Numa casa portuguesa fica bem...


Ser português é sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário (que apenas é usado quando vêm visitas) e outro, já velho-gasto-e-possivelmente-lascado, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos, toalhas de mesa ou as almofadas do sofá, que se viram ao contrário para “o lado das visitas” escondendo as nódoas na parte de baixo. Porque se os outros não virem as nossas mazelas, elas “não existem”. Não digam que não.

Temos aversão (para não dizer pavor) a parecer mal aos olhos dos outros e poupamos a-mais-fina-loiça para que as visitas, recebidas com uma cerimónia nunca assumida, vejam apenas o melhor — e não o real. Para “os de casa” usamos os pratos velhos, como se não merecêssemos o melhor que há no nosso próprio armário de cozinha. Homessa. Porque seremos nós assim?

Após profunda introspecção, a vossa velha escriba concluiu que a casa onde vivemos é um ser vivo e comunica como se fosse uma contraparte dos seus habitantes. Por exemplo, o conteúdo do armário onde guardamos os pratos pode ser, em muitos aspectos, semelhante ao interior do nosso coração:

1. Se existir uma infinidade de loiças, novas e antigas, demasiadas para o espaço existente, pode revelar um coração cheio de apegos, preso ao passado;

2. Ter um conjunto de pratos para o dia-a-dia e outro para as visitas, dir-se-ia que sugere incapacidade ou dificuldade em entregar-se de corpo e alma, sem reservas, na amizade, mantendo sempre um pé atrás;

3. Um conjunto de loiça para as visitas, outro para o dia-a-dia e ainda outro terceiro que ocupa um lugar "intermédio", falta de amor por si mesmo, crença de que não é digno do melhor.

Ai, Senhores. Pára tudo. Vou ali à cozinha ver o meu armário.

(Voltei!)

Esta é a história dos meus pratos: já tive dois conjuntos, um do dia-a-dia e outro das visitas (admito com algum embaraço). Entretanto, as transformações que a vida me trouxe levaram a que acabasse por ter no meu armário apenas alguns pratos soltos, restos de outros conjuntos, com um ou outro lascado. Destroços do passado e um coração partido.

Quando tomei consciência desta correlação, um dia desfiz-me dos pratos soltos e lascados e comprei um conjunto de pratos brancos. Simples, humilde e novinho em folha. Era tempo de deixar para trás o que estava atrás e de abraçar o presente.

Porém, o coração continuou partido. Na verdade, ainda está. Mesmo com pratos novos. Mesmo com refeições felizes. Creio que, como um prato fica lascado para sempre, um coração partido nunca mais volta a ficar inteiro. E ninguém garante que não se volte a quebrar ainda mais, em pedaços menores.

Contudo, não foi debalde a libertação dos pratos soltos e maltratados, pois representou o desejo e a possibilidade de recomeçar. E o facto de não ter comprado um conjunto extra de pratos, significa que não tenho um plano B. O que está à vista é o que há.

O arcano A Lua inspira-nos a adaptar-nos às diferentes fases que a vida traz, sem cair na armadilha de alimentar ilusões. Tudo é mutável, sensível, inconstante e tão frágil como um prato de loiça que cai no chão.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1684

O vazio


A campainha está a tocar, vou ali abrir a porta: são os senhores que vêm instalar um contador bi-horário. Façam favor de entrar, é por aqui. Diz que é raro terem pedidos destes, que os últimos contadores do género foram instalados há muitos anos num mosteiro perdido no nevoeiro lá para as bandas do Nepal.

Hoje em dia toda a gente anda sempre ocupada com alguma coisa e as horas de vazio não despertam o interesse de ninguém, esclarece o sujeito mais alto enquanto ajuda o colega a tirar o contador bi-horário da caixa.

Isso não é de hoje, afianço-lhes. Senão, vejamos: antigamente, quando as pessoas iam à casa-de-banho, liam de-fio-a-pavio os rótulos dos frascos de shampô, do gel de banho, do ambientador; havia os que se entretinham com livros de banda-desenhada, com a literatura médica de alguma caixa de comprimidos que se encontrasse por perto — no fundo, tudo o que estivesse no perímetro de um braço estendido em torno do trono.

Hoje levam o telemóvel, a partir de onde enviam emails, sms, partilham fotografias, não perdem pitada das polémicas do dia nas redes sociais —, como quem depende de um fio invisível que o agarre ao mundo cá fora.

Sempre houve a necessidade de ter alguma âncora onde se possa prender a atenção — e que salve a Humanidade, apavorada com a perspectiva do vazio, de se deparar com ele. Assim, olhamos para fora — e nunca para dentro.

Ora bem, já está instalado o contador bi-horário. Só uma assinatura aqui em baixo, menina Hazel, se faz favor. Obrigado e um bom dia.

Fecho a porta satisfeita com o contador bi-horário novinho em folha instalado mesmo em cima da minha cabeça. Tudo para poupar, que o valor da energia anda pela hora da morte.

Planeio usufruir de uma hora de tarifa de vazio uma vez por semana. Sessenta minutos de telemóvel e computador desligados (não referi televisão porque não tenho) e, sem gente a atazanar-me o juízo, pretendo sentar-me e ficar dignamente a olhar no vazio.

Uma hora que, conto, será muito produtiva, pois, em vez de despender energia em tudo e todos, estarei a recarregá-la (sem perigo de electrocussão caso me distraia e entre em sobredosagem se deixar passar mais um quarto-de-hora ou pedaço de tempo que me valha).

Perscrutar o vazio em absoluta ausência de emoções pode parecer o equivalente a contemplar o abismo vertiginoso ou um poço sem fundo, mas há pouco espreitei para lá e pareceu-me seguro e arejado.

Confrontá-lo não me fez sentir vazia, mas preenchida, centrada. Capaz de reclamar todos os pedaços de mim que perdi por aí em angústias e preocupações, em mágoas e excessos de paixão, em dar mais do que recebi, em esperar e desesperar, em imaginar e desimaginar.

Reclamo-os e reintegro-os no meu vazio, no silêncio e na solidão, na paz absoluta.
Só então voltarei à tarifa de fora de vazio.

O arcano O Eremita envia notícias para o mundo através de um pombo-correio que pousou na minha janela. Trazia na pata uma mensagem que desenrolei com cuidado. Estava vazia.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1683

Sabes que estás a ficar velho quando


Esta dor que hoje me tem apoquentado a zona fronteiriça entre o fundo das costas e o começo das nádegas concebe previsões meteorológicas com maior exactidão que o ido Anthímio de Azevedo (amanhã vai estar fresco, algumas nuvens e o Sol vai andar acabrunhado, diz-me).

Tenho conversado com ela; todas as dores vêm para ensinar e quanto mais depressa aprender a lição, mais asinha a mestra parte em busca de novo pupilo. É uma dor velha, muito idosa, que veio visitar-me por um dia — amanhã diz que já se vai embora.

Ofereceu-se para me ensinar a fazer crochet, renda-de-bilros e bordado em ponto-cruz. Declinei cordialmente o obséquio, não fosse ela tornar-se hóspede permanente.

Vencida e de malas aviadas para partir pela calada da noite, enquanto durmo o sono dos justos de pijama-às-riscas e cabelo entrançado, a velha dor deixou-me de presente a sabedoria dos ditados populares, essas verdades-indiscutíveis-e-cientificamente-provadas que tenho dado por mim a dizer aos mais novos.

