À Velocidade da Luz!


Quanto tempo demora o arco-íris a aparecer no céu quando o primeiro raio de luz incide sobre a chuva? Quanto tempo irá passar até que alguém repare nele? 
E quanto tempo até que alguém o considere um presságio de felicidade, de boa sorte? 
A resposta para todas as perguntas: um instante.

É disto que somos feitos. De instantes. A nossa própria existência surge num instante - podemos ter de esperar nove luas para nascer, mas a fecundação, no momento em que o espermatozóide penetra o óvulo, dá-se em segundos. 

Está na nossa essência a urgência, o imediato, o agora em movimento. Por esse motivo, a espera impacienta-nos, o saudosismo entristece-nos e a ansiedade mata-nos. 
Estar longe do presente é estar apartado de nós mesmos, do nosso centro, da centelha divina que nos habita.

Quando o Sol espreita através das nuvens chuvosas e forma um breve e tímido arco-íris, há sempre alguém que olha para ele e volta a acreditar no sentido da vida, na predestinação - que tudo obedece a um plano superior. 

E tudo isso passa a existir porque alguém acreditou. No mesmo instante decisivo, resolve virar para a esquerda em vez de virar para a direita como era seu velho hábito e, por fazê-lo, encontra o caminho certo, aquele onde a luz brilha com mais intensidade.

Os instantes decisivos são as intersecções na teia da vida, que nos fazem ziguezaguear por desvios inimaginados, como viajantes do cosmos que seguem o caminho luminoso das estrelas, sabendo que quem pára, fica estagnado na escuridão e no vazio, mas, para aqueles que estão dispostos a prosseguir, existem tantas possibilidades quanto há estrelas espalhadas pelo céu. E isso é maravilhoso.

Esta semana, a carta Ás de Paus cai-nos em cima como um fulgurante feixe de luz, para incentivar-nos a seguir os nossos instintos. Cada um de nós tem um mapa interno onde estão registados todos os percursos, atalhos, pontes, intersecções e desvios, a que só acede quando une o pensamento à intuição, sem que um atrapalhe, sobreponha ou anule o outro, mas numa fusão perfeita.

Estejamos atentos aos nossos ímpetos, às certezas que não sabemos explicar, mas que sentimos no âmago, à criatividade que necessita de brotar para que encontremos a nossa própria voz e expressão, ambas únicas e intransmissíveis. 

As oportunidades pairam no ar, cabe-nos captar o momento em que os finos fios de luz se cruzam, e voltamos a acreditar que, afinal, nada é aleatório no Universo, mas tudo cumpre um plano superior. Porque que ele existe, existe.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 31 Março

Queda de Cabelo : medidas de emergência

No último ano, apercebi-me que o meu cabelo começou a enfraquecer e a cair com mais facilidade. E isso não é justo. Porque eu sou uma mulher natural, já dizia Aretha Franklin.

Não pinto o cabelo, nem faço alisamentos. Lavo-o apenas, e deixo-o viver em liberdade como um leão na selva. GRUAU! Mas o leão começou a miar em vez de rugir (miau?).
Por Maria Bethânia! Porquê, senhores?

Será que me faltam nutrientes porque deixei de consumir leite?
Será por causa do shampôo sólido da marca Lush, que estava a usar por ser menos químico que os de supermercado, mas fez-me ficar com caspa?
Será que é porque estou quase a roçar os 40 anos, e estão a nascer muitos cabelos brancos? Esses não são fracos, mas bem firmes e hirtos, como nylon.
Será que o meu cabelo se revoltou contra mim e decidiu desertar?

Eu-sei-lá. Esta vossa escriba, receosa de ficar depenada, resolveu tomar diversas medidas de emergência e, olhem, funcionou. A queda de cabelo PAROU. Então, resolvi partilhar todos os cuidados que tenho + os que adoptei, para o caso de haver mais alguém que possa precisar.

[Aproveito para informar que não recebi nenhum patrocínio de marca alguma para escrever este post! A minha opinião é baseada na minha experiência.]

