites do seu corpo e ir avançando à medida que se sente confortável, com humildade, sem atropelar passos.

Comer bem
Não é segredo que uma alimentação diversificada, equilibrada e correcta é um ponto-chave na manutenção do equilíbrio, tanto físico quanto mental. No entanto, muitos não sabem o poder de alguns alimentos, cujos nutrientes e componentes proporcionam benefícios específicos para a redução do stress e melhoria da saúde. Um deles é a laranja, além de rica em vitamina C, que impulsiona o sistema imunológico, auxilia no controle do cortisol, hormona libertada em momentos de stress e que, em excesso, gera alterações negativas no organismo.

Também deve-se apostar no maracujá, que contém propriedades calmantes, e na levedura de cerveja para fazer sumos - este fermento é rico em vitaminas, fibras e proteínas, que ajudam a manter o sistema neurológico equilibrado, melhorando a resposta à ansiedade, e deixando-nos mais centrados.

Outra dica útil é incluir na dieta alimentos antioxidantes para diminuir os efeitos negativos do stress, como tomate, couve, uva, brócolos, framboesa, mirtilo, cenoura e agrião. A banana e os vegetais verdes-escuros também são importantes por serem ricos em magnésio, mineral rapidamente consumido em momentos de stress, e que precisa ser reposto por produzir neurotransmissores que favorecem a sensação de satisfação e alegria.


Reformular pensamentos
Além de aliviar os efeitos do stress, é importante ponderar e eliminar o que o causa. É necessário reavaliar a forma como se lida com as situações do dia-a-dia, como reage a adversidades e imprevistos. Claro que é impossível livrar a vida de momentos stressantes e planear tudo, mas é um facto que podemos adaptar-nos e agir de modo mais razoável e consciente.

Devemos mudar a nossa percepção dos problemas, dramatizar menos ocorrências levianas e bloquear pensamentos negativos. Devemos cumprir com as nossas obrigações sem exagerada cobrança, sem ficar a remoer caso não tenhamos conseguido cumprir um cronograma rígido, nem avaliar tudo sob um ponto de vista dualista e maniqueísta. Permita outros tons além do preto no branco, alivie as dicotomias entre tudo ou nada e reveja os seus impasses sob outra perspectiva, almejando um olhar mais positivo, sempre.

Cada indivíduo deve implementar essa mudança da melhor forma que lhe for possível, seja escrevendo sobre o assunto, conversando com alguém de confiança, ou passando um tempo a sós para reflexão. Enfim, isso consiste num exercício como qualquer outro, que precisa de treino e prática constante para aperfeiçoamento.

[Este é um post patrocinado, redigido por uma empresa parceira]

A mulher mais odiada de Portugal


Ela canta “Hoje Maria Leal aqui só p’ra ti”, mas o país, horrorizado, diz que dispensa. Nem dada. Ninguém a quer ver, no entanto, ninguém consegue deixar de olhar para ela. Os espectáculos onde actua têm lotação esgotada em todo o país e a sua agenda está mais cheia que a do Marcelo.

Antigamente, antes da miudagem ter passado a ver o mundo através dos écrans, quando se juntavam na rua, havia um jogo - calma, não vou falar sobre o “bate-o-pé” - chamado “corredor”. Miúdos e miúdas alinhavam-se ombros com ombros formando duas filas paralelas. Depois havia sempre um desgraçado que tinha de passar no meio e levava calduços de todos. Até fervia.

Lembro-me de ter jogado uma vez, e fiquei nos que davam calduços (entre dar e levar, sempre é melhor dar). Hoje, já adultos, vejo que o jogo continua à escala nacional; quem passa no corredor é a Maria Leal, a levar forte e feio de todos. Até eu - mea culpa, que não sou santa nenhuma - já lhe assentei um calduço ao de leve quando comentei uma notícia que falava sobre a inexistência de artistas dispostos a actuar na tomada de posse de Donald Trump, dizendo, com certa velhacaria, que era a grande oportunidade da nossa Maria.

Elisabete Maria Pereira Garcia Rodrigues d'Eça Leal - ou, como é conhecida, Maria Leal - é uma má cantora, não tem um discurso eloquente, nem possui a beleza da Miss Universo. A ausência de talento para cantar e dançar é directamente proporcional à sua falta de consciência disso - o que não é necessariamente negativo. A ML tinha o sonho de se tornar uma cantora famosa, sem a menor noção de estar artisticamente despreparada. Por não o saber, lançou-se ao sonho. E conseguiu. Não é uma questão de se ser bom, mas de se acreditar que é.