Foi neste momento que me descobri velha como uma relíquia empoeirada de museu, uma hortaliça murcha, um par de botas fedorentas que já palmilharam meio mundo e sabem todos os atalhos, caminhos e azinhagas.

Como sou uma boa velhaca, descobri que este mal é contagioso: começa-se a memorizar provérbios e depois passamo-los aos outros sem apelo nem agravo. Como a maleita proverbial tem andado em recessão (quem é que os cita hoje em dia?), resolvi disseminá-la em grande escala. Ora tomem disto:

- Depois do Natal, dá o dia um saltinho de pardal.

- Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.

- No mês de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.

- Janeiro fora, cresce o dia uma hora.

- Fevereiro engana a velha ao soalheiro.

- Em Fevereiro, salto de carneiro.

- Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

- Março, marçagão, de manhã é Inverno e à tarde Verão.

- Em Março sobe ao outeiro, se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires nevar, põe-te a cantar.

- Páscoa em Março, ou fome ou mortaço.

- Março, marçagão, de manhã cara de gato, à tarde cara de cão.

- Abril, águas mil, coadas por um mandil.

- Em Março tanto durmo como faço.

- Abril frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.

- Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

- Em Maio, cereja ao borralho.

- Água de Maio, pão para todo o ano.

- Em Maio, canta o gaio.

- Maio claro e ventoso, faz o ano rendoso.

- O que Janeiro deixa nado, Maio deixa espigado.

- Agosto, mês de desgosto.

- Não há Sábado sem sol, Domingo sem missa nem Segunda sem preguiça.

- A velha que bem governou, o melhor tição para Maio o deixou.

- Em Agosto todo o fruto tem o seu gosto.

- Uma andorinha não faz o Verão.

- Em Agosto frio no rosto.

- Em Dezembro descansar para em Janeiro trabalhar.

O arcano A Sacerdotisa inspira-nos a virar as páginas do tempo, a fazer uso da sabedoria que adquirimos e a nutri-la discreta e incessantemente, numa gestação silenciosa. Sabemos sempre a resposta que precisamos, mesmo quando achamos que não. Basta escutar o que as nossas dores têm para ensinar.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1682
Foto: geralt, licença CC0

A Origem do Dia dos Namorados


O dia 14 de Fevereiro, conhecido actualmente como "Dia dos Namorados", é uma celebração pagã associada ao início da época de acasalamento na Natureza. Na Roma antiga, dava pelo nome de Lupercalia, a festa em honra de Lupercus, o Fauno (Pã, na Grécia), divindade regente das florestas e de todos os seus habitantes.

Esta vossa escriba não esteve lá para ver, mas dizem que era assim que se passava:

Os sacerdotes escolhidos sacrificavam ritualisticamente dois bodes e um cão. O sangue que escorria da adaga sacrifical era embebido em lã, que tinha sido previamente molhada em leite e, com a mesma, ungiam a testa, o que induzia a estados de euforia.

Vestiam o couro dos animais, ou usavam-no em torno da cintura para tapar os órgãos genitais, encarnando, assim, o espírito do senhor das florestas. Cortavam longas tiras de pele aos animais sacrificados, a que davam o nome “februa” (e que está na origem etimológica da palavra Fevereiro, o mês correspondente à época desta celebração), e usavam a februa para chicotear o povo.

Corriam para açoitar os jovens na flor da idade, sedentos de sexo (que não deviam oferecer muita resistência, os doidivanas); as mulheres inférteis, para estimular a fertilidade; as grávidas, para aliviar as dores de parto; as púdicas e as frígidas, para despertar a libido; e todos os que apanhassem pelo caminho. Era a loucura.

Espantavam-se os maus espíritos, purificavam-se as pessoas, as casas e as ruas, e estimulava-se a saúde, a sexualidade e a fertilidade.

Vá-se lá saber como, as vergastadas acabaram por dar lugar, séculos mais tarde, à oferta de ursinhos de peluche fofinhos, postais com frases pirosas, caixinhas de bombons de chocolate em formato de coração e lingerie comestível.

Agora, meus passarinhos, toda a gente odeia o Dia dos Namorados, dizem que é comercial, que a data irrita, que os casais apaixonados são entediantes, que isto, que aquilo.

O arcano A Força ruge com a ferocidade de um animal que nos toma de assalto, atiçando-nos os instintos, pondo-nos à prova — açoitando-nos a paciência com a februa.

Ainda ontem, quando pedi ao senhor do talho que cortasse a carne em tiras para o strogonoff, pareceu-me ter visto sair — com estes olhos qu’a terra não há-de comer — um mancebo que levava, engalanada com um laçarote, uma caixa cheia de tiras de carne, em honra dos bons e velhos tempos em que se corria desnudo e bramava de prazer e de dor ao mesmo tempo. Não havia caras de enjoadinhos. Ai não gostas de ursinhos de peluche?, Toma lá!

Ponham-se a pau.

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1668

Diário de Bordo do Navegante Solitário


Pede-se à loucura que, se um dia chegar, não se faça anunciar. Que tome conta de mim sem que eu o saiba, para que, ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados (para além de descompassados — e destrambelhados), e a mim sã. Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciência da inconsciência, a lucidez das trevas.

Assim, se se der o advento do desnorte, escusam de me avisar, pois vos tomarei como loucos por apontardes a fuga à norma onde a norma foge à fuga de si mesma.

Quem sabe não terei perdido já o tino e ainda ninguém tenha reunido a coragem de mo comunicar. Suspeito-o por encontrar-me tantas vezes a remar contra a maré com remos feitos de penas de gaivota.

E ainda assim, remo sem parar. Pouco importa se existe algum destino porventura escondido entre as brumas salgadas que repousam sobre a linha do horizonte; para que me serviria uma ilha com palmeiras e araras no meio do oceano, senão para me deixar consumir pela insularidade, entontecida com o movimento das águas em redor dos meus pés estacados, mergulhados na areia fina?

À minha volta voam tubarões obesos e esfaimados, de bocarra escancarada e dentes afiados, devorando peixes inocentes, matrículas de carros acidentados, garrafas de rum contrabandeado e almas desalmadas, sem sequer mastigar. Bom proveito lhes faça. Flutuam frascos de vidro com mensagens enroladas em papel ensopado, alforrecas gelatinosas e ouve-se ao longe o eco do canto das sereias. Nada disso me distrai.

O barquinho prossegue sem mapa nem bússola, em direcções improváveis, vivas e inquietantes, descobrindo novas pétalas à rosa-dos-ventos. Eles na deles, eu na minha. Desalinhada, inconsciente da minha inconsciência, flor branca à proa. Para eles, a terra é plana e termina no precipício da miopia; para mim, é redonda mal julgarem que caí do precipício, estarei a dar a volta por baixo e a aparecer por trás a morder-lhes o rabo! Bons ventos me levem.

O arcano O Louco inspira-nos a nunca deixarmos de ocupar o nosso próprio lugar no mundo e de acreditar em nós, mesmo que sejamos tomados por insensatos. Que importa isso. Nada importa. Nada.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1667
Foto: Comfreak, licença CC0

Mortinho por viver


Ai. Pois não é que esta vossa escriba encontrou um defunto a viver no seu roupeiro? Tinha-o guardado há tanto tempo que me esqueci dele. Lá estava, bem direitinho como compete aos defuntos, com o típico e expectável saco de plástico preto a envolvê-lo. Tal não poderia continuar, não senhor. Urgia ressuscitá-lo e, com efeito, assim aconteceu.