TRAVAR A QUEDA DE CABELO - MEDIDAS DE EMERGÊNCIA!

Fazer análises ao sangue. Só para ter a certeza que está tudo bem, e que a queda de cabelo não é sintoma de outra condição que precisa de ser tratada.

Comer bastante fruta e cenouras. Tenho feito smoothies de laranja e cenoura, que me nutrem o corpo e alma. Tão simples, económico e natural. As cenouras são ricas em vitamina A, que o cabelo adora.

Beber mais água. Que mania de acharmos que conseguimos atravessar o deserto. Nós somos como plantas, não como camelos! Precisamos de muita água, e com frequência, para não murcharmos.

Tomar suplementos vitamínicos. Daqueles com as vitaminas de A a Z. Se é para tomar alguma coisa, que seja logo o alfabeto inteiro. Para compensar as faltas de nutrientes que poderia haver.

Dormir. Se até os pelinhos que nascem onde não deveriam, em zonas que depilamos - as quais não me atrevo a referir aqui - crescem com maior velocidade quando dormimos mais, o cabelo não é excepção. Dormir e relaxar!

Não lavar o cabelo com água demasiado quente. Porque é uma agressão ao couro cabeludo, e fragiliza-o.

Não pintar nem alisar o cabelo. Se a água a escaldar é uma agressão, pintar e alisar entra na categoria de actos criminosos horripilantes. O cabelo tem de ser respeitado para ser feliz e saudável. Se é liso, que seja liso. Se é ondulado, que seja ondulado. Se é castanho, que seja castanho. Mudar a sua natureza é como cortar uma árvore para construir um prédio e depois queixarmo-nos porque não temos espaços verdes.

Utilizar um shampôo adequado e um condicionador eficaz. Eu sei... Esta é uma medida quase mitológica. O que é o shampôo adequado? Que condicionador é realmente eficaz? Depois da decepção com os shampôos sólidos e os diversos condicionadores da Lush, estou a utilizar a marca Pantene. Não estou deslumbrada, maravilhada, inebriada por ter encontrado o Santo Graal capilar, mas estou satisfeita.

Pentear o cabelo com cuidado. Pentear o cabelo com muita força arranca-o, além de quebrar os fios, que perdem elasticidade. Se é para me pentear à pressa, em 2 segundos, não me penteio. - Amem-me assim!

Massajar a cabeça. As massagens na cabeça estimulam a circulação, assim como o crescimento capilar. Faço-as todos os dias.

Aparar as pontas. Sofro do síndroma de Sansão, sou muito adversa a cortar o cabelo. Mas sempre que aparo as pontas, ele embaraça-se menos e, quando o escovo, não se arrancam tantos fios. Corto o meu próprio cabelo há muito tempo, 2/3 vezes por ano.

Não abusar de gorros e chapéus. O cabelo e couro cabeludo precisam de respirar. Manter a cabeça sempre tapada não facilita o crescimento capilar.

Se alguém quiser colocar perguntas, estou ao vosso dispor para responder aquilo que souber, seja através dos comentários neste post ou por email: casaclaridade@gmail.com.

[A fotografia que ilustra este post é da autoria de Zito Colaço.]

De cabelos ao vento,

Hazel

Como Passar de Besta a Bestial


Todas as histórias são histórias de amor. Umas, de amor sentido. Outras, de amor não sentido. Porque um rio que não consegue desaguar no mar, não deixa de ser um rio. 

Quando não nos sentimos apreciados e a nossa existência se torna indiferente àqueles que valorizamos, podemos cair no precipício de questionar o nosso próprio valor e, ao fazê-lo, despedaçamo-lo - e a nós mesmos. Há partes de nós que deveriam permanecer intocáveis, fechadas a sete chaves num baú de adamantino, por uma questão de segurança. - E nós somos os seus maiores usurpadores.