Os outros riem-se, gozam e insultam-na continuamente, mas ela não vacila. O talento da Maria é a perseverança: tem sido uma campeã olímpica de resistência. Se fosse um quadro, seria uma daquelas telas indecifráveis com um borrão de tinta que todos acham feio, mas tem que se respeitar mesmo não o compreendendo - porque “é arte”.

O problema não é a sua falta de jeito para cantar, mas a nossa falta de respeito. Ela é uma artista sofrível, mas não sabe. E nós somos um país de fanfarrões, mas não sabemos. É espantoso o ódio que lhe é dirigido massivamente sem que tenha causado qualquer tipo de dano a ninguém, excepto auditivo - desculpem, não resisti à piadola, foi Satanás que se apossou de mim agora, pois ainda sou um ser humano em processo de evolução -, tendo em conta que apenas realizou o seu sonho de cantar.

Esta semana, o Valete de Copas comete a ousadia de afirmar “Eu sou Maria Leal, aqui só pr’a ti”, em homenagem à mulher mais odiada do burgo - ainda bem que o país é pequenito, hein? - inspirando-nos a nunca desistir dos nossos sonhos, digam-nos aquilo que disserem; e a ver a nossa realidade com amor, ainda que o amor possa ser uma ilusão. Antes passar uma vida feliz na ilusão de que se é amado, que infeliz na fealdade do ódio, enfiado atrás de um computador a falar mal dos outros.

Ao fim e ao cabo, acho que gosto da Maria Leal. Quer isto dizer, detesto ouvi-la cantar, mas admiro o que ela representa. Porque os sem-talento também merecem um lugar ao Sol. Arriscando o meu próprio pescoço a levar com alguns calduços por marchar em descompasso dos restantes, atrevo-me a dizer: ela é que está certa. Não sei quanto a vós, mas a mim a mulher do “entroncamento sem fim” ensinou que não se desiste, nem se baixa a cabeça, mesmo que tenhamos sobre ela a espada de Dâmocles suspensa por um fio prestes a rebentar.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1618

Nem todas as respostas vêm no Google


Cabelo cortado à rapaz, olhos curiosos e pernas de alicate. No rádio-despertador, sintonizado na Rádio Renascença, ouvia-se a Doris Day cantar “Que sera sera” anunciada pela voz polida e impecavelmente colocada do António Sala. O pequeno-almoço, tomado em silêncio, era sempre o mesmo: leite com três colheres de chocolate e uma carcaça com manteiga e fiambre.

Cabisbaixa, enfiou a mochila às costas e meteu-se a caminho. Era o último dia de aulas e ia realizar-se uma competição de Inglês entre turmas. Tinha sido escolhida para representar a sua, o que lhe causava dores de barriga lancinantes. Porque não escolheram outra pessoa qualquer? Só a ideia de ter de correr ou falar alto em frente a todos era tenebrosa. As costas curvavam-se sob o peso da mochila e da timidez.

Sem escapatória possível, de pernas-a-tremer e garganta seca por enfrentar os olhares das pessoas, acabou por ganhar a competição (como tal foi sequer possível, nunca saberei). No centro do recreio estava instalado um pódio para onde subiram os vencedores do segundo e terceiro prémios. O primeiro lugar permaneceu tristemente vazio. Queria tanto ter o prazer de subi-lo, mas só se ninguém estivesse a olhar. Incapaz de avançar, alguém lhe entregou o prémio onde estava, para despachar aquilo - um livro de contos escrito em inglês -, e correu para casa como um pássaro espavorido. Zero gramas de orgulho, toneladas de auto-censura. 

Mais de três décadas depois, o youtube toca no computador portátil pousado sobre a cama desmanchada. Na cómoda, repousa o copo onde bebeu um batido natural de cenoura, framboesas, laranja e duas folhas de hortelã. O pincel biselado desenha um traço cinzento-escuro perfeito junto às pestanas. Desmancha a trança libertando o cabelo enorme, pega na mala e nas chaves do carro. As árvores de Sintra estendem os braços à volta da estrada como se a Serra se abrisse para recebê-la num abraço verde e materno.