Fiz deslizar com delicadeza e solenidade o fecho do esquife, perdão, do saco preto, e encontrei o já referido defunto em perfeito estado de conservação. Nem um odor sinistro que acusasse o seu estado de abandono prolongado. Garanto-vos.

O falecido era um escorreito casaco preto-corvo que comprei há não-sei-quanto-tempo e custou três quartos da falange do dedo mindinho, para usar em dias de festa. Sóbrio, impecável e medonho, com uma espessa aplicação de pêlo sintético na gola, que se assemelha a um gato preto morto a aconchegar o pescoço nas noites frias.

Homessa, que me teria passado pela ideia. Para "dias de festa", se isso lá é coisa que se pense. Então não é verdade que todos os dias são dias de festa?, e que todos os dias celebramos mais um dia de vida? Que a grande festa está em ter dias para contar — em vivê-los, assim, viver, mesmo?

Por que esperamos, valha-nos Zeus, enquanto as traças dançam o pasodoble nos buracos dos nossos mais adorados e preciosos (ou abomináveis) atavios. Não há mais roupas de festa aqui em casa. É tudo para usar, mesmo que se gaste, ainda que se estrague, e até que eu própria me torne um defunto, não me permitirei guardar mais defuntos.

O arcano A Morte confronta-nos implacavelmente com tudo aquilo que morreu dentro de nós e à nossa volta. Até quando iremos esperar, aguardar, respirando o mesmo ar velho e pesado? Apalpai-vos (não uns aos outros, seus marotos, mas a vós mesmos)!, só para ter a certeza que estais vivos, palpitantes, pulsantes, febris de vida.

No fim de tudo, o que realmente importa é quão bem soubemos viver; quão bem nos permitimos amar; quão bem conseguimos ir embora, deixar tudo para trás, sacudir a poeira e começar de novo. Quão bem soubemos apreciar, saborear. Quão bem soubemos dar, a nós mesmos e aos outros.

Não há tempo a perder com o certo tornado incerto. Pensem o que quiserem. Façam o que quiserem. Mas façam o que vos fizer felizes.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1664
foto: licença CC0

Borboletário


As curvas do meu corpo macio insinuam-se numa dança ondulante e silenciosa à medida que me movo com languidez, inconspícua por entre a folhagem que emoldura a paisagem límpida e orvalhada da manhã. Ocasionalmente, uma folha ou outra roçam-me a pele nua.

Alimento incessantemente o apetite voraz, erótico e insaciável que me consome. Os pedaços de folha tenros desfazem-se aos poucos na minha boca pequenina e húmida que não pára de sugar e de procurar por mais e mais e mais, até finalmente atingir — a saciedade.

Esgotada e preenchida, arrasto-me com lentidão; procuro uma folha onde possa abandonar-me ao repouso digestivo. Rastejo com esforço, o corpo dilatado, exausto, num êxtase guloso que gradualmente se agudiza em dor. Os meus fluidos jorram lentamente como um rio doce sobre os nervos da folha verde, onde me suspendo em crisálida para enfim encontrar o silêncio secreto; e nele, o caos, a desordem imóvel, a dor que me dilacera, que me liquefaz, que me destrói. Ninguém consegue ouvir os meus gritos mudos. Nem eu. Mas grito.

Os sucos circulam lentamente, latejam na escuridão, cada vez mais devagar até se tornarem espessos, coalhados. Ninguém me pode ajudar; rendo-me à morte. Morro. Eu não sou eu. Não sei o que sou. Não sou, sequer. Morro. Morri. Sinto alívio. Já não dói mais. Não tenho dor, nem medo, nem fome. Nem sede.

Silêncio.

Um ponto fino de luz pulsa no escuro, e cresce aos poucos. A dormência desvanece; chegam até mim sons difusos de não muito longe. Sinto-me apertada, falta-me o ar. Preciso de espaço, de me movimentar. Tenho sede, tenho fome, tenho ânsias de sair, senão morro. Preciso de sair da morte para não morrer de vez, mesmo que morra a fazê-lo; preciso de viver, para não morrer.

O arcano A Temperança indica-nos o caminho: sempre em diante, em direcção à luz. Atrás está a morte, à frente a sabedoria. Que as experiências vividas no passado nos sejam mestras e não nos amargurem —, e delas sairemos ilesos, capazes de voar, cumprindo assim a nossa natureza.

Rasgo o tecido que me asfixia com delicada violência e espreguiço-me, alongando o meu corpo, que descubro novo e diferente. Tenho asas revestidas de poeira fina e pele fofa e sedosa. Oh sim, tenho asas. Não mais rastejo por entre as folhas. Preciso de néctar, de ar, de luz. Consigo voar! As asas nas minhas costas estendem-se coloridas e reflectem a luz do Sol. Ouço o riso de uma criança que corre atrás de mim e rio-me também, enquanto subo em espiral por entre as árvores.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1663
Foto: Marco Santos

Tão pequena e tão ladina


Os carros colam-se uns aos outros numa longa e fumegante serpente de chapa e vidros eléctricos ali mesmo à saída do bairro. Saem pela direita os que apanham a auto-estrada, fazem pisca para a esquerda os que seguem pela Marginal.

Estão todos parados agora; vejo alguns a enfiar o dedo no nariz, outros a tirar as remelas dos olhos, lacrimosos com a luz dura e cortante da manhã; outros ainda, a perscrutar o nada, suspensos no vazio existencial para onde nos atiram as filas de trânsito.

Estendem-se alguns olhares conformado-entediados no passeio de calçada onde caminha em passo ligeiro, como se estivesse prestes a fazer uma travessura, a vizinha do prédio ao lado do meu. Velhinha, franzina e de cabelo ralo e escuro, sempre de sorriso doce e olhos ladinos. Mora sozinha, nunca aceita boleias.

O ronronar do ralenti dos motores é interrompido pelo inusitado chiado de metal das rodas do seu carro-saco de ir ao supermercado. Não sei se é ela que leva o carro, se o carro que a leva a ela.

— Olá, menina.
— Boa tarde, menina.
— Bom dia, menina.
— Adeus, menina.
A voz assenta-lhe como uma luva: baixa e matreira, mas cheia de genica.

Não se passa nada. É apenas a velhinha fura-vidas a passar em compasso certo à hora que os pássaros alisam as penas e se ouvem os passos das primeiras crianças a caminho da escola. Os ocupantes da gigante serpente de chapa poluente carregam na buzinha como quem estala um chicote para atiçar os da frente a andar.

Ficamos a vê-la ir embora pela rua fora, sem nunca parar, sem jamais abrandar. Talvez seja mesmo o carro-saco de tecido axadrezado que a leva, movido por uma força desconhecida, como um cão fiel que fez o mesmo percurso mais vezes do que se consegue lembrar.

Descobri-lhe o segredo no outro dia, quando a vi passar com o carro-saco mal fechado. Olhei de soslaio e deliciei-me ao descobrir que não são compras que ela transporta lá dentro. O carro-saco vai cheio de vida. Por isso, sei que a velhinha ladina vai viver para sempre — ou até arrumar o carro-saco e se esquecer de onde o deixou.

Esta semana, o arcano O Carro inspira-nos a não ficar parados atrás dos outros como um autómato que é conduzido por alguém. É tempo de encher o nosso carro-saco de vida e seguir-lhe o encalço. Mais do que seguir, perseguir. Com ardor e determinação. Quatro-piscas ligados!, este veículo vai sair do tracejado da estrada para fazer uma manobra inesperada.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1651
Foto: violetta, licença CC0

«Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar»


Ainda parece que a oiço, cítrica e com um travo amargo de laranja seca; profética, com uma intuição que roçava o sobrenatural. Uma autêntica bruxa que, no entanto, desprezava bruxas e as desacreditava. Mas que as havia, havia — sempre haverá.

