A mulher que guardou o Verão em frascos de vidro


Bastava que um delicado fio de Sol lhe incidisse nos olhos castanhos para revelar a chama alaranjada de ágata de fogo que se escondia no fundo da sua alma. Tinha as fogueiras, as danças e os ritos de Beltane dentro de si, sob a insuspeitada e enigmática serenidade do cisne branco que desliza sobre um espelho de água.

O sopro dos Invernos fazia esta luz tremeluzir como uma vela que ameaça extinguir-se, mergulhada na melancolia dos dias escuros. A chegada da nostalgia dos dias frios era como um casaco cinzento de malha fina e gasta, ensopado pela chuva, que se cola à alma e a gela.

Decidiu que a tristeza peganhenta e invernosa não iria mais agarrá-la. Essa velha traiçoeira de dedos longos e ossudos não voltaria a apanhá-la desprevenida. As ágatas de fogo iriam reluzir nos seus olhos ao longo de todo o Inverno. Podemos ser felizes para sempre, sim. Como nas histórias. É só querer. Querer muito, e nunca parar de querer, aconteça o que acontecer. E ela queria-o em cada célula do seu corpo.

Então, passou o Verão inteiro a armazenar partículas de ar quente e feliz dentro de frascos de vidro. Sempre que queria preservar um momento de alegria acabado de viver, abria um frasco, movimentava-o à sua frente traçando uma lemniscata, e fechava-o de imediato, aprisionando aquele ar doce e frutado. Às vezes, guardava gargalhadas que pareciam não ter fim dentro de frascos onde colava o rótulo "Euforia".

Acumulou vários frascos de vidro ao longo de um Verão pleno de dias felizes, que etiquetou cuidadosamente e armazenou num baú de madeira de cedro, para quando viesse o Inverno.

As pessoas viam os frascos vazios a entrarem naquele baú e comentavam entre si que era louca, por achar que podia guardar o Verão dentro deles. Excêntrico. Absurdo.

Os dias frios chegaram e, com eles, começou a sentir ao longe o passo arrastado da velha traiçoeira que ameaçava entrar sorrateiramente com o vento frio que uiva pelas frinchas das janelas. "Já estava à tua espera", disse ela.

A tampa do baú rangeu ao ser levantada pelas suas mãos sábias, que abriram os frascos todos, um por um. Gotas de transpiração escorreram-lhe na parte de trás do pescoço.

Torrentes de luz brotavam, queimando-lhe a pele. As labaredas das ágatas de fogo dançavam nos seus olhos. Ouviam-se gargalhadas, vozes alegres e desconcertantes, o bater das asas de pássaros, o som do mar, o sopro do vento que corre as searas...

Foi o Inverno mais quente de sempre. E o mais feliz.

A destapar frascos de vidro,

Hazel

Viver em Apartamento: Como Ser um Bom Vizinho

Este post escreveu-se mentalmente na minha cabeça durante a madrugada de 6ª feira, enquanto os vizinhos de cima arrastavam móveis de forma descontrolada, como se estivessem a jogar xadrez com sofás, cadeiras e cómodas gigantes.

Admito que posso ter tido alguns pensamentos homicidas. E desculpo-me a mim mesma pelas torturas medievais que me imaginei a submetê-los, porque eu sou uma flor de vizinha e não mereço ser privada do meu sono.

Há algumas regras de educação e bom-senso para que seja possível viver de forma salutar e satisfatória num prédio. Procuro cumpri-las todas.

Não posso dizer que nunca falhei, mas, se o fiz, foi acidental, e jamais por não me importar com a paz alheia (OK!, excepto na adolescência, quando ficava sozinha em casa e aumentava o volume da música. Mas era boa música. Foram os anos '80, estou ilibada de culpa?)

Então, e o que é isso de ser um Bom Vizinho?
Um Bom Vizinho é quase uma espécie de super-herói pachola. Três vivas aos bons vizinhos. Três? Não, dez vivas, que eles merecem.