A maior parte dos problemas de relacionamento, sejam estes entre amigos, vizinhos, familiares, cônjuges ou colegas de trabalho, têm a mesma raiz: o sentimento de desvalorização. Lamentamo-nos porque não nos valorizam, sem perceber que este poço sem fundo irá acompanhar-nos para onde quer que nos desloquemos, porque ele é nosso, e não dos outros, que apenas replicam a nossa relação connosco.

Mas de onde vem isto? Este buraco na alma é a dor causada pelo amor que não sentimos por nós mesmos. Desejamos que sejam os outros a amarem-nos, em proporções desmesuradas, por eles e por nós. Para que consigamos amar-nos e acreditar que temos valor, têm de ser os outros a demonstrá-lo. - É isto que pensamos sem pensar, quando nos sentimos desvalorizados.

Contudo, os outros não entendem tal necessidade. Por muito que nos amem, nunca será o suficiente para fazer mudar de opinião o nosso obstinado grupo de jurados interno, que já nos condenou ao desvalor, enviando-nos para os calabouços da auto-comiseração!

E cresce a insatisfação, o ressentimento, a frustração. Os outros fartam-se de nós. Quem pode censurá-los, se até nós já nos fartámos de nós mesmos. Estamos por nossa conta.

Ainda que tenhamos as mais refinadas e admiráveis qualidades humanas, ninguém nos amará, se não o fizermos primeiro. Em boa verdade, “não há amor como o primeiro”. Esta expressão, que tem sido pobremente interpretada desde sempre, significa que não existe amor que se possa equiparar àquele que sentimos por nós mesmos. Logo, nenhum tipo de amor externo, por mais profundo e idílico, poderá compensar tal inexistência.

A carta 5 de Ouros, esta semana, confronta-nos com as nossas fragilidades e ensina-nos que temos de ser nós a automotivar-nos, porque mais ninguém o fará. Mesmo que tenhamos de fazer das tripas coração para conseguir perdoar os outros pela sua incapacidade de nos amarem como achávamos que merecíamos. 


Porque só quando reconhecemos que, afinal, o nosso vazio era um rio de amor que não tinha para onde desaguar, conseguimos compreender que os outros nos amaram na medida exacta que precisamos para encontrarmos o amor por nós mesmos.

É tempo de partir espelhos e de ver-nos a partir de dentro, sem recear uma maldição de sete anos de azar, mas, pelo contrário, preparando-nos para muitos anos de amor pleno. 


Ensinemos o mundo a amar-nos pelo exemplo: amando-nos a nós mesmos. E se, mesmo assim, o mundo não entender de imediato a lição, não devemos, jamais, parar de ensiná-la. Tomemo-lo como missão de vida. E deixemos que aqueles que insistem no desamor tenham tempo e espaço para que também o encontrem dentro de si mesmos.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 24 Março

Deixar de Beber Leite : Vantagens e Desvantagens


Há cerca de 3 anos, depois de ler alguns estudos sobre o assunto, tomei a decisão de deixar de consumir leite (seja de origem animal ou vegetal).

Na época, só encontrei estudos realizados por entidades, e não relatos de indivíduos, de pessoas reais. Assim, após este longo período de tempo, venho partilhar a minha experiência e os resultados positivos e negativos desta decisão. Talvez o meu testemunho neutro seja útil a mais alguém.

VANTAGENS
Os benefícios no aparelho digestivo foram bastantes: nunca mais tive cólicas matinais, perturbações na flora intestinal, ou enjôos após tomar o pequeno-almoço - que era algo que me acompanhava desde a infância. Ganhei algum peso, 4 ou 5 Kgs (o que, no meu caso, que sempre fui uma criatura magra, classifico como vantagem! haha!).

DESVANTAGENS
As minhas unhas passaram a crescer mais devagar (o que não me incomoda, pois sempre usei unhas rentes). O meu cabelo perdeu alguma força. Embora seja bastante longo, ficou mais fino e cai facilmente, o que me levou a tomar algumas medidas (assunto que irei desenvolver nos próximos dias - fiquem atentos!).