Continuo sem compor pela manhã o delicioso leito onde Morfeu todas as noites me engole inteirinha com languidez, gula e oblívio, sem conseguir já deslindar se será por indolência ou insolência tardia; se por inofensivo e inconsequente exercício da liberdade de escolha; se por consideração ao bem-estar dos ácaros que se comprazem em deitar-se na minha almofada a ler o jornal de patinhas traçadas com os cobertores meio caídos; ou se pelo hábito de quatro décadas a defender que é bem mais prazeroso desfazer uma cama do que fazê-la — interpretem como quiserem, seus malandrões, bem vos conheço.

O infame provérbio sempre me apoquentou, dada a fatalidade que lhe é inerente, aprisionando-nos para sempre às nossas escolhas, negando-nos o direito de mudar de ideias, num castigo inevitável e eterno digno de Némesis grega.

Ovelha ronhosa (e ranhosa também, mas só mais lá para meados da Primavera, quando começam as alergias) que sou, continuo a desafiar a norma instituída. Longe vão os tempos em que se acreditava que as coisas eram como eram e nada se podia fazer senão carregar-uma-cruz-às-costas sem hipótese de redenção ou salvação, em resultado de um provérbio cruel e ditatorial.

Porque quem boa cama fizer, nela se há-de deitar — OU NÃO.
A qualquer momento, podemos sempre trocar os lençóis frios de algodão por outros aconchegantes de flanela, até mesmo a meio da noite. Ou ir buscar mais um cobertor.

Ou tirar tudo, atirar pela janela soltando um grito de Tarzan (não o Taborda, mas o outro) e dormir em cima do colchão. Ou virar os pés da cama para a cabeça e dormir de pernas para o ar. Ou, em vez de deitar, ficar sentado, de cócoras, de pé ou com um pé na cama e outro no chão. Podemos reformular tudo a qualquer momento, apesar de termos sido programados para acreditar que estamos condicionados.

Esta semana, o arcano O Imperador confronta-nos com a autoridade cega a que fomos (e somos) tantas vezes sujeitos, as verdades ‘inquestionáveis’, as normas, o dever de encaixar e obedecer sem questionar regras que não sabemos já quem criou e porque o fez, mas que vão sendo papagueadas de geração em geração perpetuando uma herança de medo da mudança e de submissão.

Mudam-se os tempos, actualizem-se os provérbios.
Não façam a cama: reinventem-na.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1648
foto: Pexels, licença CC0

Fátima, Futebol, Fado e Fogo


A morte ergueu-se da terra escura e caminhou implacável por entre a rectidão austera das árvores que aguardaram o fim com dignidade e sacrifício, fornecendo oxigénio até ao derradeiro segundo. Levou tudo à frente como uma besta cega, surda e muda. Famílias, floresta, animais, casas, carros. Sem fazer distinções entre bons e maus, ateus e religiosos, crianças e adultos; como as epidemias medievais que varriam localidades inteiras, deixando para trás a sombra do desamparo, do vazio e da revolta.

Após a breve euforia nacional com o trio divino: a visita do Papa (Fátima); a vitória da Selecção Nacional (Futebol); não é bem Fado, mas o primeiro lugar na Eurovisão (Fado), enfrentamos uma inesperada e catastrófica quadratura com o Fogo que nos derrubou o ânimo e lançou no cadafalso da melancolia tipicamente portuguesa.

Apontam-se responsáveis, especula-se e acusa-se como no tempo da caça-às-bruxas, onde a falta de verdade, a manipulação da informação e a indignação nos intoxicam o discernimento. Os doutores da peste envergam actualmente, em lugar das lúgubres máscaras com o bico longo, máscaras anti-fumos e fardas de Bombeiro, do INEM, da Protecção Civil, fazendo o que podem até à exaustão, perdendo tantos deles também as suas vidas.

Se outrora a causa das epidemias era a falta de higiene e de redes de esgotos, hoje a diferença não é tanta assim, se avaliarmos bem. É notório que os hábitos de asseio melhoraram consideravelmente, contudo a higiene dos valores humanos encontra-se pela hora da morte, começando na putrefacção dos interesses económicos associados aos incêndios e na corrupção associada à plantação de eucaliptos, e terminando nas fétidas reportagens sensacionalistas onde se explora gratuita e escandalosamente a desgraça alheia para fazer disparar os gráficos de audiências.

O esgoto encontra-se a céu aberto, senhoras e senhores, é vê-lo e cheirá-lo. Todos os anos o enfrentamos sem solução à vista. Andamos sempre às voltas com os mesmos assuntos, com as mesmas reacções, como uma criança num carrocel comandado por alguém que não vemos, permanentemente surpreendida apesar de estar num círculo que se repete ad nauseam.

Esta semana, o arcano A Morte leva-nos numa viagem rocambolesca e reveladora às agruras da existência, em busca do silêncio e de um caminho que se não vê — mas que tem que aparecer algures no meio das cinzas.

Nada faz sentido. Não há justiça. Invente-se um país novo. Se faz favor, alguém que desligue a ficha deste carrossel para que possamos sair dele.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1637
foto: Pexels, licença CC0

Ou fumam todos, ou não fuma nenhum


Portugal está dividido em dois. De um lado, espetam-se dedos indicadores manchados de amarelo-nicotina, ferozmente indignados com a possibilidade da proibição de fumar nas praias. Reclamam, entre baforadas desesperadas de fumo cinzento, que é uma forma de ditadura, um ridículo atentado à sua liberdade, que não tem jeito nenhum, que não cabe na cabeça de ninguém.

Do outro lado, encontram-se, em estado zen, os saudáveizinhos para quem o cinzeiro do carro serve só para pôr as moedas. Satisfeitos e aliviados por finalmente poderem inspirar o perfume da maresia na época balnear, sem o indesejável fumo egoicamente exalado — pelos outros —, desejam que a abençoada lei seja aprovada o mais depressa possível.

Ora, depois da proibição de fumar em espaços fechados, voltamos a aborrecer-nos uns com os outros por causa dos espaços abertos; quando ainda mal tivemos tempo de superar o choque da prepotência de Miguel Sousa Tavares: quando questionado, na época, sobre a questão das crianças respirarem o fumo do tabaco nos restaurantes, sugeriu que os pais se abstivessem de as levar a lugares públicos, até porque o barulho delas era mais incomodativo que o fumo. Por aqui se vê os malefícios do excesso do tabaco. Ainda assim, teve que se submeter à nova lei, tal como os demais indivíduos-inaladores-e-exaladores de fumo.

Concordo que não se deve condicionar a liberdade dos outros. É um direito absolutamente inquestionável. Querem fumar, fumem. Que inalem todo o fumo que lhes aprouver (como dizia o outro, quando morrerem, vão de costas). O que não podem é exalá-lo junto de quem não partilha o seu vício. Explicando o óbvio: é tão inaceitável como qualquer outro toxicodependente andar a injectar as drogas que toma no corpo dos outros. Só não parece tão mau. Mas é.

Inalem isto de uma vez por todas: a questão que se trata aqui não é a de privar alguém da liberdade de fumar. Trata-se, sim, do exercício da liberdade de escolha para os outros, os que não querem ser fumadores passivos.