Os participantes da aula escutam com atenção a matéria, que explica com paixão e humor, como se esta fosse a última. Mal pode esperar pela data da próxima. Nada ficou por fazer. Conta aos alunos, entre gracejos, que tinha fobia social quando era miúda. Ninguém acreditou. No fim do dia, reúne os livros e abre caminho devagar por entre o nevoeiro sintrense. Não se sente um pássaro espavorido, mas uma ave tropical que um dia mudou de penas e finalmente aprendeu a voar em bando; continuando, no entanto, a saborear o momento reconfortante em que é devolvida a si mesma, no regresso solitário a casa.

O Eremita inspira-nos a abraçar a doçura da inexistência temporária que a solidão proporciona, para repousar a alma dos assuntos mundanos. Há reconciliações que apenas têm lugar dentro de nós quando nos dispomos a instalar o silêncio como quem desenrola uma tela branca onde podemos projectar trechos de filmes antigos e encontrar finalmente um sentido em tudo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1617
Foto: Unsplash, licença CC0

Sabes que és de Carcavelos quando


Só quem é de Carcavelos para entender.

A5
Sais nas portagens da A5 em S. Domingos de Rana e quando fazes a curva do Stand J. Iglésias (se fores mesmo de Carcavelos, sabes que o 'J' não é de Júlio, mas de José), respiras fundo e relaxas porque já te sentes em casa.

"Banco dos Pich@s Murchas"
Recordas-te dos bancos de pedra - e das palmeiras - no Largo de S. Domingos de Rana para os velhinhos se sentarem, onde um dia um engraçadinho qualquer se lembrou de escrever a graffiti: "Banco dos Pichas Murchas" (desculpem a citação!). Ainda te ris disso. Não se faz; é errado, muito errado, hum (ainda mais agora, com o Viagra)?

Marginal e praias ao fim-de-semana
Esquece. Se fores a casa de alguém, vais sempre "por dentro". Evitas a Marginal e a praia nos fins-de-semana à tarde porque estão lá todos os habitantes da linha de Sintra, que são 377.835 e vêm sempre nervosos por causa do trânsito.

Habitantes
Carcavelos tem 23.437 habitantes e todos se conhecem, pelo menos, de vista.

Feira de Carcavelos
Às quintas-feiras de manhã já sabes que há sempre confusão e carros estacionados por todo o lado à volta do recinto da feira de Carcavelos - que deixou de ser o local de trabalho predilecto dos carteiristas desde que a Polícia passou a estar presente. Entretanto, o contrabando reduziu substancialmente - não se pode ter tudo, ora.

Redes sociais
Sabes que a rede social mais antiga que existiu foram os tanques da Rebelva e os cafés de bairro. O facebook é um bebé ao pé da velocidade com que aquelas senhoras faziam circular informação, tão fidedigna quanto as notícias do 'Inimigo Público'.

Vinho de Carcavelos
Sentes orgulho pelo Vinho de Carcavelos, de tradição secular e reconhecido internacionalmente, e não te conformas por ter mudado o nome para Villa Oeiras. Bolas!

Noites de Verão
Ninguém dorme durante o Verão com a música dos arraiais dos santos populares, maçada que se suporta alegremente enquanto se petiscam umas sardinhas assadas na brasa acompanhadas por um copito de sangria. Chateia mais aturar os adolescentes imberbes que estão de férias e se juntam na rua a fazer barulho até raiarem os primeiros alvores - mas no dia seguinte o Sol é esplendoroso e esquece-se tudo.

Cleópatra de Carcavelos
Provavelmente, já viste a funcionária dos Correios de Carcavelos (que agora funcionam na Rebelva), que é a reencarnação da Cleópatra, com um cabelo negro como a noite, liso e espelhado como a superfície do Nilo e mitologicamente saudável e brilhante. A senhora é realmente enigmática, uma personagem que escapou dos livros e foi ali parar por acidente.  

Quinta dos Ingleses
A tua mãe avisava-te para não passares pela mata da Quinta dos Ingleses, como se fosses encontrar ali o lobo mau. Ias sempre pela estrada. Aquilo não era para brincadeiras. Mesmo.

Calado
Sabes quem é o Professor Calado. Se calhar, preferias não saber. Haha!