Alternativas para o pequeno-almoço

Cresci a beber leite todos os dias ao pequeno-almoço, como milhares de outras pessoas. Depois de deixar de consumi-lo, a minha primeira questão foi, justamente: "Então, e o que é que agora passo a beber de manhã?"

Bebo chás (diversos), como yogurte com muesli, bebo sumos, ou faço smoothies.
Muito raramente, bebo cappuccino (daqueles que se compra a mistura já feita e é só juntar água quente). Vou alternando consoante o que tenho em casa, o tempo disponível para preparação e a minha vontade.

Ninguém me pode chamar copinho-de-leite,
Hazel

Uma Questão de Atitude

A auto-confiança é uma peça de roupa absolutamente impecável, sem vinco nem mácula, que assenta como uma luva sobre a nudez humana. 

É de tal forma valiosa, que todas as lojas de roupa oferecem a ilusão de proporcioná-la. As marcas mais caras elevam a fasquia - quanto mais inflaccionado o artigo, maior a imagem de poder e segurança em si próprio que o seu portador irá transmitir. 
As pessoas não têm feito outra coisa nas últimas décadas, senão comprar auto-confiança com prazo de validade - que dura até ao fim da estação, quando as roupas passam de moda. 

Para que sejamos felizes, amados e bem-sucedidos, temos de ser confiantes. 
É um ingrediente essencial. Na sua falta, prevalece uma fragilidade que nos isola e faz sentir incapazes. Se avaliarmos com um distanciamento quase estrelar, todo este jogo de espelhos em torno da imagem cria a ilusão de auto-confiança ao mesmo tempo que no-la retira e mantém reféns de uma aprovação que achamos precisar.

Mas, afinal, o que é a auto-confiança? Consiste em confiar em nós mesmos, não nas roupas que usamos, ou no carro que temos. Confiar no interior, sem depender do exterior. Teoricamente, deveria ser assim. Na prática, não é. Na essência, continua a ser.

Isto remete-me a uma entrevista de emprego a que assisti certa vez, numa multinacional igual a tantas outras. O jovem entrevistado apareceu de calções com padrão colorido havaiano, t-shirt e chinelos de enfiar no dedo. Enquanto dissertava sobre as suas anteriores experiências profissionais, de perna esquerda traçada sobre a direita, brincava distraidamente enfiando o dedo indicador entre os dedos do pé.

É interessante recordar o contraste entre o rapaz que trazia as pernas cheias de areia da praia e os funcionários da empresa, que caminhavam de forma muito séria e profissional, desprovidos de expressão corporal, como autómatos. Todos usavam o mesmo corte de cabelo, curto, higiénico e discreto, e os mesmos sóbrios fatos de executivo que, na casual friday, davam lugar a uma camisa de corte perfeito e calças de modelo chinos.

Acreditavam-se tão seguros de si que, nos seus olhares jocosos para com o jovem entrevistado, se revelava o quão escravizados estavam pelas normas instituídas. O rapaz nunca se apercebeu. Ou, se se apercebeu, não se incomodou. Ele vestia a verdadeira roupa da auto-confiança. - E ficou com o emprego.

O Rei de Paus, esta semana, desafia-nos a ser quem somos, sem precisar da aprovação de ninguém. A irmos mais longe, desbravando caminho para além das multidões despersonalizadas, manifestando a nossa unicidade. A transformar chumbo em ouro, sendo alquimistas de nós mesmos, pois somos feitos de luz - e nascemos para brilhar.


Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 17 Março

Terapia Regressiva


A Terapia Regressiva com Reiki permite, como o nome indica, voltar atrás para curar.

Estas e outras questões poderão ser respondidas através da Terapia Regressiva:

- Porque é que alguns relacionamentos, em particular os familiares, podem ser tão dolorosos, ou mesmo impossíveis de se manter?
- Qual a origem de certos medos ou fobias?
- Qual a origem de certos padrões de comportamento negativos ou doenças?
- Que aprendizagens e desafios trouxe de outras vidas anteriores?