Esta semana, o arcano Roda da Fortuna recorda-nos que nada pode ser tomado por garantido e permanente. Nem as leis, nem os costumes, nem a vida. Vêm aí novos tempos, de ar limpo e oxigenado. Talvez doa um bocadinho ajustarem-se, especialmente no ego. Mas, se isto vos serve de consolo, leitores fumadores-furibundos: em Nova Iorque, onde desde 2011 foi aprovada a proibição de fumar em parques e praias, os resultados foram de uma melhoria na saúde geral da população, com menos registos de enfartes do miocárdio e idas às urgências. E esta, hein?

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1625
foto: Hans, licença CC0

De raízes bem assentes no chão


Não me atrevo a reproduzir nestas respeitáveis páginas o palavrão que me invadiu os pensamentos quando li a notícia sobre a oliveira milenar de Mouriscas - mas afianço-vos que era um exemplar vernacular escandaloso e com pêlos púbicos. Tão depressa li a notícia publicada n’O Ribatejo, logo a partilhei na minha página pessoal de facebook - deixando de fora o genital vocábulo -, sem conter toda a indignação que me assolou. Como um rastilho aceso, a revolta propagou-se imediatamente por centenas de pessoas de Norte a Sul de Portugal, Reino Unido e até mesmo no Brasil.

Guilherme Falcão Rosa, vereador de Lambeth, Londres, pretendia arrancar uma oliveira da freguesia de Mouriscas, Ribatejo, para replantá-la numa praça londrina, em comemoração da aliança luso-britânica. Esclareceu o equívoco de se tratar da oliveira mais antiga de Portugal, com 3350 anos, convicto que já seria ‘aceitável’ transplantar um outro exemplar, que fosse, no mínimo, mais antigo que o tratado de Windsor, assinado em 1386 (para quem teve preguiça de fazer as contas, foi há 631 anos).

Está tudo errado. Primeiro, uma árvore não é um objecto de que se possa dispor - em particular, uma árvore secular, que deveria ser intocável, sagrada. Não é o mesmo que ir ali ao mercado de Santarém comprar uma árvore num vasinho de plástico para plantar no quintal.

Segundo, uma oliveira dificilmente sobreviveria no clima londrino. Iria acabar por morrer, se não pela violência do transplante, pela diferença climatérica. Guilherme Rosa, focado no protagonismo imediato, preferiu ignorar esses ‘detalhes’, considerando-os má vontade das pessoas, que não o queriam deixar trabalhar.

“Guilherme, deixa-te de parvoíces!”, exclama um dos seus amigos na sua página pública, sucedido por largas dezenas de outros protestos. Houve mesmo quem manifestasse o desejo de oferecer o próprio Vereador GFR como presente, em lugar da oliveira, desculpando-se como as tias idosas quando oferecem cuecas pelo Natal: “É fraquinho, mas é de boa-vontade”.

Guilherme Rosa marchou como um soldado teimoso descompassado de todo o pelotão de protestos, clamando que ele é que estava certo, numa atitude caprichosa e obstinada.

Em poucas horas, já circulava uma petição que se opunha à inusitada ideia, que rapidamente contou com mais de um milhar de assinaturas. A petição, assim como as pressões exercidas pelas redes sociais e pelo PAN, levaram o executivo de Lambeth a abandonar a ideia.

GFR considerou, em declarações prestadas à comunicação social, a campanha contra o seu projecto “vil e pérfida”. Contudo, aconteceu, justamente, o oposto. A oliveira foi salva graças à bondade de milhares de pessoas que se juntaram por um bem superior, demonstrando que o amor pela Natureza está vivo e de boa saúde.

Esta semana, o arcano O Mago inspira-nos a levar avante aquilo em que acreditamos. Se conjugarmos, nas medidas certas, mente e coração, acção e sensatez, tudo pode acontecer. 
Até mesmo unir milhares de pessoas para mudar o destino de uma árvore.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1621
foto: Julie-Kolibrie, licença CC0

Nem todas as respostas vêm no Google


Cabelo cortado à rapaz, olhos curiosos e pernas de alicate. No rádio-despertador, sintonizado na Rádio Renascença, ouvia-se a Doris Day cantar “Que sera sera” anunciada pela voz polida e impecavelmente colocada do António Sala. O pequeno-almoço, tomado em silêncio, era sempre o mesmo: leite com três colheres de chocolate e uma carcaça com manteiga e fiambre.

Cabisbaixa, enfiou a mochila às costas e meteu-se a caminho. Era o último dia de aulas e ia realizar-se uma competição de Inglês entre turmas. Tinha sido escolhida para representar a sua, o que lhe causava dores de barriga lancinantes. Porque não escolheram outra pessoa qualquer? Só a ideia de ter de correr ou falar alto em frente a todos era tenebrosa. As costas curvavam-se sob o peso da mochila e da timidez.

Sem escapatória possível, de pernas-a-tremer e garganta seca por enfrentar os olhares das pessoas, acabou por ganhar a competição (como tal foi sequer possível, nunca saberei). No centro do recreio estava instalado um pódio para onde subiram os vencedores do segundo e terceiro prémios. O primeiro lugar permaneceu tristemente vazio. Queria tanto ter o prazer de subi-lo, mas só se ninguém estivesse a olhar. Incapaz de avançar, alguém lhe entregou o prémio onde estava, para despachar aquilo - um livro de contos escrito em inglês -, e correu para casa como um pássaro espavorido. Zero gramas de orgulho, toneladas de auto-censura. 

Mais de três décadas depois, o youtube toca no computador portátil pousado sobre a cama desmanchada. Na cómoda, repousa o copo onde bebeu um batido natural de cenoura, framboesas, laranja e duas folhas de hortelã. O pincel biselado desenha um traço cinzento-escuro perfeito junto às pestanas. Desmancha a trança libertando os cabelos, pega na mala e nas chaves do carro. As árvores de Sintra estendem os braços à volta da estrada como se a Serra se abrisse para recebê-la num abraço verde e materno.

Os participantes da aula escutam com atenção a matéria, que explica com paixão e humor, como se esta fosse a última. Mal pode esperar pela data da próxima. Nada ficou por fazer. Conta aos alunos, entre gracejos, que tinha fobia social quando era miúda. Ninguém acreditou. No fim do dia, reúne os livros e abre caminho devagar por entre o nevoeiro sintrense. Não se sente um pássaro espavorido, mas uma ave tropical que um dia mudou de penas e finalmente aprendeu a voar em bando; continuando, no entanto, a saborear o momento reconfortante em que é devolvida a si mesma, no regresso solitário a casa.

O Eremita inspira-nos a abraçar a doçura da inexistência temporária que a solidão proporciona, para repousar a alma dos assuntos mundanos. Há reconciliações que apenas têm lugar dentro de nós quando nos dispomos a instalar o silêncio como quem desenrola uma tela branca onde podemos projectar trechos de filmes antigos e encontrar finalmente um sentido em tudo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1617
Foto: Unsplash, licença CC0

Um café e uma atitude, se faz favor


Todas as manhãs sentava-se na mesa mais afastada e ficava com o jornal aberto à frente, fingindo lê-lo enquanto o burburinho das pessoas que iam chegando aumentava aos poucos. Escutava-lhes as conversas; fazia-o há tanto tempo que era como se os seus problemas lhe pertencessem um pouco também.

