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Bilhete de Ida

E stá decidido. Já anotei nos alfarrábios estrelares quanto tempo vou querer viver. Que alívio isso me trouxe, por Láquesis! De-agora-em-diante (quase escrevia ‘doravante’, mas encontrei a palavra cheia de pó por falta de uso, assim engavetei-a embaraçadamente neste parêntesis), não …

A Revolução dos Cravos

“S E QUISER, TOME, UM CRAVO oferece-se a qualquer pessoa”, respondeu Celeste Caeiro, 40 anos, ao soldado que lhe pediu um cigarro. Não tinha mais nada para oferecer senão os braços cheios de cravos vermelhos e brancos. O restaurante onde trabalhava, em Lisboa, celebrava nesse preciso…

Ai Jeremias

N ÃO HÁ REMÉDIO  que te cure essa urticária, Jeremias. Enfiou-se-te por entre os dedos das mãos e dos pés (não vamos contar aos senhores sobre as zonas pudibundas onde ela também comicha, fica descansado, hã). Todo tu comichas em formigas-de-asas peludas e invisíveis que te alfinetam…

Previsão meteoro(i)lógica

C hove sem parar. O cheiro doce da água, que se sente no fundo da língua, encontra-se em todas as ruas, embora se tenha tornado imperceptível como um perfume que se usa há demasiado tempo. Podemos deitar fora os chapéus-de-palha, os fatos-de-banho, os colares de conchas. São inúteis …

Como Lidar com o Bloqueio Criativo

P REPARO UM café simples (desta vez, sem os extraordinários obséquios aromáticos da canela e do açafrão) para servir de combustível milagro-epifânico. Deixo-o escorregar lentamente goela abaixo. E nada. Quer isto dizer, ‘nada’ é uma forma de colocar a questão; em boa verdade, a Bic-l…

Casimiro

B REVE HISTÓRIA EM três tempos, para leitores ávidos e impacientes. – Tempo Um  – Casimiro era um homem de certa idade. Tinha uma marreca notável. Levava sempre um casaco grande. Nunca casou, não se lhe conheceu família. –  Tempo Dois  – Um dia, Casimiro morreu. Oh, Casimiro. …

Rosa dos Ventos

Desço o ribeiro a baloiçar até ao mar na canoa do teu abraço. Beijos ébrios de maresia. A madressilva dos teus olhos. Abres estrelas do mar das tuas mãos frias no corpo de nevoeiro perdido na bruma. Enrolados em tentáculos de vontade Navega-me em ondas de lençóis brancos …

Os Malmequeres que nos Querem Bem

A I O QUE EU GOSTO DE MALMEQUERES. Reconfortantes e malcheirosos, aparecem todos os anos quando ninguém espera por eles, no momento em que se perdeu a esperança de que o Inverno vá alguma vez terminar e nos rendemos quebrados pela chuva mole, teimosa e eterna, um regozijo para o bolor …

A Vendedora de Ovos

R OLIÇA E DE PERNAS CURTAS, encontro-a sentada em doce pacatez sobre um banquinho que desaparece debaixo das saias, dando a ideia de estar a chocar os ovos que tem para venda. U sa sempre o mesmo kispo cor-de- papas-de-aveia , a condizer com o tom das asas das suas galinhas.  As cai…

O Último Dia

« O bservo sem emoção o burburinho de gente desinteressante que se arrasta com pachorra de réptil anafado sob o Sol vespertino, esquecendo-me da minha própria existência. Como um fantasma. Ninguém nota a minha presença. Nem eu. Tudo é temporário. Sei que um dia voltarei a encontrar-m…

Monstros Debaixo da Cama

N ÃO ACREDITO EM DEUS. Mas sei que Deus existe; disso não duvido, benza-me Deus. Existe para aqueles que acreditam n’Ele. Quem diz Deus, diz o Diabo . A crença numa ideia torna-a real, verdadeira. Qualquer ideia. Os monstros debaixo da cama são palpáveis para os que neles creem, e vêm…

A Origem do Dia dos Namorados

O DIA 14 DE FEVEREIRO, conhecido actualmente como "Dia dos Namorados", é uma celebração pagã associada ao início da época de acasalamento na Natureza.  Na Roma antiga, dava pelo nome de Lupercalia , a festa em honra de Lupercus, o Fauno (Pã, na Grécia), divindade regente das…