Como se processa?
O paciente submetido à Terapia Regressiva com Reiki encontra-se sempre consciente. Não é praticada hipnose. Durante todo o processo, é o próprio paciente que vê com os seus olhos as outras existências que teve, reconhecendo padrões, desafios ou condicionamentos resultantes no momento actual. As emoções poderão ser sentidas com grande intensidade, despertando momentos de catarse.

Porquê voltar ao passado?
A minha recomendação, dado ser um processo tão delicado quanto imprevisível, é recorrer à Terapia Regressiva apenas quando nada mais parece resultar, e é imprescindível obter uma resposta ou esclarecimento que permitam recuperar a paz interior e viver em plenitude.
Porque ninguém merece viver sempre "com uma pedra no sapato".

Poderei descobrir que fui uma figura histórica numa vida passada?
É praticamente impossível! As possibilidades são ínfimas, microscópicas.
O mais provável e comum é confrontar-se com outras existências cheias de desafios, e reviver as emoções associadas.


A Terapia Regressiva com Reiki apenas pode ser realizada presencialmente.
É impossível determinar previamente a duração de uma sessão, que pode estender-se de 2 a 4 horas.

Local: Carcavelos e Oeiras
Valor: 80€
Marcação: casaclaridade@gmail.com

Hazel Claridade
Mestrado em Reiki Essencial

O Cão de Loiça



Todas as casas têm em algum canto discreto, fundo de gaveta, ou entalado entre os livros, um bibelot feio e deprimente que não fica bem em lado algum e ninguém sabe o que lhe fazer. 

Vai-se empurrando para longe da vista, na inconsciente e vã esperança de vir a ser engolido pelo triângulo das Bermudas que habita debaixo do mesmo tapete para onde varremos todos os nossos assuntos mal resolvidos - até ao dia em que recebemos a visita de alguém que, com olhos de lince e sem papas na língua, exclama:
- Macacos me mordam, de onde é que desencantaste essa fancaria?

E eis que a realidade se exibe sem pudores, desnuda e desafiadora perante o constrangimento dos nossos olhos. 

Às vezes, sentimo-nos como esse bibelot, desprovido de valor e de serventia, nem mesmo a de enfeitar os móveis, vítima dos tempos que estão sempre a mudar e a exigir que se mude com eles. 

Se resistimos à mudança, ou mudamos de forma desleal em relação a quem realmente somos, apenas podemos esperar mais insatisfação no futuro - são as regras do jogo.

Que resta, encolher-nos? Desculpar-nos, desfazer-nos em lamentos, tentar dissimular a feiúra (que nada mais é senão a falta de amor e de respeito por nós mesmos)?

Se foi isso que sempre fizemos - baixar-nos para não dar nas vistas, calar para não incomodar os outros - então, aceitámos desempenhar o papel de vítima, do indesejado cão de loiça dos olhos tristes, desprezado e esquecido no fundo de uma gaveta com cheiro a naftalina.

Até ao instante em que se faz luz e, num rasgo de auto-libertação, deixamos de curvar as costas para endireitá-las com a mesma fibra e tenacidade de um girassol que, durante a sua vida inteira, todos os dias se recusa a murchar e se vira em direcção ao Sol. 


É então que assumimos todos os nossos pontos brilhantes assim como os baços, tomamo-los como nossos - porque o são - e não mais os escondemos. 

Damos um passo em frente e deixamos de andar a marcar passo, ou a seguir os passos dos outros. 

O arcano Julgamento, que se repete após ter saído na edição de 25 de Fevereiro, volta a confrontar-nos com aquilo que ainda está desarrumado na nossa vida, para que o arrumemos de vez e possamos finalmente afirmar, altivos e seguros: 

- Sou um cão de loiça, e tenho muito orgulho nisso!

Coloquemos o recém reconciliado bibelot em cima da televisão, numa assumida ode ao mau gosto feliz, genuíno e livre, por oposição ao bom gosto impessoal, submisso e sem voz própria. Ou deitemo-lo fora de uma vez por todas. Mudar é bom, quando mudamos para aquilo que sempre quisemos ser.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 10 Março

Palavras e Expressões Alentejanas


Um destes dias, peguei no lápis e no meu caderno de pensamentos, e comecei a reunir uma lista de palavras e expressões alentejanas com que cresci. Ai que bem que soube! Esta vossa escriba não nasceu no Alentejo, mas a parte que vai desde as costelas flutuantes até às unhas dos pés é feita de 50% de genes alentejanos.