Ninguém notava a sua presença, invisível nas suas camisolas cor de papas-de-aveia que cheiravam a naftalina. Sentia-se muitas vezes como um fantasma. A solidão é, no fundo, uma espécie de morte; quando ninguém conversa connosco, atestando a nossa existência, somos levados, com o tempo, a duvidar dela.

Os habitués foram envelhecendo, vinham caras novas, outros deixaram de aparecer. As paredes rosa-envergonhado do café foram ganhando um tom amarelecido como as cravinas matizadas que espreitavam do lado de fora das janelas, olhando-o como crianças com risinhos trocistas.

Aos poucos, todas as suas camisolas cor de papas-de-aveia iam ficando mais esburacadas. Depois de aparar a barba e dar umas sonoras chapadas com after shave no rosto, revolveu as gavetas em busca de algo decente e apresentável para ir ao café como fazia sempre, mas tudo tinha sido devorado pelas traças. As cretinas tinham vencido a naftalina. Sentia-se como as suas roupas: gasto, flácido, acabado.

Esperem. O que foi que eu disse?

Entrou de rompante no café. Meias cinzentas, os sapatos pretos que só usava nos casamentos e funerais e uma toalha de banho vermelho-capa-de-toureiro embrulhada à volta do corpo. Nem calças tinha. Finalmente, todos o viram. Agora sim, tinha a certeza que estava vivo.

O que é que vai tomar hoje?, inquiriu a mulher de papos nos olhos e cabelo puxado para trás num carrapito, disfarçando o espanto enquanto alisava o avental com as mãos encarquilhadas de lavar a loiça sem luvas.

Uma atitude, é o que vou tomar hoje - disse alto e em bom som -, chamo-me Arnaldo e estou doido por si.

Todos se encontravam de olhos postos nele desde que tinha transposto a porta, mas neste ponto podia mesmo sentir-se os pescoços, olhos e orelhas esticarem como elástico na sua direcção. Silêncio absoluto. O rosto da mulher, amadurecido pelo passar dos anos, foi invadido até à raiz dos cabelos por um rubor que lhe escaldava até as pestanas. Um sorriso iluminou-lhe o semblante. O tempo ficou suspenso, cristalizado. Ninguém pestanejou. O bloco de papel e a caneta com que anotava os pedidos soltaram-se da sua mão, caindo em câmara lenta no chão.

Desde então, o Arnaldo nunca mais me vestiu. Encheu as gavetas de camisolas garridas e saquinhos de alfazema e eu fui dobrada e colocada dentro da cesta onde o seu gato cor de baunilha passa as tardes a dormir. Sou agora um cobertor de gato. O Arnaldo nunca mais foi o mesmo. Nem a sua nova mulher. Nem o café. Nem quem lá estava naquela manhã - segundo me relatou a toalha de banho vermelho-capa-de toureiro.

O arcano O Carro desafia-nos a olhar para as situações que se arrastam desde o ano passado - porque, lá bem no fundo, temos receio de fazer mudanças - e instiga-nos a assumir as rédeas das mesmas com coragem, sagacidade e rapidez. Sim, esta é uma boa semana para tomar uma atitude.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1613
Fotografia de Michael Ochs Archives em Getty Images

O gay, a mulher do buço e o psicólogo louco


Amílcar (irmão-gémeo de Aníbal) tinha maneirismos adamados e morava na casa azul junto ao cruzamento à entrada no bairro, onde uma estátua de sereia em pedra e vários gnomos coloridos espreitavam por entre gladíolos e estrelícias no quintal. Não tinha pêlos no rosto - nem no corpo, que depilava com cera - e usava sobrancelhas perfeitamente desenhadas, inspiradas no António Calvário. Havia nutrido uma paixão pelo Elias da mercearia, com quem sonhara fugir para o Tenerife, antes dos pais o casarem rápida e convenientemente com Orquídea, que não gostava de flores e tinha um pouco de buço, mas cozinhava divinamente.

Perdia frequentemente o autocarro por preguiça de estender o braço para chamá-lo; esperava que as outras pessoas na paragem o fizessem, o que nem sempre acontecia, pois por vezes os destinos dos outros eram diferentes do seu. Teve uma loja de peúgas de homem que faliu, tornando-se contrabandista durante muitos anos. Dentro da aba do seu casaco, que abria num gesto matreiro, havia um surpreendente mostruário de navalhas ponta-e-mola, relógios suíços, pentes de osso, canetas Parker - e, para clientes de confiança, pequenos revólveres.

Com a idade, a sua Orquídea desmazelou-se (ainda mais): usava collants de lã velhos e cheios de borbotos com os elásticos da cintura relaxados que lhe escorregavam pernas abaixo. Quando pagava as compras no supermercado, depois de percorrê-lo de uma ponta à outra, já os levava pelos joelhos. Ninguém reparava porque usava sempre saias até aos pés. Não tinha amigos, com excepção da vizinha do lado, que regularmente lhe ofertava nacos de porco para os guisados de Domingo, a quem chegou a oferecer uma couve Bordallo Pinheiro.

Filipe, o filho, amigo de criação de Ricardinho que viria a tornar-se autarca, era psicólogo - enveredou pela psicologia porque sempre era uma área pacata, e podia ser que o ajudasse a perceber que lugar ocupava no mundo, pois estava convencido que tinha nascido por acidente do divino e distracção dos pais - coitus interruptus fracassado, decerto.

Vivia atormentado por um inconfessável medo: e se ele não fosse um psicólogo com uma vida comum, mas um doente psiquiátrico internado numa instituição convencido que era um psicólogo? O medo de se perder nos labirintos frágeis-e-traiçoeiros da mente era tanto que se policiava permanentemente para ter a certeza que a sua realidade era mesmo real.

Um dia, resolveu partilhar todos os seus receios com o único confidente que não o julgaria: o caderno de papel. Quando completou a última página, abandonou a profissão e tornou-se um escritor de sucesso. Os seus medos tornaram-se deliciosos enredos de thrillers psicológicos, onde surgiam por vezes referências ao canibalismo.

Filipe quebrou o ciclo de gerações de pessoas incapazes de viver as suas próprias escolhas. Amílcar, por receio de desapontar o irmão-gémeo, nunca assumiu quem era. Orquídea queria ter sido chef, mas resignou-se à vida de dona-de-casa. Ambos abdicaram de fazer escolhas, ensinando o filho pelo exemplo contrário.

O arcano Os Enamorados inspira-nos a reflectir sobre as decisões que tomamos e que podem alterar todo o curso da nossa vida. Quando fazemos uma escolha, ou abdicamos dela, para satisfazer as expectativas dos outros, estamos a carimbar o passaporte para uma vida que não é a nossa.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1612
foto: 2001photo.com

Perna de porco com batatas


À primeira vista, todas as famílias pareciam equilibradas; sem escândalos, tragédias ou histórias que apenas pudessem ser contadas com voz baixa e olhares furtivos. Nesta farsa sem acordo estabelecido, todos eram coniventes, fingindo acreditar no verniz de normalidade que pintava a vida de uns e de outros. Cada qual sabia das suas vergonhas e lamentos; raros eram os que perdiam o controlo do seu teatro de fantoches onde as roupas assentavam sempre bem e os gatinhos dormiam placidamente à janela.

Com esmero de dona-de-casa caprichada, compunha o napperon de renda branca sobre a tampa da arca congeladora e pousava a couve de loiça Bordallo Pinheiro, lascada mas digna, onde guardava os rebuçados da tosse.