Um Bom Vizinho nunca...
(podeis imprimir isto, Senhores, e colar nas paredes dos prédios por este mundo fora!)

... deixa que a roupa estendida fique a tapar a janela dos vizinhos de baixo (p. ex.: lençóis grandes), nem estende roupa que não foi torcida/centrifugada e fica a escorrer água para os outros estendais;

... faz sardinhadas ou grelhados na varanda/janela, que ficam a encher a casa dos outros vizinhos de fumo e cheiro intenso;

... arrasta móveis à noite;

... martela ou faz furos com berbequim num Domingo de manhã cedo. É um clássico, em todos os prédios tem de haver um chato que esburaca paredes nas manhãs de Domingo;

... deixa o saco do lixo à porta de casa, nas escadas comuns;

... anda de sapatos de salto alto dentro de casa;

... permite que as visitas façam barulho que incomode os vizinhos;

... põe música alta, ou toca instrumentos musicais alto;

... atira com cinza, beatas de cigarro ou outro lixo para a varanda dos vizinhos de baixo;

... sacode tapetes para cima da roupa estendida dos vizinhos, ou quando estes têm as janelas abertas. Pode sempre pedir-lhes antes que fechem as janelas por uns minutos;

... tem a cama de casal mal aparafusada. If you know what I mean, ninguém quer ouvir, ninguém quer saber e, pior, ninguém quer imaginar;

... deixa que o seu cão passe o dia ou a noite inteira a ladrar;

... leva o cão para fazer as necessidades em frente à entrada do prédio dos outros. Ou do próprio prédio onde mora;

... estaciona ocupando dois lugares de estacionamento.

Não é assim tão difícil preservar o bem-estar dos outros, da mesma forma que gostamos que preservem o nosso. São as pequenas cortesias que sustentam as estruturas para um mundo melhor.

Uma flor de vizinha,

Hazel

Duelo na janela da minha casa-de-banho

Na janela junto à minha banheira mora uma aranha que trabalha no mercado imobiliário. Está a expandir a sua propriedade a olhos vistos, com os lucros provenientes dos bilhetes de entrada que cobra aos insectos que lá caem, no engodo de me verem a tomar duche.

Esta semana, enquanto eu esperava que o condicionador fizesse o efeito-que-promete naqueles 3 minutos de ilusão-de-um-cabelo-melhor, um melgão com atitude de cafajeste resolveu entrar sem pedir licença e invadir os domínios da Aranha-Gorda. 

Pousou na janela como um cowboy que entra num saloon onde sabe que vai ser matar-ou-morrer. Lançou um olhar provocador e cuspiu para o chão (que é como quem diz, para a janela). A Aranha-Gorda rosnou. A janela é dela, a banheira é dela e eu sou dela (?). 

Trocaram insultos, ameaças e olhares de desprezo. E eu ali, como vim ao mundo, a única testemunha daquele momento BBC Vida Selvagem.

Num segundo, tirei o condicionador do cabelo, enrolei-me numa toalha e fui a chapinhar pelo chão da casa toda em busca de uma máquina fotográfica.

Aquilo que aconteceu ficou registado para sempre na memória de todos os insectos. 
Depois deste duelo, a Aranha-Gorda vai passar fome, porque nunca mais nenhum bicho com asas, patas e amor à vida voltará a aproximar-se desta janela.

Seguem as imagens, que, aviso, são terrivelmente violentas:

O desafio do Melgão-Cafajeste.

Atitude "badass". É agora que desatam à chapada uma à outra.
A mutilação
O triunfo da Aranha-Gorda.
É assim que se resolvem as coisas na janela da minha casa-de-banho. 

Não é uma montagem - a aranha realmente arrancou a pata do melgão. 

É inegável que esta aranha é uma durona, uma rufia. Hoje mesmo, depois de umas 50 sequências de flexões, pediu-me um bife em sangue com batatas fritas. Só me resta perguntar: "As batatas, são os cubos, ou aos palitos?"

A tremer por todos os lados,


Hazel