Com respeitosas desculpas por algum palavreado que poderá constranger alguns mui nobres leitores de trato mais cerimonioso - que os alentejanos de outrora chamavam tudo pelos nomes, ou então inventavam designações mais castiças - atrevo-me a partilhar este pequeno acervo de expressões coloquiais das terras do além Tejo, resgatado dos recantos mais poeirentos da minha memória, assim como algumas histórias:

Levas um par de nalgadas nã' tarda.
Foi logo a primeira expressão que me lembrei, porque levei muitas. Os alentejanos não usam a palavra "rabo". Só para os animais. Os humanos têm nalgas. Nalgadas são palmadas no rabo.

Pantomineiro (pronuncia-se pant'minêro).
Mentiroso. Aldrabão. Aquele que diz pantominices.

Estás aqui, estás a levar uma estampilha.
Bofetada. Também levei, especialmente da minha professora primária, que estava na menopausa e, para aliviar os picos de fúria, fazia o gosto ao dedo a esbofetear os miúdos que se esqueciam de fazer os trabalhos de casa (e eu era dolorosamente esquecida...).

Caga-te, porca.
Adoro esta. Tem tanto de embaraçoso quanto de cómico. Já não a oiço há anos.
É o equivalente ao "gaba-te, cesto", quando alguém tem a mania da superioridade e gosta de se vangloriar. Digo-a muitas vezes mentalmente.

Vou à da Conceição.
Ir "à da" é ir a casa de alguém que, geralmente, nunca é muito longe. No entanto, se a casa for longe, numa outra cidade a vários quilómetros de distância, nesse caso já se dizia "vou visitar a Conceição". Dizia-se sempre "à da", e nunca "à do", a menos que se tratasse de um homem que vivesse sozinho.

Cagalosa.
Havia uma vizinha alentejana com quem eu costumava ir para a praia de Carcavelos quando era pequena. Era uma mulher simpática, mas, benza-a a Deusa, muito bruta.

Na época, não sabia nadar. Ela obrigava-me a ir para a água; levava-me ao colo e deixava-me cair quando vinham as ondas e eu não tinha pé. Acabava por ir ao fundo, em pânico com a água a entrar-me pelo nariz e pela boca. Quando ela me agarrava e voltava a tirar da água, ria-se e dizia sempre "Ah, cagalosa!". - Eu ficava danada.

Cresci zangada com ela, porque passou um Verão inteiro a brincar aos afogamentos comigo e ainda tinha o desplante de me chamar cagalosa, porque sabia que me arreliava. Fingia que não a via quando passava na rua e, mesmo assim, ela exclamava sempre um sonoro e denunciador "OLH'Á CAGALOSAAA!".

Ainda hoje, se ela me encontrasse, me chamaria assim. E se na adolescência eu me encolhia de vergonha pela embaraçosa saudação, hoje tenho saudades de ouvi-la.
Mas da boca desta senhora. Que ninguém se atreva a chamar-me cagalosa. haha!
Quase me esquecia de referir o significado da palavra. Um cagaloso é alguém medroso.
[Esta vossa escriba já não tem medo da água, mas ainda sou cagalosa com as ondas, especialmente as do Guincho, que são bravas!]

Anda lá que n'a morres de coice de boi.
Deixa lá que isso não te vai fazer mal (quando temos medo que um determinado alimento nos vá fazer mal).

Rodilha = Pano de limpar a loiça. Ou roupa amarrotada.
Amolar = Arreliar. Aborrecer.
Assomei-me à janela. = Espreitei pela janela.
Titarada = Macacada. Confusão. Palhaçada.
Gaiato. Ou gaiata. = Criança. Rapaz ou rapariga novos.
A dormir e a caçar ratos. = A fingir que está a dormir.