Era uma arca com alguns anos, daquelas horizontais, espaçosas. Postas de pescada para fritar, dois frangos criados pela vizinha do lado, pá de porco, língua de vaca, entrecosto, rissóis de camarão, perna de perú e mais de um terço do marido cortado aos pedaços - embalado em sacos de plástico. Há mais de dois anos que o falecido tinha refrescado as ideias para a eternidade, agora aconchegadas por um pacote de ervilhas congeladas.

Tinha sido um homem rude, grosseiro, de poucas falas e nenhum amigo que lhe sentisse a falta. A moldura com a sua fotografia a-preto-e-branco, de sobrolho franzido e o fato dos funerais vestido, continuava na credência da entrada, como se estivesse a observar tudo.

Em casa, longe dos olhares da vizinhança, costumava descarregar a dor abafada de uma infância desprovida de calor humano na Dona Idalina, que andava sempre de meias até aos joelhos e manga comprida para esconder as marcas. Num desacato que foi longe demais, uma frigideira de ferro voou com a força de muitos anos de revolta silenciada. Parecia obra do Diabo.

Chegou, por macabro engano, a dar um pedaço da coxa do marido à vizinha do lado, como retribuição pelos frangos que de vez em quando lhe oferecia. Esta fez um inolvidável guisado para o almoço de Domingo que toda a família lambeu em menos de nada. Enquanto ensopavam o pão no molho, comentavam: “Há anos que não vejo o Júlio, uma besta daquelas nem merece a mulher que tem.”

Amiga dos gatos abandonados que alimentou toda a vida, frequentadora assídua das missas semanais - quiçá com secretamente culpada devoção - sempre com um conselho de culinária a partilhar com as vizinhas na mercearia, a boa senhora esteve sempre acima de qualquer suspeita. Nunca foi descoberta. A arca congeladora sobreviveu-lhe, assim como a prova do seu crime com que pacientemente conviveu durante mais de vinte anos.

O segredo foi desvendado após o seu falecimento, por idade avançada, pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se quando os gritos de horror ressoaram pela casa. Ainda assim, a Dona Idalina foi sempre recordada com saudade e amizade, não só pelos vizinhos, como pelos gatos da rua que durante anos foram alimentados com deliciosas papinhas de carne picada.

O arcano A Sacerdotisa incita-nos a apurar a sensibilidade intuitiva e procurar ver para além das aparências. Por detrás da capa da normalidade, por vezes escondem-se os mais inesperados segredos. E todos os temos.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1607
foto: Anne Taintor

A bofetada que nos falta


Boa tarde, então, como vai isso?, perguntava a mulher de avental debotado, lábios frios e secos que não eram beijados com lascívia há mais de vinte anos e cabelo curto. Na alcofa, trazia o pão ainda quente e um pacote de farinha para as pescadinhas-de-rabo-na-boca que ia fazer para o almoço.

Olhe, vai-se andando, cada um com a sua cruz, respondia a vizinha, carregada pelo preto das roupas que cheiravam a mofo, de cabelo impecavelmente apanhado num carrapito e um saquinho da farmácia com remédios para os nervos.

Todos os dias era igual. Vivia-se a preto e branco - na televisão e fora dela. Aguentava-se com discrição os açoites, abusos, insultos e toda a crueza da vida, não esperando que esta pudesse alguma vez vir a ser mais do que isso. A gratidão era um dever moral inquestionável.

Podia-se ser espezinhado no emprego pelo chefe, mas estava-se grato pelo ordenado ao fim do mês e pelo bacalhau que este oferecia pelo Natal. Podia-se ser uma criada sem ordenado a vida toda, trabalhando de Sol a Sol para manter a casa limpa, a roupa lavada, os miúdos educados e as refeições na mesa a horas certas, enquanto o homem ia para a taberna beber copos-de-três até chegar a casa a arrastar os pés. Mas estava-se grata por ter uma casa e um marido.

Cada um aguentava à sua maneira, calava e engolia sapos do tamanho de paquidermes. Ninguém gosta de admitir, mas a verdade é que, de um modo geral, somos uma cambada de frouxos.

Acomodamo-nos às circunstâncias mais frustrantes e pouco dignificantes que alguma vez pudéramos imaginar. Por esse motivo, prevalecem casamentos de décadas onde já nada existe senão ressentimento, rotina, obrigações e uma imagem a manter; empregos onde se faz o mesmo de sempre, mecanicamente, com a mesma expressão azeda e lívida emoldurada por olheiras escuras. Somos campeões em aguentar. Precisamos de ser severamente esbofeteados para que o sangue nos suba às faces e volte a circular livremente, trazendo vida a este corpo meio inerte pelo hábito continuado e anestésico.

Esta semana, o arcano O Julgamento mostra-nos que os momentos de crise e de tensão podem ser, justamente, a oportunidade que precisávamos para nos libertarmos dos ciclos viciosos onde nos deixámos capturar.

Um dia, o homem dos copos-de-três disse que ia comprar tabaco e nunca mais voltou. Deixou o emprego, assumiu a homossexualidade e foi viver com um taxista de bigode farfalhudo. Passou a conduzir o táxi e não voltou a beber.

A mulher do avental debotado teve um caso amoroso com o homem da peixaria, deixou crescer o cabelo, passou a usar batom vermelho e nunca mais cozinhou. A do carrapito e roupa preta recebeu ordem de despejo da senhoria e deixou os fantasmas para trás, indo viver com a filha para o país dos cangurus, onde passou a usar roupas com padrões garridos depois de conhecer um viúvo numa festa local.

Quando a vida nos dá uma bofetada, digo, uma segunda oportunidade para sermos felizes, temos pavor dela como um pássaro que passou a vida toda em cativeiro receia voar fora da gaiola. Podemos abrir a porta da clausura e devorar a liberdade. Ou deixamo-nos ficar como estamos, arrumadinhos como um par de sapatos velhos que já não dançam no baile.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1605
foto: Anne Taintor

O raio que os parta


Os relâmpagos desenhavam-se com assombro por uma mão imponente, invisível e absoluta, como raízes de luz e patas de aranha que rasgavam o veludo negro do céu nocturno. Em frente à janela de vidros embaciados onde o seu dedo tinha estado a contornar bonecas em vestidos compridos, Isabel sustinha a respiração.

Antigamente, abria-se sempre uma janela quando trovejava, murmurava a avó com a gravidade de quem recorda a aparição de um fantasma cujo reflexo nunca desapareceu dos seus olhos, como se tudo ainda estivesse a acontecer naquele preciso momento, corroborado pelo uivo do vento frio que se esgueirava através das frinchas das janelas de caixilharia velha.

Dentro da sua cabeça, que produzia zumbidos nos ouvidos, catástrofes naturais, vozes conspiradoras e doenças que não existiam, o bom-senso não tinha permissão para entrar e traçar limites. Todo o cosmos morava nos seus pensamentos.

Quando as lendas são mais antigas que todas as pessoas no mundo, assumem proporções bíblicas. Acredita-se nelas quando se é criança, e perduram ao longo de toda a idade adulta, porque os que viveram antes de nós também acreditaram. Alguns poderiam mesmo jurar tê-las vivido, de tão entranhadas sob a epiderme da memória colectiva.

Isabel sentia alívio pela existência de um pára-raios na vizinhança que dispensava a necessidade de abrir uma janela por onde um hipotético relâmpago pudesse sair, sem, contudo, reparar que alguém que não confiava na tecnologia moderna tinha discretamente entreaberto a porta de alumínio nas traseiras da casa.