Diário de Bordo do Navegante Solitário

P EDE-SE À LOUCURA  que jamais se faça anunciar. Caso me encontre, que tome conta de mim sem que eu o saiba, e ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados, descompassados e destrambelhados –, e a mim sã.  Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciênci…

A Dama do Pechiché

O s frasquinhos de perfumes pecaminosos ocupavam quase todo o pechiché, reluzentes, tentadores. Uma serpente filiforme de odor amadeirado esgueirava-se sinuosa de uma tampa mal encaixada e evolava pelo ar, penetrando as narinas; incitando a destapar e cheirar o conteúdo de todos os vidr…

Mortinho por Viver

E STA VOSSA ESCRIBA encontrou um defunto a viver no seu roupeiro. Guardara-o há tanto tempo que me esqueci dele. Lá estava, bem direitinho como compete aos defuntos, com o expectável saco de plástico preto a envolvê-lo. Tal não poderia continuar, não senhor. Urgia ressuscitá-lo. Com efe…

Borboletário

A s curvas do meu corpo macio insinuam-se numa dança ondulante e silenciosa à medida que me movo com languidez, inconspícua por entre a folhagem que emoldura a paisagem límpida e orvalhada da manhã. Ocasionalmente, uma folha ou outra roçam-me a pele nua. Alimento incessantemente o …

O Deus Mitra das Calças Rasgadas

E NCONTREI DEUS dentro de mim. Afinal não parece o Gandalf . Nem barba tem, o velhaco, excepto um punhado de pelitos manhosos que lhe escurecem o buço. Dei com ele entre a minha terceira e a quarta vértebra, sentado a ler um livro virado de cabeça para baixo. Além de escrever direito…

Conte-me a sua História

N ão fosse a escassez de topete para tal arrojo e sentar-me-ia na Baixa Lisboeta com a tabuleta “Todas as pessoas têm uma história. Conte-me a sua” , à espera que alguém se sentasse à minha frente e o fizesse. Pelo-me por uma boa história. Quando era gaiata, entrei num livro e nunca…

Boneca de Porcelana

V EIO DE PARIS, bien sûr . Os cabelos cor de trigo sarraceno emolduravam-lhe o rosto róseo e delicado, com olhos redondos e inocentes, sobrancelhas eternamente espantadas e lábios pequeninos, cheios de segredinhos tentadores. O vestido era uma harmonia de azul e alfazema, remetendo aos…

Cantar de Galo

A inda o galo não abriu o gasganete para cantar os bons-dias e já se ouve o velho tractor a andar para-cá-e-para-lá. De ceroulas arrepanhadas até aos sovacos e olhos esbugalhados das noites mal dormidas, o homem anda desnorteado com o trabalho. «Havia de ir ali pedir um tractor empre…

Medo do que os Outros Possam Pensar

A lzira preferia morrer a sujeitar-se ao vexame insuportável de se separar do marido, que desprezava secretamente, mantendo durante toda a vida um casamento falecido, sem jamais suspeitar que o objecto da afeição do seu consorte era o Peixoto do talho. O Peixoto, robusto e hirsuto, n…

No Creo en Brujas, pero que las hay, las hay.

S EMPRE ME INTRIGARAM aquelas castanhas engelhadas, mais velhas do que eu e que nunca ganhavam bicho, no fundo das gavetas da roupa. É por causa das bruxas , dizia sem mais esclarecimentos a minha mãe. Lá em casa, ninguém gostava de bruxas. Pantominices!, É tudo uma pantominice , saí…

A Princesa Ranhosa, um Conto de Fadas Moderno

E RA UMA VEZ uma bela princesa que vivia numa torre de apartamentos remodelados ali para os lados das florestas luxuriantes de Mem Martins, mesmo antes de chegar a Sintra. Bela, é como quem diz; a voz de bagaço, o buço junto aos cantos dos lábios, o acne, as olheiras profundas e os den…

Laboratório do Amor

O amor é urgente, desajuizado e ridículo. Eventualmente, causa até um bocado de nojo, podendo mesmo chegar a induzir em gregorianos espasmos pré-vómito aos que, frustrados nas suas ilusões, deixaram de acreditar porque o tomaram por uma âncora que estanca a fragata em alto mar, quando…