Passarada
É normal que tenhas gaivotas a sobrevoar a tua rua. Se moras na Rebelva, estás habituado ao canto esganiçado (grito talvez seja mais adequado) dos pavões. Por toda a freguesia, voam melros, pardais, pombos e rolas. E algures, ninguém sabe bem onde, há sempre um galo que não falha o nascer do dia. Todos o ouvimos, estejamos onde estivermos.

Barcos na cama
Sabes quando está nevoeiro mesmo antes de te levantares porque consegues ouvir as buzinas de nevoeiro dos barcos como se eles estivessem a navegar junto à tua cama. OOOMMM!

Plim! 
Ainda te lembras do Plim, o centro comercial alternativo, meio punk, meio underground, onde o fumo de tabaco e de outras substâncias era tanto que não conseguias ver um palmo à frente do nariz. Ainda existe, agora sem fumo, com cabeleireiros afro, lojas de tatuagens e piercings, de instrumentos musicais, esotéricas e de indianos que reparam telemóveis. Colado ali mesmo ao lado, está o Centro Comercial de Carcavelos, com o cinema Atlântida Cine, que funciona há mais de 30 anos - embora nunca te lembres de lá ir.

Betinhos da linha
És visto como um betinho, mesmo que tenhas usado calças "Leve's" compradas na feira de Carcavelos durante a adolescência.

Droga
Lembras-te que os foguetes lançados à noite não eram para anunciar festas, mas para avisar que tinha acabado de chegar a droga às Marianas - que hoje já não existem.

Carteiros
Não costumas reparar, mas todos os carteiros em Carcavelos são simpáticos, reflexo da atitude afável, educada e voluntariosa da grande maioria dos habitantes. Não existem carteiros antipáticos nesta freguesia.

Legrand
Sabes que a Legrand se chamava SIPE antes de ter sido comprada pelos franceses.

Não há piropos
É verdade. Os homens já não mandam piropos às mulheres em Carcavelos. Isso era antigamente. Hoje, se tal acontecer, é porque eles não são de cá (também pode haver a hipótese de eu já estar fora de prazo para receber piropos; nesse caso, desconsiderem este item).

Feira de tralhas em segunda mão
Sabes que à quarta-feira de manhã existe mercado no Centro Comunitário de Carcavelos, onde podes comprar roupa, livros, brinquedos, bricabraque e todo o tipo de cangalhada engraçada por valores simbólicos. Sabes também que tens de ir cedo para apanhar as melhores pechinchas.

Trânsito Zen
Estás habituado a conduzir pacatamente e com respeito pelos outros automobilistas em Carcavelos. É assim que se conduz aqui, mas não podes fazer o mesmo em Lisboa, senão és fustigado, insultado, cilindrado e talvez até mesmo esbofeteado.

O Crocodilo da Alagoa
Existe um crocodilo de pedra em tamanho real no fundo do lago da Quinta da Alagoa, mas só o viste se fores um dos habitantes mais antigos.

O Pitrolino
Aliás, se fores mesmo muito antigo, até te lembras do "Pitrolino", o simpático senhor que tinha uma mercearia inteira enfiada dentro de uma carrinha e parava em todas as ruas para as donas-de-casa fazerem as suas compras, antes do surgimento das grandes superfícies comerciais. Não tinha caixa registadora, as contas eram feitas num bloco de papel às riscas verdes e brancas.

Gatos
Se fores um gato esperto, vens viver para Carcavelos. Aqui safas-te com as taças de comida que há sempre escondidas nos cantinhos e no meio dos arbustos junto aos prédios, para os bichanos que vivem na rua.

Casas assombradas
Já ouviste várias histórias de casas e apartamentos assombrados onde ninguém consegue morar, todas contadas por alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-o-dono.

Biblioteca Itinerante
Havia também a carrinha da Biblioteca Itinerante, mas dessa já só eu me devo lembrar, pois era a única leitora que ia requisitar livros, e acabaram por deixar de circular na minha rua porque não compensava. Snif.

Santini
Estás radiante por ter o Santini ao pé de casa. Viva! Agora sim, tens a certeza que moras no melhor lugar do mundo (não fui paga para escrever isto, embora, se os senhores do Santini quiserem, aceito agradecimentos em forma de bolas de gelado e crepes, e até alinho em provar todos os sabores e em dar a minha opinião - tudo pelo bem da freguesia, claro está!).

Por muitos lugares bonitos que conheças, se és de Carcavelos, é sempre a Carcavelos que regressas.

Ah Carcavelos. 💗

Hazel