Contava a velha lenda que numa noite de trovoada um raio entrou pela chaminé de uma casa, foi percorrendo todas as divisões, fazendo ricochete nas paredes como um demónio à solta e, como não encontrou uma janela aberta por onde pudesse sair, acabou por destruir a casa e matar toda a família. Naquele tempo, as lendas, relatadas por vozes idosas e trémulas, tinham tanto de assustador quanto de fatalista.

Nem sempre as paredes das casas se conseguem manter unidas, quando não existem alicerces suficientemente sólidos para sustentá-las. Isabel levou uma vida inteira até perceber, quando os cabelos brancos lhe começaram a despontar como relâmpagos na sua cabeleira cor de azeviche, e chegou a sua vez de passar o legado de deslumbres e assombros aos que observavam as noites de trovoada de olhos arregalados, que a janela aberta para o raio poder sair era uma metáfora para a possibilidade que não devemos negar a nós mesmos de recomeçar sempre que as nossas crenças e objectivos caem por terra.

O arcano A Torre irrompe através do nevoeiro como um clarão inesperado que revela as fraquezas para que possamos enfrentá-las em vez de ignorá-las. As vicissitudes podem ser exactamente a oportunidade que precisávamos para abandonar conceitos ultrapassados e ter a possibilidade de evoluir para um novo paradigma. Basta que tenhamos a coragem de abrir uma janela no momento certo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1604
Foto: Pat Brennan

A senda da cenoura


Quem é que vai ganhar com o esforço que fazes todos os dias para chegar exactamente às nove em ponto ao trabalho, e não às nove e cinco? Não podes falhar. Dá o teu melhor. Chega a horas. Não basta fazer, tens de mostrar que fizeste. Diz bom dia aos vizinhos. E aos colegas. Paga a renda de casa a horas. Muda a correia de distribuição ao carro, olha que já passaste o limite.

Vê o noticiário, tens de saber o que se passa no mundo. Veste a camisola de malha vermelha na consoada. Põe menos açúcar no café. Bebe mais um, vais precisar da cafeína. 
Corre, corre! Tu és um cavalo de corrida!, já diziam os UHF. Todos esperam tudo de ti, e tu viras-te do avesso para mostrar que consegues.

Nem por um segundo páras para te questionar porquê, para quê. Foi assim que foste programado desde que nasceste, para ter um emprego bem sucedido, morar na melhor casa possível, ter uma arvorezinha ambientadora de aroma a pinho pendurada no espelho retrovisor do carro, e uma mulher que te faz um jantar isento de glúten, porque agora todos passaram a ser intolerantes e tu não te podes ficar atrás.

Vives como um burro de pescoço esticado para a frente, deixando um rasto de bosta atrás de ti que não vês - nem cheiras - porque estás muito concentrado em alcançar a cenoura à tua frente. Levas em cima do lombo o peso da vaidade de todos os bens materiais que acumulas, reconhecimentos e honrarias. Pelo caminho cruzas-te com outros burros, uns com uma carga menor que a tua, outros com carga maior. Cada um atrás da sua cenoura.

Julgas que vais viver para sempre; estás convencido que ias ser o burro, digo, o homem mais velho do mundo e destronar o indiano com três metros de cabelo enfiados num turbante, que tem mais de cento e trinta anos e passou os últimos dez na mesma asana

Mas quando tudo se vira de pernas para o ar e a tua hora chega, já só vês as vezes em que não amaste, os abraços que podias ter dado se não tivesses sido orgulhoso, a paz de que abdicaste porque preferiste degladiar-te para provar aos outros que tinhas razão, e nem assim os conseguiste convencer. Percebes que a tão desejada cenoura era uma ilusão, assim como a razão, a casa, o carro, o emprego, e tudo o resto.

Seria um castigo divino deliciosamente irónico se o paraíso fosse uma planície a perder de vista cheia de ervinhas verdes e milhões de ramagens de cenouras - biológicas, obviamente - que bastaria puxar da terra. Mais nada nem ninguém, a não ser a tão desejada cenoura. 
Ah, betacaroteno. Ad nauseam.

A carta Roda da Fortuna recorda-nos que num instante tudo pode mudar. Ninguém está seguro. Na incerteza do futuro, a única garantia que existe é de que tudo e todos estão connosco por empréstimo. E por tempo limitado. Podemos reformular a qualquer momento as nossas prioridades, fazer escolhas diferentes, regressar ao nosso centro, focar-nos no que verdadeiramente importa. Ou passar a vida inteira atrás das cenouras.

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1598

Mil decibéis de silêncio


Intrigam-me as pessoas caladas. Há um inegável respeito que impõem no seu jeito silencioso de existir e no olhar observador com que seguem as conversas acenando educadamente com a cabeça, mas guardando as suas opiniões para si, seja por timidez, precaução, ou pela irrelevância que possam atribuir às palavras. Se a paz de espírito pertencer a alguém, nunca poderá ser de um tagarela, mas de um introvertido. 

Folheando mentalmente as pessoas a quem sou mais chegada, reconheço uma amiga assim. Todas as semanas fazemos uma caminhada juntas, há mais de um ano. A Patrícia, é assim o seu nome, nunca fala de assuntos inúteis ou desnecessários. Escolhe sempre cuidadosamente as palavras antes de libertá-las de dentro de si. De bom grado troca um “sim” por um simples inclinar de cabeça com um sorriso - é suficiente. 

E eu, que tantas vezes me arrependo por colher maçãs antes de me certificar que estão maduras, falando por impulso sem antes medir as palavras, admiro quem dá primazia aos pensamentos em relação ao verbo. Afinal, o mundo já tem palavras demais à solta, palavras que por vezes se descontrolam e geram zangas, mal entendidos, conflitos, ressentimentos, guerras. 

Já o silêncio é tão raro e valioso que não sabemos como comportar-nos quando desavisadamente nos encontramos a partilhá-lo com alguém durante mais de cinco minutos. 
De certa forma, sentimo-nos nus, pretendendo simular naturalidade, mas sem saber o que fazer com as mãos que procuramos desajeitadamente enfiar nos bolsos que não temos e, por isso, socorremo-nos de uma manta que nos cubra a aflição da vulnerabilidade - a palavra. Cometemos, assim, a grosseria de invadir a perfeição silenciosa do universo da outra pessoa com uma qualquer observação banal e cretina sobre o tempo ou sobre como correu a semana. 

As pessoas caladas têm um universo mais vasto que as outras, com mais continentes, oceanos, ilhas, estações espaciais, estrelas e nebulosas. É interessante observar o contraste dos que falam sem parar, como se da sua boca saltassem milhares de massinhas da sopa de letras entrecortadas por breves segundos de pausa para ganhar fôlego; por oposição à serenidade dos que observam o mundo sem sentir necessidade de lhe acrescentar uma sílaba.

O silêncio é uma arte que apenas podemos apreciar emoldurada pelos barulhos do mundo. 
Não podemos - nem devemos - querer silenciar os ruídos à nossa volta. É o nosso silêncio interior que se deve sobrepor aos barulhos exteriores. Só então dominaremos essa arte e estaremos aptos a ter longas conversas com um simples aceno de cabeça. Como a Patrícia.

Esta semana, a carta O Eremita inspira-nos a privilegiar o silêncio e desafia-nos a encontrá-lo dentro de nós. Mergulhemos nas suas profundezas, escutemos as suas respostas e troquemos o ruído dos nossos passos apressados pelo deslizar harmonioso de uma existência quase não-existente, tamanha a sua harmonia com o pulsar da Terra.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1596
crédito foto: pap.az