Temos a porca nas ervilhas.
O equivalente a "está o caldo entornado". Ou ao igualmente ameaçador "mau, mau..."

Temos a burra nas couves. = Idem anterior.

Porra madrinha, que se caga a noiva.
Equivale a "porra", mas mais refinado, como se pode v(l)er. Expressão de espanto, admiração.

Parece que saíste do cu do burro. = Tens a roupa toda amarrotada.
Eu pareço sempre saída do cu do burro, porque não passo a ferro há muitos anos.

Foi prender o burro. = Amuou, fez birra.
Está com o grão na asa. = Está bêbedo.
Isso traz água no bico. = Ter segundas intenções.
Testo = Tampa (da panela, por exemplo).
Chocolatêra = Cafeteira.
Aventar = Deitar fora.
Canalha = Grupo de miúdos.
Astro = O céu. Exemplo: "O astro hoje está carregado, vem lá trovoada."
'tou cá com uma lanzêra. = Estou cá com uma preguiça/moleza.
Magano = Maroto, traquinas.
Zorra = Raposa
Ametade (pronuncia-se com os dois "ás" abertos) = Metade.

Cagando e andado (nem acredito que escrevi isto),

Hazel

Faça Chuva ou Faça Sol



“Março, marçagão, de manhã Inverno, à tarde Verão”, diziam os antigos. O mês de Março é um mês de transição nas estações, de tempo incerto, humores flutuantes, ora esperançosos, ora macambúzios. Nas escolas, deveria haver uma disciplina dedicada apenas à contemplação da Natureza, pois as mais valiosas lições que precisamos de aprender são-nos continuamente ensinadas por esta incansável professora que não desiste de nós, por muito que reclamemos dos seus métodos de ensino.

Os ciclos da vida são iguais aos da Natureza que, tanto nos enche a casa e a alma de Sol, calor e esperança, como de vento frio que escancara atrevidamente as janelas mal trancadas e nos rouba o conforto, as certezas e o ânimo. É tudo tão maior que nós. 
E, mesmo assim, ainda acreditamos que conseguimos controlar alguma coisa.

Nós não controlamos absolutamente nada. Zero. Não controlamos a Natureza, não controlamos o trânsito (excepção concedida aos polícias-sinaleiros e, mesmo assim, há sempre o risco de alguém lhes desobedecer), não controlamos o futuro dos nossos empregos, não controlamos a velocidade da ligação à internet, não controlamos os remoinhos no nosso cabelo, não controlamos a nossa própria vida. 

Já é uma sorte tremenda se nos conseguirmos controlar a nós mesmos perante a imprevisibilidade das pessoas que, por vezes, nos pregam uma rasteira quando julgávamos que nos iam dar uma palmada amigável nas costas; ou das situações, que pareciam estar tão bem encaminhadas, mas, afinal, nos escaparam como areia da praia entre os dedos.

Esta semana, o Cavaleiro de Espadas, frio e contundente como o vento invernoso que se debate contra a chegada da Primavera, mostra-nos a necessidade de aprender a respirar no meio do caos, lidar com os imprevistos e preservar a serenidade quando todos à nossa volta parecem ter enlouquecido ou perdido a noção dos valores humanos mais básicos.

Seguindo os ensinamentos da professora Natureza, lida-se com os dissabores e os imprevistos da mesma forma que se lida com um temporal que surge repentinamente e nos interrompe um dia que prometia ser quente e ameno: sem lamentos nem zangas. 

Aceitamos a inevitabilidade do que nos rodeia e adaptamo-nos com a mesma rapidez com que fomos surpreendidos. Fácil de dizer, mas difícil de fazer, pensarão. 

Ainda assim, é mais eficaz ir buscar um chapéu de chuva do que pôr a cabeça de fora da janela e reclamar com as nuvens: “Oiçam lá, eh vocês aí em cima! Acham que isto é tempo que se apresente?” Não... Não creio.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 3 Março